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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Mudando de lugar: de Weimar à Dessau

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» Mudando de lugar: de Weimar à Dessau
 
Passando os primeiros anos em Weimar, local onde também realizara-se a Assembléia Constituinte de 1919 que lançou os pilares da República, a República de Weimar, a Escola da Bauhaus mudou-se em fevereiro de 1925 para Dessau, a convite do governador do estado de Anhalt, tomando lá, em 1927, a denominação de Hochschule für Gestaltung, Instituto Superior da Forma.

O principal motivo desta transferência deveu-se a que o governo regional da Turíngia (estado onde Weimar ficava), nas mãos de partidos direitistas, mostrou-se abertamente hostil aos propósitos estéticos da Escola e ao que ela representava. A direita nacionalista (precursora do nacional-socialismo) associava o movimento modernista na literatura, nas artes em geral e na arquitetura, ao Kulturbolchevismus, isto é, ao Bolchevismo Cultural.

A pretensão nada modesta dos vanguardistas de “irem ao povo e transformarem o mundo”, como fora anunciado pelo Conselho dos Intelectuais”, de 9 de novembro de 1918, pareceu-lhes algo abominável, um despropósito insano totalmente estranho à germanidade, uma traição aos valores nacionais e à Alemanha. O Modernismo era o maléfico Mesfistófeles insinuando-se para desvirtuar a boa alma alemã, uma degenerescência enfim. Como então registrou um funcionário do governo da Turíngia “Não se deve permitir que um pequeno núcleo de interessados, que em grande parte são estrangeiros, sufoque a massa saudável dos jovens artistas alemães... K.Nonn – Deutsche Zeitung, abril de 1924).

As ameaças à Escola não vinham somente de fora. Duas correntes começaram a cindir-se no interior da própria direção da instituição. Uma delas, a do escultor e gravurista Gerhard Marcks, por exemplo, em nome do purismo e contra “a exploração econômica”, defendia a continuidade da ligação estreita da Bauhaus com o estado, enquanto Gropius procurava aproximá-la da industria privada para que ela pudesse libertar-se dos condicionamentos orçamentários. O desenlace deu-se em dezembro de 1924, quando a Escola foi fechada pelo governo direitista da Turíngia.

Em Dessau, por fim, surgiu a oportunidade de Gropius erguer um edifício símbolo das ambições da Escola, uma construção que abrigasse, ligado ao prédio principal onde se dava o ensino, uma série de outros edifícios (oficias e habitação dos estudantes) formando um conjunto arquitetônico síntese da integração arte-artesanato .

Foi lá, por igual, que Gropius projetou a construção do bairro modelo de Törten-Dessau, um conjunto habitacional que serviu à politica da planificação urbana obediente à uma linha de montagem previamente elaborada. Guardava, o projeto, a expectativa de servir como modelo à sociedade igualitária do futuro, toda ela organizada em espaços geométricos amplamente arejados, totalmente contrária aos cortiços a que os trabalhadores estavam confinados na maioria das grandes cidades industriais daquela época.

Enquanto isto, dos seus ateliers, surgiam os novos móveis inspirados no design futurista, feitos de couro, plástico, madeira e aço, obedientes ao estilo funcionalista que a Escola da Bauhaus adotara desde os seus começos por seus principais mestres. (*)

Em 1928, Gropius deixou a Bauhaus, sendo que Hannes Meyer e, em seguida, em 1930, Mies Van der Rohe, que viria a torna-se um dos maiores arquitetos do século 20, tomaram-lhe o lugar. Entremetes avançava a crise político-social da Alemanha fazendo com que a República de Weimar começasse a soçobrar. O partido nazista de Dessau chegou a propor, junto ao Conselho Municipal, a demolição do prédio da Bauhaus, denunciada como “centro artístico hebraico-marxista”, ou ainda como “Catedral do Socialismo”.

Por fim, em 5 de outubro de 1932, o contrato da cidade de Dessau com a Escola foi rescindido, forçando a que Van der Rohe tratasse da transferencia para Berlim. Pouco adiantou o trabalho. Em 20 de julho de 1933, seis meses após a ascensão de Hitler ao poder, ela fechou definitivamente suas salas e oficinas. No dia 20 de abril daquele ano, 200 policias a haviam invadido Escola, providenciando-se em seguida um inquérito contra ela na Procuradoria Geral da República.

