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Os relatos de Saint-Hilaire

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Anos depois, ao retornara à França em 1822, assumindo altos postos no magistério acadêmico, escrevendo no prefácio do Voyage dans les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Geraes, 1830, ele manifestou a esperança de que a detalhada narrativa das suas peripécias científicas pelo Brasil, após ter percorrido vastas extensões [talvez mais de 16.500 quilômetros], escassamente conhecidas, mesmo para os nativos do país, servisse aos brasileiros em geral como uma espécie de testemunho abalizado da situação geral em que o país-continente se encontrava naquela ocasião e o quanto as novas gerações futuras deveriam “agradecer a seus pais por terem começado a tirar o país de abjeção tão deplorável” (a referência deve-se seguramente a existência da miséria e da escravidão). A missão dele, além de “formar coleções de plantas”, era filantrópica, ajudar os seus próximos a identificarem as “ famílias naturais” das plantas espalhadas pelos continentes, visto que a crença da época é que da mesma maneira que havia seres humanos em todos lugares, o mesmo dava-se com as espécies que compunham a flora.

Vindo de uma Europa já suficientemente urbanizada, onde os antigos bosques e florestas recuaram frente a lavoura, espantou-se nos trópicos com a presença da natureza bruta quase que esmagando o homem. A floresta nativa que por aqui existia era o espetáculo da criação em estado puro, reduzindo os habitantes a um estado de total fragilidade frente aquela avassaladora imponência. Os emaranhados de árvores, de cipós e arbustos, de plantas e flores, de pássaros e animais de inúmeras espécies, formando um todo misterioso, gigantesco, que se estendia a perder de vista, era algo que ultrapassava a capacidade cientifica dos humanos. Trata-se de um “território sagrado” inalcançável ao homem, seja ele um sábio ou não (ver “O Brasil dos Viajantes”, pag. 164, de Ana Maria de Morais Belluzzo, SP. Objetiva, 1999).

Impressionou-se igualmente com as potencialidades do Brasil, com a diversidade da sua riqueza mineral, com seus diamantes e gemas, com a imensidão das plantações de cana-de-açúcar e de café, com a variedade das árvores frutíferas, muitas delas trazidas da Europa e da Índia. Previu ainda que, dado o vazio do território, ele teria a capacidade de vir acolher nos anos vindouros levas de colonos trazidos do Velho Mundo e que a quantidade de portos atlânticos que o país possuía, vocacionava-o a ligar-se com as principais nações fornecedoras de produtos agrícolas e industrias, especialmente os da França.

As viagens pelo interior do Brasil

O rio S.Francisco (na lente de José Caldas)
Assumindo as múltiplas funções de botânico, geógrafo, geólogo, etnógrafo, sociólogo, etnólogo, folclorista, ecologista, zoólogo, e acima de tudo naturalista e humanista, Saint-Hilaire, tendo o Rio de Janeiro como sua base e ponto de partida, realizou em seis anos de atividade um fantástico mapeamento das condições e costumes das províncias do centro e do centro-sul do Brasil. Conhecendo por primeiro as cercanias da baia da Guanabara, estendeu-se para a região das Minas Gerais - onde alcançou na serra da Canastra, as nascentes do Rio São Francisco -, o planalto de Piratininga, os campos do Paraná, o litoral de Santa Catarina, de onde lançou-se em marcha para visitar o Rio Grande do Sul e a Província Cisplatina (hoje o Uruguai, mas na época controlado pelo governo português).

De onde voltou feliz e contente para "as terras portuguesas". Como seus antepassados franceses, André Thèvet e Jean de Léry, que estiveram no Brasil na época de Villegagnon, no século XVI, Saint-Hilaire dedicou-se a descrever os costumes e hábitos das mais diversas tribos indígenas, ao tempo em que, sempre acompanhando por um índio botocudo, fazia observações precisas sobre as fazendas, sítios e vivendas improvisadas (as taperas), o aspecto físico da população interiorana e suas práticas alimentares e gastronômicas.

Saint-Hilaire foi um dos primeiros europeus a deixar um retrato vivíssimo do Sertão brasileiro, o Deserto como chamavam-no então, um território imenso que englobava boa parte de Minas, da do Goiás e da Bahia, descrevendo-lhe o clima, a flora, e o tedioso que foi para ele ver aquele sem-fim de paisagem igual. Registrou os danosos efeitos da intensidade do calor e da violência da seca, fatores que provocavam a inanição dos seus poucos, escassos, habitantes, prostrando-os e reduzindo-os a um estado de letargia permanente, preguiçosa, sujeitos às assombrações que os feiticeiros caboclos e os pajés lhes inculcavam. Situação que os brasileiros serão melhor intimados somente no século XX, pela viva descrição e pela prosa dos seus romancistas, tais como encontra-se na obra do mineiro João Guimarães Rosa (Grande Sertão: veredas, 1956)

Cumprida cada uma das etapas programadas, Saint-Hilaire enviava de volta ao Rio de Janeiro as diversas caixas que continham os vegetais recolhidos no caminho. No total, ele selecionou 30 mil exemplares de plantas de 7 mil espécies (4.500 delas desconhecidas), todas elas remetidas para o Museu de História Natural de Paris, onde ele mais tarde tratou de classificá-las em ordem de importância, editando seu trabalho com fartas ilustrações, obediente aos rigores da ciência. Intitulou-os Histoire des plantes les plus remarquables du Brésil e du Paraguay e ainda o Plantes usuelles des Brésiliens, aparecidos entre 1824-25. Trabalho que foi elogiado tanto pelo famoso mestre dos naturalistas franceses Antoine-Laurent Jussieu, como por Humboldt, apontando-os como produtos exemplares da pesquisa científica (ver Lorelay Kury - Auguste de Saint-Hilaire, o viajante exemplar). Os livros de viagem ele somente conseguiu publicar bem mais tarde, pelo ano de 1848, tendo desde então ampla acolhida entre os brasileiros, sendo fonte de consulta obrigatória para os homens estudiosos e cultos do país.

Edição das viagens

A relação dos livros das viagens de Saint-Hilaire indicam: a Primeira e Segunda Viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo/ Viagem ao Espirito Santo e Rio Doce/ Viagem pelo Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil/ Viagens às nascentes do São Francisco/ Viagem à Província de Goiás, Viagem à Curitiba e Santa Catarina/ Viagem a São Paulo/ Viagem ao Rio Grande do Sul (todas elas publicadas pela Editora Itatiaia [B.Horizonte-RJ], na coleção Reconquista do Brasil, organizada pelo prof. Mário G. Ferri, da USP)

O site recomenda

Belluzzo, Ana Maria de Morais – O Brasil dos Viajantes (SP. Objetiva, 1999)
Kury, Lorelay – Auguste de Saint-Hilaire, o viajante exemplar (texto na Internet)
Torres, Maria Emilia Amarante – As caminhadas de Auguste Saint-Hilaire pelo Brasil e Paraguai (SP., Autêntica Editora)

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