Educação História por Voltaire Schilling Cultura e Pensamento
Boletim
Receba as novidades no seu e-mail!
Fale conosco
. Envie releases
. Mande críticas, dúvidas e sugestões
EducaRede
Entre no portal da escola pública
História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

A Literatura Soviética no Degelo

Leia mais
» A Literatura Soviética no Degelo
» Os exageros do Realismo Socialista
 
Em dezembro de 1953, oito meses após a morte de Stalin, o respeitado jornal literário soviético Novy Mir, Novo Mundo, abriu suas páginas para um surpreendente artigo crítico. Vinha assinado por Vladimir Pomerantsev, intitulado Da sinceridade na Literatura. Era uma bomba. Simplesmente demolia com a doutrina soviética oficial aplicada às artes: o chamado Realismo Socialista.

Acusou-o de estimular um sem fim de platitudes e novelas insossas, escritas não por gente do ramo, mas por uma linha de montagem. Depois de se ler o terceiro romance ou novela, todos iguais, assinalou ele com coragem, o leitor sentia-se insultado. E o pior de tudo é que era uma ficção insincera, tediosa, tão repetitiva quanto ter que tomar a mesma sopa e comer a mesma costela no restaurante de sempre: um puro sonífero. "Digam não aos tratores!" Conclamou ele aos colegas escritores. Começava assim o período do degelo da historia e da literatura soviética.

O enterro solene

Prazdnik (tela de V. V. Gorin, 1986)
Curiosamente, o temor que Stalin instalara no coração de todos os russos ao longo de uma ditadura que se estendera por trinta anos, voltou-se contra ele nos instantes da sua morte. Com receio de incomodá-lo ou contrariá-lo, os que lhe eram mais próximos, como Laurenti Beria, o odiado diretor da NKVD, a polícia política do regime, não ousaram chamar um médico às pressas para socorre-lo no momento do grave derrame que o paralisou nos começos de março de 1953. Se perturbasse inadvertidamente o tirano, Beria temia cair em desgraça.

Encontraram-no caído perto do gramofone onde estava uma gravação de Mozart executada por Maria Yudina, a sua pianista favorita, concertista que odiava o regime de Stalin, mas que ele mantivera viva, ainda que excluída de muitas outras atividades pertinentes a uma artista de gabarito internacional como ela.(*)

Num daqueles dias pavorosos do inverno russo, uma multidão se reuniu em Moscou para prestar-lhes os adeuses derradeiros. Uma enorme fila escura de gente tristonha arrastava-se pelas ruas cinzentas da capital, sob um céu gélido, baixo e pesado como chumbo. Quase todos ali presentes, fossem adultos ou jovens, haviam sido criados ou nascido sob a tutela da mão-de-ferro dele. Era natural que sentissem o impacto do seu desaparecimento.

Os membros do Comitê Central, Bulganin, Malenkov, Molotov, Beria e Kruschev, queriam proporcionar-lhe um enterro tão magnificente quanto fora o de Lênin, ocorrido há 31 anos passados. O sentimento coletivo era de um enorme vazio, de estarem presenciando o fim de uma época, gloriosa e trágica. O Guia Genial dos Povos não existia mais, o Gengis Cã do comunismo, para muitos, desaparecera para sempre.

O misto de terror e respeito que Stalin inspirava era tal que até entre os que estavam presos por ele em longínquos campos de trabalho, os zeks dos Gulags, a noticia da morte provocou choque e lágrimas.

O poeta Eugeni Evtuchenko, então ainda jovem, deixou um testemunho candente do dia do enterro de Stalin, inclusive a cena em que centenas de pessoas, umas 500, foram pisoteadas e esmagadas, na tentativa de ver o cadáver. Até naquele momento do seu sepultamento o tirano ainda levava vidas com ele.

(*) Maria Yudina era uma personalidade e tanto. Ex-discípula de Shostakovich, vestida sempre de negro, com uma enorme cruz pendurada ao peito, dava seus recitais como se fora uma sacerdotisa de Orfeu, ao tempo em que tocava Bach e Beethoven, misturados aos modernos. Recitava poesia proibida e falava mal do regime, mas caiu no agrado de Stalin.