A única porta que então se abriu aos integrantes da Bauhaus foi a do exílio. Como tantos outros artistas, cientistas e homens de letras anti-nazistas, eles também partiram para longe da Alemanha. Gropius e Van de Rohe foram recebidos de abraços abertos nos Estados Unidos, país onde a maioria deles iria dar continuidade a uma carreira brilhante. Gropius, por exemplo, afamou-se ainda mais com seu empenho em favor do International Style, movimento arquitetônico síntese do estilo Bauhaus com o funcionalismo norte-americano que, além dos alemães emigrados, contou com arquitetos como Phillip Johnson e Richard Neutra. Expulso pela Alemanha Nazista, o estilo Bauhaus, atravessando o Atlântico, facilmente aclimatou-se no Novo Mundo, dando ainda mais ousadia à revolução modernista do século 20.

(*) Núcleo difusor de novas tendências, a Bauhaus foi composta por um corpo docente formado por diversas profissões: eram engenheiros, arquitetos, pintores, desenhistas, gravuristas, decoradores e artistas industriais, grupo este que causou profundo impacto na arte do século XX. Entre eles encontrava-se, além de Walter Gropius, que foi diretor até 1928, Johannes Itten, Lyonel Feininger, Gehard Marcks, George Muche, Gertrud Grunow, Lothar Schreyer, Adolf Meyer, Oskar Schelemmer László Moholy-Nagy, Paul Klee, Wassily Kandinsky , Herbert Bayer, Hinnerk Scheper, Gunta Stölzl, Joost Schmidt, Hannes Meyer, Ludwig Hilberseimer, Alfred Arndt, Ludwig Mies Van Der Rohe, Lily Reich e Walter Peterhans.

O manifesto Bauhaus

Formas geométricas, linhas retas, é Bauhaus
“O fim último de toda a atividade plástica é a construção. Adorná-la era, outrora, a tarefa mais nobre das artes plásticas, componentes inseparáveis da magna arquitetura. Hoje elas se encontram numa situação de auto-suficiência singular, da qual só se libertarão através da consciente atuação conjunta e coordenada de todos os profissionais. Arquitetos, pintores e escultores devem novamente chegar a conhecer e compreender a estrutura multiforme da construção em seu todo e em suas partes; só então suas obras estarão outra vez plenas de espírito arquitetônico que se perdeu na arte de salão.

As antigas escolas de arte foram incapazes de criar essa unidade, e como poderiam, visto ser a arte coisa que não se ensina? Elas devem voltar a ser oficinas. Esse mundo de desenhistas e artistas deve, por fim, tornar a orientar-se para a construção. Quando o jovem que sente amor pela atividade plástica começar como antigamente, pela aprendizagem de um ofício, o "artista" improdutivo não ficará condenado futuramente ao incompleto exercício da arte, uma vez que sua habilidade fica conservada para a atividade artesanal, onde pode prestar excelentes serviços. Arquitetos, escultores, pintores, todos devemos retornar ao artesanato, pois não existe "arte por profissão". Não há nenhuma diferença essencial entre artista e artesão, o artista é uma elevação do artesão, a graça divina, em raros momentos de luz que estão além de sua vontade, faz florescer inconscientemente obras de arte, entretanto, a base do "saber fazer" é indispensável para todo artista. Aí se encontra a fonte de criação artística.


Formemos, portanto, uma nova corporação de artesãos, sem a arrogância exclusivista que criava um muro de orgulho entre artesãos e artistas. Desejemos, inventemos, criemos juntos a nova construção do futuro, que enfeixará tudo numa única forma: arquitetura, escultura e pintura que, feita por milhões de mãos de artesãos, se alçará um dia aos céus, como símbolo cristalino de uma nova fé vindoura.

Walter Gropius (Weimar, abril de 1919)

Bibliografia

Argan , Giulio Carlo – Walter Gropius e a Bauhaus. Lisboa: Editorial Presença, 1990.
Berdini, Paolo – Walter Gropius. Barcelona: Editorial Gustavo Gill,1986.
Collotti, Enzo – La Bauhaus en la experiencia politico-social de la republica de Weimar, in Bauhaus, Comunicacion 12, Madri; Alberto Corazon Editor, 1971.
Gropius, Walter – Bauhaus – a nova arquitetura. São Paulo: Editora Perspectiva,
Herf, Jeffrey – O Modernismo Reacionário: tecnologia, cultura e política na República de Weimar e no 3° Reich. São Paulo; Editora Ensaio, 1993.
Laqueur, Walter – Weimar 1918-1933. Paris: Éditions Robert Laffont, 1978.
Richard, Lionel – A República de Weimar (1918-1933). São Paulo. Cia. das Letras, 1988.
Rodrigues, Antonio Jacinto- A Bauhaus e o ensino artístico. Lisboa: Editorial Presença, 1989.

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