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Leibniz, o Sólon dos russos

Leibniz (1646-1716), o Sólon dos russos
Há pouco mais de três séculos atrás, em 1697, uma estreita aliança fez-se entre Gottfried Wilhelm Leibniz, o maior filósofo alemão daquela época, e Peter Alekseyevich Romanov, o jovem czar da Rússia que, aos 25 anos, chegava ao Ocidente em viagem de aprendizado. O resultado deste encontro entre o pensamento e a ação, entre a teoria e a prática, foi um grande projeto de modernização daquele imenso continente, meio europeu meio asiático, alterando para sempre os modos de viver e de pensar daquela parte do mundo. O filósofo, por sua vez, ficou conhecido com o Sólon dos russos, o grande teórico que praticamente orientou-os na refundação da sociedade.

Encontro em Hanover

O castelo dos engenheiros (Mikhailovsky) em S.Petersburgo
"Conquistar uma só pessoa como o Czar ou o Imperador da China, orientando-o no sentido de que governem com zelo para a maior glória de Deus incitando-o no aperfeiçoamento da humanidade, significa fazer algo muito superior do que vencer cem batalhas..."

Leibniz


Para Leibniz aquele chamado foi como algo caído dos céus. Ele já chegara aos 50 anos de idade e nunca tivera uma oportunidade daquelas. Lecionava no ducado de Hanover, onde também fazia as vezes de conselheiro, e, por um desses acasos da vida o jovem czar da Rússia - que mais tarde se tornaria o famoso Pedro o Grande -, viajando incógnito para a Holanda, em 1697, resolveu, interrompendo o périplo, entrevistar-se com ele. Conquistou-o de vez possivelmente lhe dizendo: “eu sou um estudante e procuro professores”. De algum forma o filósofo, percebendo-lhe as potencialidades, ficou de enviar-lhe algumas sugestões para auxiliá-lo no seu desejo de operar uma profunda reforma na Rússia.
Naquele mesmo ano Leibniz, que entre outras coisas era matemático, jurista, pesquisador, teólogo, filólogo, havia publicado a Novissima Sinica, que foi o primeiro tratado sobre a China que se conheceu na Europa daqueles tempos. A inesperada visita do Grande Potentado daquela região distante deu-lhe um clarão. Num cenário que logo ele descortinou: a Rússia tinha um papel a cumprir. O sonho do filósofo passou a ser aproximar, de alguma forma, a mais antiga cultura do mundo, a chinesa, com a mais avançada civilização tecnológica, a ocidental. O continente russo seria o grande elo de ligação entre aqueles dois mundos, proporcionando uma futura síntese entre o refinamento cultural dos mandarins com o sentido prático dos mecânicos e engenheiros europeus: Pequim fundindo-se com Londres, tendo o czar Pedro o papel de demiurgo.

O programa de reformas

Estatua de Pedro o grande em S. Petersburgo
Para tanto a Rússia precisaria ser uma outra Rússia. Teria que deixar de ser bárbara, abrindo ein Fenster nach Westen, “uma janela para o Ocidente” ( que veio a ser a cidade de São Petersburgo fundada em 1703). Necessitava, pois, fazer-se dela uma tabula rasa, começar do zero. Pedro pareceu-lhe disposto a isto. As diretrizes, os 10 pontos do Reform Programm für Russland, ( O Programa para a reforma da Rússia) finais foram-lhe passadas em Torgau, em 1711. O projeto de Leibniz era um terremoto. Pedro deveria fundar fábricas, drenar pântanos, explorar o solo, abrir minas, melhorar as condições do tráfego interno para a circulação das mercadorias, facilitar a as viagens dos súditos, reformar os impostos, investigar cientificamente a Sibéria, abrir tipografias e bibliotecas, inaugurar jardins zoológicos e botânicos para facilitar a expansão das ciências naturais e, como arremate, como futuro centro cerebral da modernização da Rússia, a criação de uma academia de ciências.
No campo jurídico, sugeriu um meio caminho entre a vontade despótica russa e o deixar andar mais tolerante dos procedimentos processualísticos ocidentais. Até um dicionário comparativo entre as várias línguas faladas naquele vasto reino ele concebeu para facilitar a vida de quem desejasse, saindo de Moscou, ir para os lados de Astracã, Tobolsk ou Arcângel, lá no outro canto do mundo. Exemplar que só foi aprontado bem depois, no reino de Catarina a Grande. Sabendo da paixão do czar pela navegação, estimulou-o a que abrisse uma rota polar, cortando os gelos do Oceano Ártico, para unir a Rússia à América, opinando ainda sobre a construção de um enorme canal que ligasse o Volga ao rio Don.

A grande máquina

Para realizar isto, num império carente de tudo, de qualquer pessoa qualificada (na Rússia não existiam universidades nem boas escolas, e, segundo um viajante, só quatro sabiam latim), o czar deveria enfeixar tudo. Como o próprio Pedro admitiu, “tinha que empunhar na mão direita a espada e a pena”. Leibniz, como um precursor da moderna tecnocracia, concebeu um estado funcionado como uma grande máquina (Staat als Maschine), controlado pelo que os russo chamavam de bogoborets, aquele que é tão poderoso que chega a desafiar os deuses.
Pedro não se fez de rogado, imbuído da missão civilizadora, não houve instrumento coercitivo que ele não lançasse mão para ocidentalizar a Rússia: do chicote ao enforcamento. Viu-se como Pigmaleão, o lendário rei-escultor, que de escapelo na mão, procurou dar forma e vida à dura pedra do primitivismo que o cercava. Foi por essa razão que Arnold Toynbee, o classificou entre os que ele denominava de hommo occidentalis mechanicus neobarbarus, isto é, um modernizador que para ocidentalizar emprega métodos bárbaros. Vários historiadores russos por sua vez, como Eugeny Anisimov, consideram-no, a Pedro, o principal antecessor de Stalin, um dos precursores do totalitarismo moderno, obcecado por arrancar a Rússia do seu primitivismo a golpes de knute, o rebenque tártaro, e a fuzilamentos sumários, tendo este último, Karl Marx como o seu inspirador mor ao invés do outro alemão que foi Leibniz. Este filósofo, entrementes, fez fama por aqueles lados como o Sólon dos russos, o grande sábio que traçava as coordenadas que indicavam o caminho da civilização.
De alguma forma ele , celebre por seu otimismo filosófico, sentiu-se consagrado, dizendo a um seu corresponde , um tanto antes de morrer em 1716, em Hanover mesmo, que “ enquanto eu tentava tirar proveito das coisas tudo andava mal. Desde que eu fiz do céu a minha pátria e tive gente bem intencionada como os meus concidadãos, terminei saindo-me bem melhor entre os russos do que entre os alemães ou entre os outros europeus.”


Fontes:
- Andreas Förster e Christine Titel – Reformen für Russland – Leibniz und Peter I. (DAMU, Berlim, 1998)
- Lindsey Hughes – Russia in the age of Peter the Great (Yale University Press – Londres)
- Manfred von Boetticher – Reformen für Russland – Leibniz und Peter I. und der Transformationprozess der Gegenwart.

    



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