O começo de tudo

A. Tvardovski, redator-chefe da Novy Mir
O artigo reclamando da insinceridade, mesmice e mediocridade da literatura soviética, publicado no Novy Mir, teve a chancela do seu então editor-chefe, o poeta Alexander Tvardovsky, que até ali se conduzira como um impecável homem do regime. Ele ganhara fama durante a Segunda Guerra Mundial por criar, a partir de 1942, um tipo muito popular, o soldado Vasili Tyorkin: um herói modelar (o personagem mais lido e bem quisto entre os soldados russos que estavam no fronte).

O que, entre outros escritos, o fez receber o Prêmio Stalin de Literatura, em 1947. Láurea que lhe fortaleceu muito a posição, projetando-o até o topo do famoso jornal cultural. Por ocasião da morte de Stalin, ele se encheu de coragem para divulgar um seu pequeno verso satirizando os compromissos de um escritor qualquer com as exigências dos comissários da cultura:

"Aqui está a sua novela, tudo em ordem/Mostra o novo método de se colocar os tijolos/ Lá esta em apoio um diretor-assistente, um gerente progressista e um velho vovô, todos marchando para o Comunismo/Estão também – ele e ela – os trabalhadores líderes/O motor funciona pela primeira vez/ O organizador do partido, a tempestade de neve, a fadiga, a crise, o ministro inspecionando as lojas, a festa do partido/Quão verdadeiro tudo isso parece/ O que é e o que deve ser/Mas tudo junto é tão indigesto que você se sente guinchando."

Provavelmente, até aquele momento, ninguém que pertencesse aos quadros superiores da nomenclatura (a elite dirigente soviética), tinha exposto publicamente sua discordância à linha do partido referente à literatura como Tvardovsky o fez naquela ocasião. Com apenas dez estrofes mordazes ele expôs o zdanovismo ao ridículo.

Por melhores que fossem no passado as intenções dos comunistas de levar cultura às massas por meio do apelo ao Realismo Socialista, doutrina adotada em 1934, o resultado final da custosa obediência fora a publicação de pilhas e pilhas de narrativas ficcionais monótonas e repetitivas. Páginas e mais páginas de mesmice e pieguice.

Qualquer escritor soviético consciente, ainda que não ousasse dizer abertamente, sabia que aquilo tudo era um lixo. Os livros editados então na URSS, e que passavam por literatura, faziam enrubescer a quem se orgulhava de ter entre seus antepassados autores da grandeza de um Tolstoi ou de um Dostoievski.

Por conseguinte, a política do lento degelo que se seguiu ao longo dos anos 50 após o desaparecimento de Stalin - que deu por primeiro grande ressonância à novela de Ylia Ehrenburg, publicada em 1954 exatamente com este titulo O Degelo (Ottepel, em russo), para captar a situação de mudança da União Soviética - na verdade foi antes impulsionada pelas estrofes de Tvardovsky.

O começo do degelo

Sintomático do mundo obscuro em que o regime levara as letras era o fato de que desde o Iº Congresso dos Escritores de 1934 nenhum outro igual se dera. Vinte anos transcorreram até que os intelectuais tomassem coragem para marcar um outro encontro, o do IIº Congresso, que foi realizado entre 15 e 26 de dezembro de 1954.

A estrela desta feita foi Ylia Ehrenburg, naquela ocasião um dos escritores soviéticos mais conhecido em todo o mundo. No inicio da sua exposição ele tratou ainda de justificar as exigências que Andrei Zhdanov, o porta-voz do Partido Comunista, fizera por ocasião do Iº Congresso na defesa da doutrina do Realismo Socialista.

Afinal, disse ele, tratava-se então de "construir não somente cidades, mas um povo". Ainda podia desculpar-se a instrumentalização da literatura e das demais artes feita pelos comunistas frente a um objetivo maior que era a construção da União Soviética, para torná-la uma poderosa sociedade industrial protegida por um fortíssimo estado que a colocasse a salvo dos inimigos.

Todavia, mudando ele de tom, assegurou que aquela época (de cabestro da literatura pelo partido) se fora. As modificações sociais e econômicas da União Soviética foram tão espantosas e tão rápidas que provocaram um descolamento entre as propostas ficcionais e a realidade.

Não se tratava mais de abrir valas para as novas industrias ou ajudar a semear os campos para as boas colheitas nos colcozes. Agora a verdadeira missão dos escritores era trazer a realidade para dentro dos lares russos.

     próxima página
Veja todos os artigos | Voltar