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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

As vanguardas e o dinheiro graúdo

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O fato dos artistas de vanguarda terem sido censurados e perseguidos por muitos regimes ditatoriais do século XX e submetidos à mofa e ao ridículo pelas multidões presentes nas exposições e galerias de arte, gerou um estranho fenômeno. Talvez, por isso mesmo, de serem hostilizados pelas tiranias e pelo povo, os vanguardistas viram-se apoiados por mecenas riquíssimos. Deu-se, assim, entre as décadas de 40 e 60 do século XX, uma estreita e proveitosa aliança entre a vanguarda das artes plásticas e a elite endinheirada do Ocidente.

O primeiro escândalo

Piquenique ao ar livre (Manet, 1863)
Deve-se recuar ao século XIX para saber-se do efeito do primeiro escândalo sério envolvendo a arte de vanguarda. E, como não poderia deixar de ser, o imbróglio deu-se em Paris, capital por excelência da avant-garde ocidental. No ano de 1863, nos tempos de Napoleão III, telas de um número significativo de pintores haviam sido recusadas pelo Paris Salon, no Louvre (maior centro de exposição da arte oficial da França desde que fora aberto em 1667). O ato discriminatório provocou excitada reação dos artistas, inconformados em não serem aceitos.O barulho que fizeram foi tamanho que Napoleão III, incomodado, viu-se na obrigação de oferecer-lhes um espaço ao lado do oficial para que eles pendurassem seus quadros. Foi um acontecimento histórico. Doravante seria o mercado das artes quem iria se sobrepor ao júri acadêmico na tarefa de selecionar o que tinha valor artístico para merecer fazer parte de uma exposição.

Chamaram-no de Salon des Réfuges, o Salão dos Rechaçados, em aberta confrontação com o salão organizado pela Academia de Belas-Artes.(*) Entre eles estavam aqueles que mais tarde seriam consagrados entre os mais importantes personagens das artes francesas e européia do século XIX: artistas como Paul Cézanne, Camile Pissarro, Armand Guillaum, Henri Fantin-Latour, James Whistler e Édouard Manet. Sendo que este último o que provocou maior confusão.

O desafio ao convencional

Olímpia
O pomo da controvérsia, uma das maiores registradas na história das artes modernas, deu-se em torno do quadro Le Déjeuner sur l´Herbe que, para nos padrões morais de hoje seria considerado como a reprodução da cena de um bucolismo ingênuo. Quase uma pastoral campestre, ilustrada por uma modelo totalmente despida ainda que assexuada. Além daquele, Manet ainda expôs um outro, mais ousado ainda: Olympia (acima), pose estudada de uma cortesã nua deitada num divã, tendo como única prova de pudor uma estreita gargantilha de veludo.

Num tempo onde imperava o comportamento vitoriano, as duas telas de Monet provocaram um dilúvio. Padres e beatas, burocratas e acadêmicos, com o respaldo dos jornais mais conservadores, lançaram-se em fúria contra as liberdades que Manet tomara. Na ocasião, deu-se quase que uma reprodução exata das querelas ocorridas dois séculos antes na corte de Luis XIV entre o partido devoto, em defesa da moralidade vigente, e o partido mundano, simpático à transgressão.

Pode-se, pois, datar o Salão dos Rechaçados, de 1863, como marco do gosto da arte de vanguarda pelo escândalo. Fórmula que se tornou um modo muito original e próprio de conquistar espaço nos jornais e atrair a atenção da opinião pública, anunciando a clarinadas a chegada de um novo objeto de arte num mercado muito competitivo.

Confrontar as convenções e chocar a moral burguesa - epater les bourgois, como se dizia na época - passou a ser um dos componentes ideológicos e propagandísticos permanentes da arte moderna. Este mesmo espírito de desafio ao convencional, fosse ele moral, formal ou estético, norteou ainda duas outras exposições que ficaram célebres na crônica da vanguarda: o Salão dos Impressionistas, de abril de 1874, e o Salão dos Independentes, de 1884.

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