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CULTURA E PENSAMENTO

Os exageros do Realismo Socialista

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Não é que não houvesse bons livros, ponderou, o problema é que não se encontrava nem a verdade nem a sinceridade neles. Mesmo os autores que tentavam ser autênticos pareciam falsos (ou por não entenderem bem o mundo ou porque enxergavam tudo preto e branco). Ainda que embelezassem os seus heróis e lhes atribuíssem virtudes extraordinárias, eles eram desprovidos de espiritualidade.

Cortando o aço (Pôster de V. Lebedev)
Não economizavam ouro, ironizou Ehrenburg, quando descreviam um apartamento comunitário ou a fartura das lojas que existiam dentro das fábricas. Os clubes das fazenda coletivas eram tão bem dotados de tudo que lembravam as elegantes mansões da velha nobreza russa. A criançada que aparecia nas novelas, contos e romances russos, era uma maravilha, todos educadinhos, disciplinados, estudiosos e obedientes aos pais, meninos e meninas que infelizmente nada tinham em comum com a garotada soviética.

Este tipo de narrativa chegara ao fim. Exaurira-se. Insistiu que a literatura soviética viciara-se na supersimplificação das coisas, tornando-se não só aborrecida como divorciada da realidade. O que realmente importava era alcançar a verdade: "A sociedade que esta se desenvolvendo e ficando forte não deve temer a retrato verdadeiro: a verdade somente é perigosa para os tolos", lembrou aos seus colegas.

Lançou então o desafio aos que lá estavam presentes no Congresso para que fizessem todo o possível para que a literatura russa fosse "merecedora do nosso grande povo", visto caber aos romancistas e aos poetas marchar na vanguarda da sociedade. São eles que atingem, bem ou mal, diretamente o coração do povo, fazendo previsões para o futuro ao tempo em que mostram as sombras do passado, pois a "tarefa da literatura é ajudar as pessoas a mudar, a serem grandes, melhores e mais fortes".

Em busca de um novo destino

Ylia Ehrenburg
Nos começos do regime, continuou Ehrenburg, a sociedade estava dividida entre os alienados e os inimigos da revolução de 1917, o que de certo modo explica a constante polarização entre o herói e o vilão nas narrativas soviéticos daquela fase. Na baixa qualidade da literatura feita naquela época, o herói tomava forma tal como se fora pincelado por um medíocre pintor de ícones. E ai dos escritores se assim não o fizessem. Bastava dar um toque qualquer de realidade, "pintar com um tanto de cal e fuligem", para que um crítico qualquer a serviço do regime saltasse berrando: "isso é uma ofensa ao povo soviético!"

Todavia, nossa fé no povo e no partido, não nos priva da nossa individualidade. Bem ao contrário. Ehrenburg via agora na sociedade soviética a existência das pré-condições para que dela brotasse a grande literatura russa. Onde está o código 0 entendido que cada um deve escrever sobre o que melhor lhe apraz - que obrigue ou decrete exatamente o que cada um deve escrever? Entretanto, para isso, para retomar a liberdade criativa há de se fazer cessar a intromissão externa (a ingerência do partido comunista), pois muitas vezes o destino do escritor é decidido não por seus pares, mas por gente que "está por perto da literatura" (i.é. os censores).

Ainda assim, Ehrenburg, no final do seu discurso não deixou de lembrar que as letras soviéticas ainda faziam parte do sistema defensivo do país. Estavam, pois, comprometidas.(*)

Seja como for, o célebre discurso secreto feito por Nikita Kruschev, em fevereiro de 1956, denunciando os crimes de Stalin durante o XX Congresso do Partido Comunista, foi antecedido pelas severas criticas que os escritores soviéticos vinham fazendo ao modo com que eram tratados pelo regime. Pode-se, pois, inferir que o stalinismo, antes da ação dos políticos, começou a ser desmontado primeiro pelos literatos russos.

(*) Na ocasião do discurso dele vivia-se em plena guerra fria, período crítico e perigoso em que mesmo a morte de Stalin, um linha-dura anti-Ocidental, não desanuviara. A URSS sentia-se ameaçada por um possível ataque nuclear que poderia ser desfechado pelas potências capitalistas a qualquer momento, daí entender-se o tom patriótico que o fez colocar a literatura soviética ao lado do "forte exército e poderosa industria", bem como do povo, como fator de dissuasão. Era o tom da época.

Bibliografia

Ehrenburg, Ylia – Memórias. Rio de Janeiro. Editora Civilização Brasileira, 6 v.

Ehrenburg, Ylia - O Degelo.

Evtuchenko, Eugênio – Autobiografia precoce. Rio de Janeiro: Editora José Álvaro, 1967.

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