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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Heródoto e os começos da história

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» Heródoto e os começos da história

» O cenário de Heródoto
 
Os feitos defensivos das cidades gregas haviam sido espetaculares. Por duas vezes, em 490 e outra em 480-478 a.C., elas, coligadas,conseguiram derrotar os exércitos e as esquadras dos Grandes Reis da Pérsia. Soldados, marinheiros, simples cidadãos e seus líderes, cobriram-se de glória na proteção do torrão natal, no momento em que quase toda a Hélade, sempre em desavença, conseguira unir-se como se fora um homem só para espantar os bárbaros de volta para o Império da Ásia. Quem se animaria a registrar aquilo tudo? Onde estaria o logógrafo grego hábil em dar uma forma imorredoura às façanhas que ocorreram?

Heródoto lê em público

A carruagem da aurora, a história chega para iluminar
Tratou-se de um acontecimento memorável. Num certo mês do ano de 446 a.C., convocados para uma assembléia, um número impreciso de cidadãos atenienses reuniu-se na Eclésia para ouvir a leitura de uma investigação feita por um escritor vindo de fora da cidade. Heródoto de Halicarnasso (cidade da Grécia Jônia), local onde nascera, provavelmente no ano de 484 a.C., dispunha-se a transmitir ao público trechos da obra que recém findara. Ele a denominou de História, uma investigação, uma enquête, uma averiguação, uma informação. Tudo isso cabia como sentido da palavra que escolhera para definir o que até então fizera.

Como tantos outros intelectuais gregos, ele vivia no exílio, escolhendo a cidade de Turii na Magna Grécia ( sul da Itália) como seu abrigo e local onde encontrara tranqüilidade suficiente para redigir os nove livros que compunham o total do seu trabalho. Entre tantos pensadores, poetas e escritores, só ele foi capaz de captar o sentimento coletivo dos gregos, especialmente dos atenienses, em não deixar que o que ocorrera durante a invasão vinda da Ásia caísse no olvido. A leitura foi um sucesso. Pela cidade inteira comentou-se o acontecimento. Heródoto do dia para noite alcançou a imortalidade e fundou um novo gênero científico e literário.

Um novo gênero

Verdade que outros escritores antes dele anteciparam-se em anotar as angústias e as sensações difusas dos habitantes de Atenas frente ao desafio que fora o ataque a sua cidade. Não somente a população inteira fora evacuada para não cair prisioneira do inimigo como ainda sofrera com a perda total dos prédios sagrados situados no alto da acrópole.

O templo do Partenon ( ainda que não o famoso construído depois por Péricles) que acolhia a deusa protetora da cidade, fora destruído por um incêndio. Durante dois anos eles padeceram de temor e medo devido à presença dos bárbaros ocupando-lhes as cidades, as terras e rondado-lhes as águas.

Um quarto de século antes da leitura de Heródoto, ao redor de 472 a.C., o famoso trágico Ésquilo(525-456 a.C.) levara ao público uma peça intitulada Persai (Os Persas), para apontar as conseqüências da hybris, da soberba desmedida de um déspota, no caso o rei Xerxes, que comandara pessoalmente a campanha contra as cidades gregas, e como isso o levara à perdição e ao desespero.

O autor mesmo era um veterano das campanhas de Maratona, na qual perdeu seu irmão Kynegeiros, Artemísia, Salamina e Platéia, batalhas memoráveis nas quais lutou como hoplita, simples soldado de infantaria.

Mas era uma encenação e, com o tempo, provavelmente seria esquecida ou perdida como foi o caso do drama de Frínico A tomada de Mileto. Daí a importância dos livros de Heródoto, que hoje bem mereceriam ser classificados como história do presente, visto que os assuntos tratados, centrados ao redor das Guerras Medas, ou Guerras Persas (490-478 a.C.), ainda estavam bem presentes na memória da coletividade quando ele os redigiu.

Superando o Ciclo Mitológico (de cultura oral), e o Ciclo Épico (dominado pela Ilíada e a Odisséia), nascia com ele um novo gênero de expressão escrita que, se bem fosse aparentado com a poesia épica, especialmente com Homero, era algo diferente do que os gregos conheciam.

Não se tratava de deuses, de titãs ou de heróis sobre-humanos, mas sim uma escrita em prosa que expunha gente de carne e osso, pessoas com os defeitos e as virtudes comuns aos mortais, Coube a ele, pois, fazer a transição final do plano divino e do plano heróico para o plano humano. Com Heródoto surgiu uma verdadeira dinastia de historiadores gregos que, seguidos por Tucídides, Xenofonte, Políbio e Plutarco, somente se encerrou séculos depois com a obra de Zózimo (historiador bizantino do século V, autor da Historia Nova).

Um método de investigação

Ainda que sua intenção fosse, como ele escreveu no proêmio (Livro I), registrar os grandes feitos de gregos e bárbaros, "para que não se desvanecesse no tempo a memória dos acontecimentos e dos homens", procurou agir a maior parte do tempo como um cientista atrás da verdade, do que realmente havia ocorrido no tempo daquelas guerras.

Não que ele renunciasse a uma história fantástica desde que ela servisse para esclarecer ou melhor ilustrar algum acontecimento que lhe pareceu fabuloso. Recorreu tanto a testemunhos oculares como escritos, forrando-se por igual da literatura que de algum modo tivesse algo a haver com o que estava pesquisando, não se furtando em fazer suas próprias considerações e observações sobre muitos dos episódios. Intervenção que ele denominou de gnómai.

É de supor-se que os nomes de Milcíades e de Temístocles, vencedores de Maratona e Salamina; de Pausânias, o chefe espartano que derrotou os persas em Platéias; do heróico rei Leônidas que, junto com 300 dos seus, tentou deter os invasores nas Termópilas, fizessem parte da sua infância. Eles, de certo modo, substituíram a altura os mitológicos heróis de Tróia, tão íntimos da maioria dos jovens gregos, com a vantagem de serem de carne e ossos, portanto, mais próximos deles.

Além disso, os heróis retratados por Heródoto não recebiam nenhuma visita alada ou viram-se, num repente, brindados por um impulso divino que os auxiliassem em meio à batalha a dar um fim num inimigo, tal como ocorria com os mitológicos varões de Homero. É o homem enfim, ainda que atormentado por augúrios, sonhos, previsões e assombrações, quem ocupa a posição central da obra dele.

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