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Uma guerra absurda, burlesca

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» Euclides da Cunha na Amazônia
» Uma guerra absurda, burlesca
 
Chegado a Manaus em 30 de dezembro de 1904, depois de uma viagem de 17 dias, rumou logo que possível para a sua missão, embarcando em 7 de abril de 1905. Acompanhou-o na flotilha, composta por um batelão e duas lanchas, um capitão peruano, D. Pedro Buenaño. Já navegando no Acre, até por um naufrágio ele passou no baixo Purus.

De onde estava e quando podia, informava o Barão. A Amazônia era uma esfinge. Ninguém conseguia abarcá-la. Mal e mal captava-se facções ínfimas do todo. A amplidão é tal que ofusca o entendimento, acanha a razão, afugenta até mesmo uma "inteligência heróica".

Ele que talvez se imaginasse um "dr. Pasteur das letras" (a expressão é de Leandro Tocantins), recuou frente aquele laboratório infernal de uma natureza doida, em permanente destravo. Notou, pelos registros de outros naturalistas que por ela percorreram, fosse no século 17, 18 ou 19, que ela era infensa à evolução. Ainda que revolvida pelas enchentes do grande rio, a Amazônia era sempre a mesma.
Antes de findar a expedição que durou um ano (dezembro de 1904 a dezembro de 1905), Euclides, em carta a Domício da Gama, imaginou o ridículo de uma guerra entre o Brasil e o Peru. Seria um confronto burlesco de cabras-cegas, assegurou. Dois países enormes e sem gente a se enfrentarem pela posse de umas selvas longínquas, despovoadas. Tamanha era a vastidão das coisas por lá, pelo Inferno Verde (título do livro de Alberto Rangel, seu amigo, que ele prefaciou, em 1907), que os dois exércitos não se encontrariam. Algo como se dois duelistas, um no alto do Pão de Açúcar e outro no Corcovado, tentassem terçar espadas em meio a um abismo vazio.

Bendita esta viagem de Euclides de cem anos atrás. Ainda que a Amazônia continue rendendo muito pouco, a nossa ensaística enriqueceu-se com as observações dele, ao ponto de, entre tantos outros que escreveram sobre aquela "Terra sem História", ninguém até hoje conseguiu deixar, em prosa, um registro superior ao de Euclides.

Bibliografia

Euclides da Cunha - A Margem da História, in Obras Completas, Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1995, v. I

Leandro Tocantins - Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido, Rio de Janeiro, Record Editora, 1968.

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