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Maugham, os conselhos de um escritor

W.S.Maugham (1874-1965)
William Somerset Maugham, escritor inglês nascido em Paris em 1874 e falecido em 1965, foi talvez um dos mais populares e bem sucedidos autores do século XX. Prolífico, escreveu tanto para o teatro como para a literatura em geral, consagrando-se como um excelente contador de histórias, o que fez com que o colocassem no mesmo nível do francês Guy de Maupassant ou do seu conterrâneo Graham Green, um globetrotter tão popular e mundialmente conhecido quanto ele. Maugham foi um homem de letras do império, suas histórias se passavam tanto nos salões e encontros para o chá em Londres como numa choupana dentro de uma floresta numa remota ilha dos Mares do Sul, locais onde ele descrevia os seus personagens com grande desenvoltura.

Um contador de histórias

A maravilhosa biblioteca do British Museum que Maugham freqüentou
"Eu nunca pretendi ser algo mais do que um contador de historias. Eu me divirto contando historias e escrevi muitas delas. Para mim é um infortúnio o fato de contar uma história somente pelo motivo dela em si é uma atividade que não conta com o favor da intelligentsia. É um infortúnio que tento escutar com fortaleza".
S. Maugham - Creatures of circumstance, 1947

Em 1938, aos 64 anos de idade, universalmente consagrado pelos leitores mas não pela crítica, Maugham resolveu entregar ao seu imenso público um “resumo” das suas atividades como escritor e uma crônica do que ele pensava sobre a arte de escrever e outras observações interessantes sobre a vida cultural e literária em geral. Intitulou-o de The Summing Up (traduzido para o português por Mário Quintana como “Confissões”, Editora Globo, P.Alegre, 1951) Maugham, ainda quando jovem médico, atormentado pela gagueira, decidiu-se a ser escritor aos 18 anos de idade. Atividade para qual ele sempre sentiu-se vocacionado, nunca sendo para ele um tormento começar uma página ou encerrar uma novela, entendendo-se assim como ele facilmente tornou-se um requintado mestre da narrativa, um dos melhores da prosa inglesa contemporânea. Filho de diplomata britânico sediado em Paris, ficando órfão quando mal alcançara os 10 anos, teve o francês como língua da infância e, mais tarde, ao enviarem-no para Heidelberg, dominou o alemão com facilidade. Em verdade ele teve que aprender tudo em inglês. Ao fazer incontáveis anotações em blocos e cadernos percebeu que precisava dedicar-se inteiramente na busca do significados das palavras que ele não entendia, passando a revirar dicionários e enciclopédias da língua inglesa com ardor, freqüentando o Museu Britânico com constância. Uma feliz combinação de fatores ajudou-o no inicio da carreira.

Novos tipos no teatro

Atração pelo mundo polinésio (tela da Gauguin)
Maugham começou escrevendo para o teatro. Logo entendeu que os dramas envolvendo os nobres e seus próximos, como era tão comum no teatro londrino naquela época de final do século XIX, já começara a entediar o novo e crescente público urbano originado da classe média. As pessoas queriam doravante ver personagens que lhes fossem mais próximos, que lhes tocassem os sentimentos mais de perto. As confusões ou sofrimentos das altas figuras e dos barões só lhes provocavam bocejo. A essa mudança de temática, que ele, autor com faro para o sucesso, soube atender, juntou-se ainda um outro fator: quando ele ainda estudante de medicina, era obrigado a percorrer os arrabaldes soturnos de Londres para atender à sua cota de partos, tarefa que proporcionou-lhe um contato direto com a realidade das classes pobres e com um mundo extremamente diversificado de pessoas e situações, condição a que ele, rapaz de berço, descendente do patriciado britânico, jamais se veria se não lhe tivessem incumbido da missão de ser eventual parteiro do proletariado. Portanto, foi nos duros subúrbios da grande cidade que ele teve formada a sua escolaridade de autor realista, detestando o supérfluo, o adjetivo exagerado, a frase rebuscada, a permanência do rococó enfim. Além disso sentiu-se atraído pelo exotismo do mundo extra-europeu, quando por exemplo, empolgou-se com a vida de Gauguin na polinésia, retratando-a na pequena obra-prima The Moon and Six pence, 1919 (Um gosto e seis vinténs, Globo P.Alegre).

Um autor popular

Desde o principio Maugham, mesmo sendo um homem refinado, votou enorme desprezo por aquilo que então passava por alta cultura na sua época. Achou a maior parte dos escritores que circulavam no seu meio como um bando de pedantes e de entediados. A seu ver eles não tinham nenhuma abertura para o mundo das emoções e vibrações apaixonadas que girava ao redor deles. Nos livros deles, segundo ele, respirava-se “morta e pesada atmosfera”, onde as pessoas sentiam que “era indecoroso falar acima num tom acima do sussurro”. Era como se fosse escrita dentro de salas de antigos casarões, onde o autor e os seus inquilinos faziam questão de viver encerrados, inibidos, sequer abrindo os postigos para a entrada de um vento fresco ou permitindo-se dar uma ousada mirada para a paisagem que os cercava. Haviam palavras sim, abundantes, bem colocadas, mas elas não produziam vida nem sensações: eram plantas de estufa. Isto fez com que Maugham se decidisse desde cedo trilhar o caminho de uma literatura comprometida com as coisas do mundo, simples, mundana sem ser vulgar. Atitude que lhe valeu a incompreensão e o descaso com que sua obra foi tratada pela intelligentsia e pela critica literária em geral ao longo do século XX. Mas não do público. Desde os começos, a partir do primeiro exemplar vendido da sua novela “O pecado de Lisa”, editado em 1897, claramente inspirado nas suas atividades de obstetra dos pobres, pisando com suas botinas no lo do dos slums, dos bairros miseráveis, o público nunca deixou de ter enorme consideração para com ele.

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