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A questão do Acre
Trinta e cinco anos antes de eclodir o problema do Acre, território que o Brasil reconhecia ser da Bolívia, o governo do império do Brasil assinara o Tratado de Ayacucho, em 1867, com aquele país no sentido de mais ou menos fixar áreas limítrofes em comum. Dez anos depois, assombrados pela violenta seca de 1877/9, que devastou o Ceará, milhares de cearense partiram para os fundões da Amazônia atrás de uma alternativa para a sua sobrevivência. Em 1882, fundaram o Seringal Empresa que mais tarde veio a ser a capital do Acre, rebatizada de Rio-Branco. Foi assim, na chamada “transumância amazônica”, que os nordestinos adentraram na região do rio Acre, situada no extremo noroeste do Brasil, atrás das valiosas seringueiras. A revolução dos transportes que andava a galope nos países Europeus e nos Estados Unidos, paralela à expansão da eletricidade, tinha fome por borracha, que naquela época saía toda ela da Amazônia, sendo que 60% era extraída do território acreano. Obviamente que o govenro andino não via com bons olhos aquela arribada crescente dos brasileiros. Para os bolivianos, a situação praticamente repetia o que ocorrera na década de 1870 com a penetração de trabalhadores chilenos na área do Atacama atrás do salitre. O que provocara a Guerra do Pacífico (1879-1883), que fez com que a Bolívia, derrotada, perdesse a sua saída para o oceano Pacífico, tendo que aceitar ficar isolada dos oceanos do mundo. Num primeiro momento, José Paravicini, o embaixador boliviano no Rio de Janeiro, determinou que fosse fundado, em 3 de novembro de 1899, um posto alfandegário em Puerto Alonso, para se fazer presente na área. Ato de soberania que, se bem que legítimo, irritou profundamente os seringueiros brasileiros que cercaram o posto e expulsaram os funcionários dali. Neste entremeio, chega ao Acre o aventureiro Luís Galvez , dito “o Imperador do Acre” (apoiado por Ramalho Júnior, o governador do Estado do Amazonas), que decidiu proclamar um estado independente do Acre no dia 14 de julho de 1901. Cada vez ficava mais evidente de que a Questão do Acre repetia Atacama, portanto La Paz precisava agir para manter o território em mãos nacionais. Além de enviar uma força para lá, engendraram um outro caminho.
A solução encontrada pelo governo andino não podia ter sido pior. Fora o próprio Luís Galvez que, trabalhando então para o cônsul boliviano em Manaus, descobriu que os bolivianos estavam em tratativas de passar o controle do território do Acre para o Anglo-Bolivian Syndicate de Nova York, que tinha o milionário Withridge como seu acionista principal. Era um contrato do tipo conhecido como chartered companies, muito em voga na África naquela época, pelo qual uma empresa concessionária qualquer, européia ou americana, praticamente assumia as funções soberanas sobre certa área que ela desejava explorar economicamente. Detinha não só o monopólio sobre a produção e exportação como também auferia os direitos fiscais, mantendo ainda as tarefas de polícia local. Concretizado o contrato, o Bolivian Syndicate associado a U.S. Rubber Co., que compraria toda a produção da borracha , fatalmente atrairia para dentro da região amazônica o poder dos Estados Unidos que, em última instância, assumiriam, ainda que indiretamente, a proteção dos interesses de uma empresa norte-americana no Acre que gozaria por lá de privilégios majestáticos. Portanto, qualquer desavença que ocorresse entre o seringueiros e os interesses do Bolivian Syndicate, oporia o Brasil aos Estados Unidos. Dois acontecimentos vieram então atrapalhar aqueles planos dos bolivianos: a rebelião acreana de Plácido de Castro, e a ação diplomática do barão de Rio-Branco, que considerou a concessão boliviana ao Bolivian Syndicate como uma “monstruosidade legal”.
A revolta dos seringueiros
Os conflitos anteriores entre brasileiros e bolivianos - entre os quais a célebre “expedição dos poetas”, uma romântica aventura de intelectuais e estudantes amazonenses, liderados por Orlando Corrêa Lopes, que, partindo de Manaus a bordo do vapor “Solimões”, quiseram ajudar os seringueiros a “libertar o Acre”, fracassando lamentavelmente-, fizeram-se quase espontaneamente, sem planos, sem estratégia, sem liderança. Foi então que Plácido de Castro chegou àquela região. Tratava-se de um ex-oficial das forças Federalistas que lutara na revolução de 1893/5 no Rio Grande do Sul e que, tendo noções de agrimensor, partira para o norte em busca de outras aventuras. O governador Silvério Nery, do Amazonas, o apoiou na sua intenção de organizar uma resistência efetiva contra os bolivianos e na conseqüente proclamação da segunda independência do Acre, anunciada no arraial de Xapuri no dia 7 de agosto de 1901. Nos finais de janeiro de 1903, depois de um demorado sitio, Puerto Alonso, a última resistência boliviana no Acre, rendeu-se ao caudilho vindo do sul, proclamador da terceira independência do Acre. A notícia revoltou a população de La Paz que exigiu imediata resposta do governo boliviano. Tão grave soou a coisa que foi o próprio presidente Pando quem tomou a si o comando de uma força que marcharia para o Acre para lavar a honra da Bolívia ofendida. Então foi a vez do barão de Rio-Branco movimentar-se.
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