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As razões da abertura
As razões internas que levaram à abertura “lenta a gradual”, como prometera o general Ernesto Geisel no seu discurso de posse, poderiam estar no fato do regime, naqueles dez anos de existência, ter aplastado com eficácia toda e qualquer contestação. O movimento das lideranças civis em torno da bandeira da Frente Ampla (acerto entre os lideres civis pré-1964, Carlos Lacerda, Jucelino Kubitschek, e João Goulart, feito em 1966, para a volta da democracia), foi facilmente superado com a cassação do seu principal mentor, Carlos Lacerda; a revolta estudantil de 1968 fora definitivamente desbaratada pela edição do AI-5, de 13 de dezembro de 1968, e pela antecipada prisão em massa das lideranças da UNE ocorrida em Ibiuna, São Paulo, em outubro de 1968; a guerrilha urbana e a rural, a do Araguaia, organizada pelo PC do B, foram suprimidas pela intensa mobilização militar entre 1971-1972. Situação que culminou na morte do capitão Carlos Lamarca, do MR-8, em setembro de 1971, no sertão da Bahia. Também pesou, na avaliação de Geisel e de Golbery do Couto e Silva, a anarquia militar, na qual cada comandante de região formava uma espécie de feudo, querendo carta branca para liquidar com a subversão, cada um ao seu modo, enlameando assim a imagem do Brasil no exterior, visto como uma terra onde os direitos humanos eram sistematicamente infringidos. Entrementes, o receio de uma ameaça do retorno dos civis ao poder ou do sucesso da ação subversiva, desaparecera do horizonte das preocupações do alto comando militar. Apesar do impacto da crise do petróleo de outubro de 1973, que jogou o preço internacional do barril a níveis estratosféricos (saltou de U$ 3,00 para mais de U$ 11,00), foi momentaneamente contornado, no nível das expectativas, pelo Programa do pró-Alcool, permitindo que ainda houvesse boa expectativas para com o desempenho da economia brasileira nos próximos anos, acreditando assim manter a fidelidade da classe média ao regime. Foi assim, confiante, que o general Ernesto Geisel fez uma série de viagens pelo Brasil naquele ano eleitoral de 1974, tentando empolgar as lideranças estaduais e municipais da Arena, o partido que dava a sustentação ao governo militar. Eis que as urnas apresentaram uma surpresa: em 16 estados, naquele 15 de novembro de 1974, justamente entre os maiores da União, os candidatos oficiais foram fragorosamente derrotados pelos da oposição. Era o primeiro sinal que a sociedade civil emitia no sentido de querer recuperar o controle político da nação, usurpado pelo golpe castrense de 1964.
Ao tempo que o consulado do general Geisel ficou conhecido pelo empenho na abertura política (inclusive exonerando o Ministro do Exército Guerra, general Sylvio Frota, expoente e símbolo da linha-dura, em 1977), também celebrizou-se pela sua política externa, defendida pelo chanceler Azeredo da Silveira, desatrelada do alinhamento automático com os Estados Unidos. Linha que era rigorosamente seguida pelo regime militar desde 1964. Para mostrar tal intenção de independência, reconheceu a China comunista e também o regime esquerdista do MPLA, liderado por Agostinho dos Santos, que proclamou a independência da Angola em 1975. Mas a verdadeira ousadia foi o seu Acordo Nuclear assinado com a Alemanha, em 1975, a revelia da posição norte-americana. Geisel era um sincero opositor das medidas imperialistas do govenro norte-americano. Não desejava um confronto direito com os Estados Unidos mas apenas mostrar que o país já alcançara um patamar de desenvolvimento e uma certa projeção internacional que dispensava ter que posar como simples caudatário da grande potência do Norte. Quanto às acusações da Anistia Internacional contra os maus tratos e torturas aplicadas aos presos políticos no Brasil, ele as considerou como improcedentes ou hipócritas. Igualmente não atribuía aos Estados Unidos estatura moral para vir cobrar do govenro brasileiro bom comportamento e respeito aos direitos humanos. Geisel, como a grande maioria dos generais latino-americanos daquela época, considerava os problemas das sevicias infringidas aos contestadores ou rebeldes como algo de ordem administrativa, não como pertinente às questões de fundo ético ou moral. Havia uma luta de vida e morte contra subversão comunista, travava-se uma “guerra revolucionária” e, de acordo com os ditames da Doutrina da Contra-insurgência, tais métodos eram inevitáveis. O gradativo desaparecimento dos suplícios, a desativação dos “porões” no Brasil, durante o consulado do general Geisel, foi obra de uma ação conjunta que partiu do próprio governo que desejava conter a linha-dura para dar seguimento na abertura e das pressões externas em favor do respeito aos direitos humanos feitas pelo governo do presidente Jimmy Carter (1977-1981).
Referências bibliográficas
D´Araujo, Maria Celina, e Castro, Celso – Ernesto Geisel, Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1998, 5ª e.Gaspari, Élio – A Ditadura Derrotada, São Paulo, Cia. das Letras, 2003 Skidmore, Thomas – Brasil, de Getúlio a Castelo (1930-1964) , Rio de Janeiro, Editora Saga, 1969. Skidmore, Thomas – Brasil: de Castelo a Tancredo (1964- 1985) , Rio de Janeiro, Editora Paz e terra, 1988. Stephan, Alfred – Os militares: da abertura à Nova República, Rio de Janeiro, Editora Paz e terra, 1986. Viana, Fº, Luís- O Governo Castelo Branco, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1975.
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