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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

A Literatura Soviética e o Realismo Socialista

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Nos anos 30 do século XX, o período de relativa liberdade criativa e da independência dos autores encerrou-se na Rússia Comunista. Adestrada pelo partido, a literatura soviética e as demais artes deveriam seguir a doutrina oficial. A ordem era engajar-se com ardor na tarefa de construir a sociedade igualitária futura sob orientação infalível do camarada Stalin, pai provedor e guia espiritual da nação. A nova fase artística seria orientada pelos cânones proletários do Realismo Socialista. Foi este o sumário do discurso pronunciado pelo comissário Andrei Zdanov na abertura do Iº Congresso dos Escritores Soviéticos, realizado em 1934, que teve trágicas conseqüências para a história das letras do país.

O Realismo Socialista

Lenin e Gorki, o líder e o escritor (tela de I. A .Wladimirov)
"Eu inventei um novo gênero. O gênero do silêncio.

Isaac Babel - 1934


Após quase um vintenio, de 1910 a 1930, as vanguardas artísticas e estéticas européias estavam por chegar a um fim. O ocaso delas resultou de um conjunto de fatores que iam desde uma certa exaustão do experimentalismo, até a ascensão de regimes ditatoriais na década de 30 indispostos à tolerá-las. A devastadora Crise de 1929 no Ocidente, responsável pela ascensão dos ditadores fascistas, e os Planos Qüinqüenais na União Soviética de Stalin, abalaram profundamente a liberdade imaginativa até então alcançada.

Durante o Iº Congresso da União dos Escritores Soviéticos, realizado entre 17 de agosto e 1º de setembro de 1934, o comissário Andrei Zdanov, com apoio de Josef Stalin, Nicolau Bukarin e Máximo Górki, determinou que todos aqueles dedicados às artes & letras do país deveriam dali em diante orientar-se somente pela linha adotada pelo Partido Comunista.

Em anos anteriores, nos começos da revolução, quando a batuta do comissariado da cultura estava com Anatoly Lunacharsky, um bolchevique ilustrado e de temperamento liberal, todos os tipos de espetáculos dramáticos representados frente á multidões foram estimulados pelas autoridades. Deu-se então o império dos vanguardistas. Além da ousadia na composição de cartazes de propaganda do regime, eles foram convocados a decorar com seus desenhos abstratos e figuras geométricas os vagões dos trens que partiam para a guerra civil de 1918-1921.

Não que a tolerância predominasse. Eugeni Zamiatin (autor da novela Nós, fundador da distopia, inspiradora do 1984 de George Orwell), mesmo quando era integrante do partido comunista já denunciara a chegada de uma A Idade do Gelo, assegurando que a "verdadeira literatura não pode fluir da pena de obedientes e rotineiros burocratas, mas terá que ser produzida por loucos, eremitas, heréticos, sonhadores, rebeldes e céticos" (Tenho Medo, Jornal Dom Iskusstv, 1921).

O inferno do morticínio entre vermelhos e brancos, prosseguiu Zdanov, já fazia parte do passado, a reconstrução do país se completara, agora, expurgados os elementos da economia capitalista que ainda restavam, era o momento do salto em direção ao socialismo. Hora de dar um basta na iconoclastia e irreverência dos tempos anteriores e dedicar-se a forjar uma nova cultura: uma contrafação saudável à decadência literária da burguesia ocidental, atolada na pornografia, niilismo e misticismo. Soara a vez do Realismo Socialista.(*)

Estavam eles obrigados, pois, a idealizar romances, peças e novelas que estivessem ao nível do povo russo em geral, que sabia-se muito baixo, e que não abrigassem truques experimentais ou personagem complicados que confundissem ou embaralhassem os leitores. Além disso, havia uma arraigada crença de que os experimentos dos modernistas não passavam de importação, de estrangeirismos que pouco tinha com o sentimento ou a estética russa.

Deviam ser aliados do partido na luta contra o atraso, o analfabetismo, e a ignorância das massas, fazendo com que modelassem um cenário de entusiasmo que, somado ao trabalho duro, ajudasse na radiante construção do futuro utópico – evidentemente que sob a paternal orientação de Stalin (The Landscape of Stalinism: the art and ideology on Soviet space, 2005, Editora Dobrenko&Naiman).

Como observou Katerine Clark, o velho mito da Mãe Rússia reaparecia pelas artes do aparelho ideológico comunista na forma da Pátria Socialista, espaço sagrado no qual o povo soviético, escolhido pela dinâmica da história, estava destinado a implantar o comunismo, etapa superior do desenvolvimento social e redenção da humanidade na Terra.

(*) O termo Realismo Socialista surgiu por primeiro na oficialista Gazeta Literária, de maio de 1932, apresentada como "demanda das massas por uma arte honesta, verdadeira e revolucionária" que realmente representasse a revolução proletária. Máximo Gorki voltou a usar a mesma expressão para referir-se à necessidade de se criar algo baseado apenas na experiência socialista.

