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CULTURA E PENSAMENTO

A mesmice literária

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» A Literatura Soviética e o Realismo Socialista

» A mesmice literária
 
O enquadramento dos escritores soviéticos e a imposta adesão deles ao projeto de stalinização, que fez deles gancho, alavanca ou manivela dos Planos Qüinqüenais aplicados às letras - algo que até então jamais se vira na história do país - aviltou enormemente as letras russas. Aliás, se tal exigência houvesse no tempo do czar, seguramente não se conheceria nomes como o de Gogol, Tchekov, Tolstoi ou Dostoievski, admirados pelo mundo inteiro.

Desde então, leu-se, em tiragens de milhões de exemplares, um sem-fim de histórias banais, escritas em má prosa russa, tratando do sucesso da coletivização das terras, dos magníficos episódios da implantação de uma metalurgia ou siderurgia, da bravura dos lideres proletários na solidificação da nova sociedade, da alegria dos colcozianos durante a colheita, e da sempiterna sabedoria do comissário ou do membro do partido no local onde a narrativa transcorria, instrumento da clarividência do Guia Genial dos Povos, o camarada Stalin.

Enredos banais

Stalin num colóquio com soldados, marinheiros e trabalhadores (tela de K.D.Trokhimenko)
A complexidade psicológica dos personagens, as idiossincrasias de cada um, as nuanças do relacionamento amoroso, os lados amargos da vida, e de tudo mais esqueceu-se frente ao predomínio de uma narrativa heróica centrada nas ações épicas dos proletários, operários ou camponeses, na "construção da sociedade futura", na qual os episódios eram entremeados por longas digressões, espaço no qual o autor, como se fora um arauto, repetia as palavras de ordem emitidas pelo partido naquele momento. Cada uma daquelas páginas abrigava não seres humanos de carne e osso mas titãs soviéticos esculpidos em mármore ou forjados no bronze. Um tédio e uma chatice só.

Era uma literatura de locomotivas e trilhos, de tratores e ceifeiras, de tornos mecânicos e bombas hidráulicas, de construção de barragens e hidrelétricas, de memoráveis escavações nas profundezas da terra, de onde emergia o mineiro stakanovita (*), coberto de pó negro, alardeando um novo recorde de produção, pronto a receber uma medalha e um diploma de louvor do representante do partido.

O "diabo" se fazia presente na figura do sabotador, na vilania do agente estrangeiro infiltrado (cuja duplicidade sempre terminava desmascarada pela vigilância e proficiência do comissário local), ou simplesmente no comportamento do indiferente, do cético, o tipo que não se deixava empolgar pela "construção do Comunismo", mas que no fim se convertia à causa. Era um mundo maniqueísta, do preto e branco, de aliados contra inimigos, no qual a figura central, observou mais tarde Ylia Ehrenburg, "era retratada com o pincel de um medíocre pintor de ícones".

(*) Expressão derivada de Alexei Stakhanov, um mineiro do Don, uma espécie de operário padrão ou super-homem da Rússia stalinista dos anos 30.

O começo do degelo

Jovens metalúrgicos (tela de I.Bevzenko)
Parece não haver até nos nossos dias um levantamento mais detalhado do total de escritores, artistas e pensadores que foram aprisionados, levados a cumprir pena no Gulag (o sistema de campos de concentração soviético), ou simplesmente executados à bala. A perseguição e extermínio da intelligentsia russa determinada pelos bolcheviques começara no ano de 1921, ainda sob Lênin.

A primeira foiçada atingiu nomes expressivos da poesia, tal como Nikolai Gumilev, o marido da célebre poetisa Ana Akhmatova e co-fundador da União pan-russa de escritores, e mais 61 outros, todos assassinados pela CHEKA de Petrogrado (acusados de conspiração contra-revolucionária, numa das primeiras cabalas inventadas pela polícia secreta soviética).

Outros se anteciparam ao triste fim. Sergei Esenin, por exemplo, "o filho pródigo da literatura russa", o poeta-camponês, desiludido com os acontecimentos expresso no poema A Estrela de Outubro me enganou, mato-se em 27 de dezembro de 1925. O mesmo fez o futurista Vladimir Maiakhovsky, ele que dissera aprender "o alfabeto nos letreiros folheando páginas de estanho e ferro", disparou-se chumbo no peito no dia 14 de abril de 1930, atendendo assim a sua famosa estrofe: "o coração suspira por uma bala".

Número de mortos que aumentou espantosamente à época da yezhovchnina, o Grande Expurgo dirigido por Nikolai Yezhov, diretor da NKVD, o Comissariado dos Assuntos Internos, entre 1936 e 1938, época de paranóia coletiva que serviu para Stalin colocar uma pá de cal sobre a tumba da intelligentsia e sobre os seus antigos companheiros de partido.

Os que conseguiram ainda manter-se vivos depois daquilo tudo, escritores e artistas, tiveram seus cérebros como que congelados, robôs controlados por uma poderosa burocracia que adquirira horror à mudança ou à inventividade. Nomes como os de Ilya Ehrenburg e Boris Pasternak sobreviveram apenas por um capricho do ditador, que pessoalmente os apreciava. Excepcional também foi o de Michail Aleksandrovich Sholokhov, um alto quadro do partido, autor de O Don Silencioso, tido como um "clássico do Realismo Socialista", talvez o livro mais lido na URSS e que o habilitou a receber o Premio Nobel de Literatura de 1965.

Entende-se assim o enorme impacto que a morte de Stalin, ocorrida em 5 de março de 1953, causou sobre o país e nas suas artes como um todo. O gigantesco tirano, "a Montanha Magnética", como indiretamente o designou Stephen Kotkin, que enregelara a alma da nação, tinha um lado humano: era mortal. O cadáver embalsamado dele, colocado inicialmente ao lado do de Lenin no mausoléu da Praça Vermelha em Moscou, foi um estimulo ao degelo geral que se seguiu.

Bibliografia

Capa do livro The Landscape of Stalinism: the art and ideology on Soviet space
Brooks, Jeffrey – Thank You, Comrade Stalin!: Soviet Public Culture from Revolution to Cold War. Princeton University Press, 1999.

Dobrenko & Naiman - The Landscape of Stalinism: the art and ideology on Soviet space, Washington University, 2005.

Volkov, Solomon – São Petersburgo: uma história cultural. São Paulo: Editora Record, 1997.

Ehrenburg, Ylia – Memórias. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1964-1970, 6 v.

Serge, Victor – Memórias de um revolucionário. São Paulo. Companhia das Letras, 1987.

Zhdanov, A . A. - Soviet Literature: The Richest in Ideas, the Most Advanced Literature (discurso no Iº Congresso de Escritores Soviéticos, 1934)
http://www.marxists.org/subject/art/lit_crit/sovietwritercongress/zdhanov.htm

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