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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

O embaralhamento de tudo

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» As vanguardas e o dinheiro graúdo
» O embaralhamento de tudo
 
Destroçada a figura e a paisagem pela crescente presença da fotografia e pela profunda crise sofrida pela arte européia, abalada pelas conseqüências psicológicas da Primeira Guerra Mundial e pela destruição física e moral do patriciado, a arte de vanguarda lançou-se a atrevimentos cada vez maiores, saindo em busca de outros continentes estéticos, atrás de expressões ou impressões ainda não imaginados pela arte ocidental. Ultrapassado o cubismo, o suprematismo, o surrealismo e o dadaísmo, o movimento abstrato-expresionista, a vanguarda em geral conduziu a pintura e a escultura moderna à pulverização da imagem em si mesma como até então ela era percebida. O figurativismo, quando ainda se fazia presente numa tela da vanguarda, parecia-se a um mundo de assombrações que ressurgiam, aqui e ali, em deformações propositadas. Depois da abolição do desenho, até a cor, glória maior da pintura, viu-se banida das telas pela adoção da acromia.

O que tinha forma ou aparência humana praticamente evaporou-se. Borrões de crianças e debuxos de loucos, que se somaram aos primeiros impulsos pictóricos dos artistas, foram promovidos à lídimas representações artísticas do inconsciente, tido como espaço humano ainda mantido puro. Lembrança de uma fase irracional do homem ainda preservada das intromissões e exigências repressivas da civilização e dos rigores da lógica.

De certo modo, tudo isso revelava a perda de confiança da civilização ocidental nas virtudes da racionalidade e na inquebrantável fé que até então devotava ao progresso como único redentor eficaz da humanidade. No campo das artes tudo parecia dissolver-se e tudo de fato foi dissolvido no imenso pântano informe e disforme em que se transformou o moderno mercado das artes. Todavia ele prospera devido a estranha aliança ocorrida entre artistas e críticos de arte e o mundo da alta fortuna, entre o sofisticado colunista de arte e a patronesse riquíssima, protetora das vanguardas, mecenas do caos.

O apoio dos ricaços

A composição de Warhol, arte ou deboche?
Em Nova York foram as esposas de multimilionários norte-americanos quem assumiram a tarefa de oferecerem espaços nobres para que os vanguardistas tivessem acolhida. Nos anos 20, Mary Sullivan e Abby Rockefeller coligaram-se para fundar o MoMa (The Museum of Modern Art de Nova York, 1929) que, desde então, tornou-se um dos maiores edifícios dedicados à arte contemporânea.

Nelson Rockefeller foi ainda mais longe na adesão aos artistas de vanguarda, contratando , em 1933, ninguém menos do que Diego Rivera, um comunista notório, da facção trotsquista, para compor um mural no Rockefeller Center ( obra que não foi concluída dada a teimosia e o radicalismo infantil de Rivera em querer colocar Lenin, o líder do bolchevismo, no centro da composição).

Vinte e cinco anos depois, em 1959, foi a vez do Museu Guggenheim de Arte Moderna (do multimilionário Salomon R, Guggenheim), projetado por Frank Lloyd Wright, o mais avançado dos arquitetos modernistas norte-americanos, abrir suas portas ao público nova-iorquino, enquanto a sua filha Peggy Guggenheim fazia o mesmo em Veneza, abrigando na sua coleção permanente estilos tão diversos como o Cubismo, o Futurismo, a Pintura Metafísica, o Abstracionismo europeu, o Surrealismo e o Expressionismo Abstrato americano ( contando com obras de Picasso, Braque, Duchamp, Léger, Brancusi, Severini, Balla, Delaunauy, Miró, Mondrian,Kandinsky, Picabia, Giacometti, Magritte, Marini, Dali, Pollock e do escultor Moore).

Se o povo refuga deve ser ótimo

Museu Guggenheim (N.York)
Enquanto a Europa abrigava os grandes mestres do passado, um Leonardo, um Rafael, um Velásquez, um Ticiano ou um Rubens, a América do Norte, nação volta para os séculos ainda por vir, abriu seus braços aos modernistas do presente e do futuro. Deste modo, longe de serem vistos como os artistas danados e marginalizados como a lenda gostava de referir-se a eles, os vanguardistas em geral tiveram apoio e suporte do dinheiro graúdo, fazendo com que muitos deles se tornassem gente de posses (Picasso, por exemplo, era milionário aos 40 anos de idade), bem distante daquela imagem romântica de pobreza, abandono e desvario, que muitos deles diziam sofrer ou passar.

Os nomes mais famosos do mercado internacional de arte dos dias de hoje amealharam um patrimônio inúmeras vezes superior a qualquer grande mestre do passado. Um tipo menor de artista como o nova-iorquino Andy Warhol, falecido em 1987, enfant gaté dos ricaços da cidade, seguramente faturou proporcionalmente mais dinheiro sozinho do que a maioria dos gênios do Renascimento. Exatamente por apresentarem-se como herméticos e bizarros, totalmente inalcançáveis às massas, quando não totalmente hostis a elas, é que fez com que eles caíssem no agrado da plutocracia, baseada esta simpatia e apoio naquele antigo preceito elitista de que tudo o que povo detesta deve ser intrinsecamente bom.

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