Enquadrando a arte

Para aplainar o caminho do novo dogma, dois anos antes, em 1932, todas as associações e organizações das artes e letras que existiam na União Soviéticas foram abolidas. Ou se pertencia a União dos Escritores, controlada pelo regime, ou ninguém poderia publicar fosse o que fosse. Os que incomodassem seriam expulsos ou banidos, além de denunciados como "antipovo", particularmente os que incorriam no pecado do "formalismo", expressão corrente na época para classificar tudo o que não correspondia às determinações estéticas do partido.

A imposição do Realismo Socialista ao mundo das artes foi a conclusão lógica da estratégia stalinista de centralização total que vinha num crescendo desde a década de 1920, pois se Comitê Central executava a planificação econômica, exercia o monopólio absoluto da política, controlava o Exército Vermelho e a NKVD, a polícia secreta, como esperar que o frágil universo da estética pudesse ficar de fora dos olhos vigilantes do partido?

Por igual, a desabusada intromissão nas artes decorreu da concepção que Lenin tinha do papel delas como instrumento a ser explorado ideológica e partidariamente para fins educacionais e de mobilização das massas. Isto já se refletira nas medidas preliminares tomadas pelos bolcheviques nos meses seguintes à revolução de 1917 no sentido do controle total da mídia(gráficas, edições de livros, jornais e revistas, livrarias e bibliotecas), banindo dela os não-conformistas ou os oposicionistas.

Portanto, aqueles dedicados às artes e letras viram-se convocados a servirem como agentes de propaganda aos projetos do Estado Soviético na sua faina gigantesca da "construção do Comunismo". Como escrevera Gorki no Pravda (4/12/1934), "a honra, a glória e o heróico, tornaram-se tão familiares aos soviéticos que nem mesmo era percebida pela imprensa". Era tarefa para décadas, algo que transcendia gerações.

Exílio, prisão ou execução

Eugeni Zamiatin, resoluto, corajoso, não desejando de modo nenhum seguir ativo naquelas condições, enviou uma carta pessoal a Stalin pedindo para sair do país. Milagrosamente o tirano concordou. Logo, segui-o Victor Serge que já estava preso, mas que graças ao clamor no Ocidente terminou sendo deportado em 1936.

Isaac Babel, o notável autor de A Cavalaria Vermelha, obra de 1926, e alto quadro do partido, não quis mais se dedicar ao métier. Mesmo sendo considerado como um dos mais famosos contistas soviéticos, disse a André Malraux, o escritor francês que estava presente no Congresso, que além de ser "mestre no gênero do silêncio" iria viver como vendedor de roupas. Não cumpriu totalmente com o que disse.

No ano seguinte ao Congresso, encontrando-se com o jornalista e escritor Ilya Ehrenburg, em Moscou em 1935, ponderou que tudo aquilo nada mais era do que uma preparatória da mobilização para a guerra (Hitler havia ascendido ao poder na Alemanha, em 1933). Na época do Grande Expurgo, Babel foi detido e fuzilado na prisão de Lubyanka, em Moscou, em 15 de janeiro de 1940. Um pouco antes chegara a comentar que "certas coisas somente poderiam ser ditas a esposa e embaixo dos lençóis".

Destino tristemente igual teve o diretor do teatro experimental soviético Svevolod Meyerhold, que apesar de ter 66 anos, levou também seu tiro na nuca nos porões daquela mesma prisão. O reservado ao poeta Osip Mandelstam, autor do A Esperança Abandonada, foi um tanto diferente. Encarceraram-no a primeira vez em 1934 por ter escrito um epigrama contra Stalin: "Ele trata os crimes como negócio/o brutamontes da Ossétia (região da Geórgia onde Stalin nascera)". Todavia o ditador não o puniu com o rigor dos campos de trabalho e sim com desterro. Em 1937, detiveram-no novamente, e no outro ano ele morreu de exaustão num campo de forçados próximo a Vladivostok, na Sibéria Oriental, em 27 de dezembro de 1938.

Um pouco antes deixara escrito: "Tu deves mandar-me/e eu estou obrigado a ser serviçal ao desdenhar o nome e a honra/cresci enfermiço e tornei-me débil."

Os que tiveram mais sorte haviam conseguido ser expulsos ainda nos começos da década de 1920. Em setembro de 1922, quando Genrik Iagoda, braço direito de Dzerzinky da CHEKA, então rebatizada como OGPU, a polícia política dos bolcheviques, organizou uma lista de 130 cientistas e intelectuais russos que, por incompatibilidade ideológica, não podiam mais trabalhar nem viver em solo soviético. Providenciaram então o fretamento de dois navios que, partindo das docas de Leningrado, os levou em exílio forçado para a Stettin, na Alemanha, tendo a bordo lingüistas do porte de N. Trubetzkoy e R. Jakobson (que iriam fundar a Escola de Praga) e o famoso filósofo cristão Nikolai Berdiaiev. Deportações que foram catastróficas para o país, mas que enriqueceram os países que os acolheram.

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