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São Paulo: a dos mil dentes
Fundado cinco anos depois de São Salvador da Bahia, o Colégio dos Jesuítas de São Paulo, situado no planalto de Piratininga, onde rezou-se a primeira missa em 25 de janeiro de 1554, veio a ser o epicentro daquela que tornou-se a mais poderosa e espetacular cidade industrial da América do Sul – a cidade de São Paulo. Ao longo dos últimos 450 anos da sua história ela assumiu diversas facetas que abarcaram tanto as atividades iniciais dos bandeirantes como aquelas, fabris e comerciais, que atraíram tanto imigrantes estrangeiros como brasileiros de todas as regiões que para ela afluíram. Tornaram-na uma metrópole ciclópica, que Mário de Andrade disse ter “mil dentes”, exemplo mundial de convivência interétnica e harmonia multicultural conjugada com uma notável prosperidade material, desconhecida no restante do Brasil.
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“Operários” (Tela de Tarsila do Amaral)
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Teria sido um dos tantos filhos de João Ramalho, um sertanista que vivia no planalto de Piratininga, quem servira de guia aos padres jesuítas que foram fundar São Paulo. Partiram no dia 6 de janeiro de 1554 da Vila de São Vicente, no litoral do Atlântico, para realizar a árdua tarefa de subir a Serra de Cubatão até alcançarem Santo André da Borda do Campo, um amontoado de casebres de taipa que servia como o feudo de João Ramalho. Eram 13 os soldados de Cristo que, liderados pelo padre Manoel da Nobrega e secundado pelo jovem padre José de Anchieta, enfrentando os despenhadeiros e penedos soltos daquela terrível jornada, chegaram sãos e salvos nos altos do paredão no Paranapiacaba, 800 metros acima. Instruíram-nos para abrir um colégio (capela, oficinas e salas de aula), que ,além da catequese dos indígenas tupiniquins, carijós e tamoios que viviam por lá, servisse como ponto de partida para as entradas em direção às minas do Peru, a fim de por mão nas pratas do Potosí. Plano que jamais se consumou. No dia 25 de janeiro de 1554, há 450 anos atrás, erguida a primeira estrutura do Pátio do Colégio, eles teriam rezado a primeira missa no alto do Inhapuambuçu (como os nativos denominavam a colina que ficava entre o vale do rio Tamandatueí e o do rio Anhangabaú). Batizaram-no de Colégio de São Paulo porque aquele era o dia do apóstolo.
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A partida de uma monção (Tela de A.Zimmerman)
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No século seguinte a população local, majoritariamente mameluca, abandonada do mundo, esquecida pela coroa, deu para sair pelas trilhas e pelos cursos d’água em bandeiras atrás do sustento. Devastando as reduções dos padres em Guairá, no Tape e em tantas outras que compunha a República Missioneira do Paraguai, viveram de apresar índios para vendê-los como escravos nos engenhos de açúcar. Outros ainda meteram-se nas monções em correrias pelo sertão em busca de esmeraldas e o que mais encontrassem, indo com seus canoões até os repousos de Cuiabá, no Mato Grosso, ou ainda mais para o Norte, para os altos do sertão do São Francisco, fazendo com que o “nome de paulista [é] assombroso para os infiéis, que lhes cobravam um terror pânico” (Diário de Juan Francisco Aguirre). Entre tantos que atenderam ao empuxo de ganhar a vida pelas veredas dos matos, bebendo em sangas e experimentando as “iguarias do bugre”, destacou-se o legendário Antônio Raposo Tavares, que, entre 1648 e 1652, desbravou o mundão brasileiro, roçando os Andes até o Amazonas, atrás de ouro e pedras preciosas. Nova dispersão deu-se entre os paulistas quando da Guerra dos Emboabas, de 1708, ocasião em foram expulsos do sertão dos Cataguases, das áreas do garimpo, pela portuguesada vinda a tropel de Lisboa, ávida de ouro. Descendo para o sul, viraram então estancieiros e tropeiros, abastecendo as minas de gado e de muares.
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