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A revolta da plebe

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» Abaixo a vacina!
» A revolta da plebe
 
"Houve de tudo ontem. Tiros, gritos, vaias, interrupção de trânsito, estabelecimentos e casas de espetáculos fechadas, bondes assaltados e bondes queimados, lampiões quebrados à pedrada, árvores derrubadas, edifícios públicos e particulares deteriorados."
- Gazeta de Notícias, 14 de novembro de 1904.


Os ajuntamentos e os protestos se multiplicaram a partir do dia 10 de novembro quando fundou-se a Liga Contra a Vacinação Obrigatória. Multidões furiosas reuniam-se no Largo São Francisco para protestar. A obrigatoriedade, entendiam eles, era uma monstruosidade. Uniram-se a eles os poucos positivistas, denunciando o "despotismo sanitário" do dr. Oswaldo. Num zaz, os bondes começaram a ser atacados. As lojas do centro foram varridas à pedradas. Nas ruas, colchões ardiam em meio a latas viradas. Escaramuças contra a polícia se multiplicavam por todos os lados. Barricadas surgiram do nada. O grito de guerra era "Abaixo a Vacina!".

Outras vítimas foram os lampiões. Do desembarcadouro da cidade até Copacabana (despovoada na época) não sobrou nenhum deles para alumiar as noites. Cada parte da turbamulta entrou na batalha a seu modo e gosto. Os trabalhadores alegaram que defendiam suas famílias da intromissão dos vacinadores, o populacho queixava-se do abandono e dos maus tratos e os estudantes, por amor à baderna. Até a rapaziada do Colégio Militar, os cadetes da Praia Vermelha, insuflados por remanescentes do jacobinismo e por positivista radicais, pegou em armas contra o governo (*). Por cinco dias deu-se um pandemônio no Rio de Janeiro, que sucumbiu ao império da desordem.

O governo reagiu trazendo tropas de fora, de Niterói e até de S. João del Rei, regimentos aptos a disparar nas turbas. Obuses foram lançados sobre o morro da Gamboa e da Saúde (sinta-se a ironia do nome). Somaram-se quase mil presos, 30 mortos e uns 200 feridos. Assim, ao troar das canhonadas, a "Metrópole dos desocupados", em mãos da "matula desenfreada", como Bilac chamou a cidade revoltada, voltou à calma no dia 15 de novembro, justo quando a república completava 15 anos. Revogou-se a obrigatoriedade no dia seguinte.

As causas profundas da revolta

Tal reação popular, anárquica, desesperada e brutal, nos força a considerar que o levante, entre tantas causas apontadas, representou por igual a defesa coletiva de um modo de vida que tinha suas raízes fincadas no Brasil Colonial e que, num repente, foi violentamente sacudido pela conjunção da reforma urbana com a reforma sanitária.

A dinamite de Pereira Passos e a lanceta do dr. Oswaldo Cruz, agindo paralelas, representaram uma aberta ameaça a uma rotina firmemente entranhada na população carioca no mínimo há três séculos e meio. Sublevaram-se, de um modo bronco e doido, na proteção de uma ecologia fétida, insalubre e pestilenta que os cercava e que se viu violada pela racionalidade republicana a favor do progresso da imigração européia.

De certo modo, a Revolta da Vacina pode ser entendida como uma rebelião "nativista" contra a "europeização" ou "branquização" programada pela elite republicana como solução para arrancar o Brasil do marasmo herdado do império.

A vacinação, todavia, "pegou". O diretor do Instituto Manguinhos, que fora moralmente linchado, apelidado de "Czar dos mosquitos" e como tirano da vacina, terminou por ser reconhecido ao acabar com a febre amarela em 1906, e Pereira Passos, por seu lado, conseguiu levar a diante seu sonho de estender bulevares parisienses em meio à miséria carioca. Viabilizaram o Rio de Janeiro de hoje.

(*) A revolta dos Cadetes rendeu-lhes como punição a transferência deles para o Realengo, bairro bem afastado do Palácio do Catete, sede da presidência. José Murilo de Carvalho que fez uma minuciosa análise das motivações da revolta, apontou, entre tantos outros, um fator moral para aquela rebelião. Correra o boato que os agentes de saúde aplicariam a vacina não no braços como de fato era, mas na coxa ou na altura da virilha das mulheres, fazendo com que uma onda de indignação mobilizasse os operários em defesa da honra doméstica (Cidadãos Ativos: a revolta da vacina, in Os Bestializados, SP. Cia das Letras, pág. 91-139).

Bibliografia

Carvalho, José Murilo de – Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi, São Paulo, Cia. das Letras, 1987.

Raeders, Georges – O inimigo cordial do Brasil: O Conde Gobineau no Brasil, Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra,1988.

Scliar, Moacyr - Oswaldo Cruz e Carlos Chagas: o Nascimento da Ciência no Brasil, São Paulo: Editora Odisseus

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