|
A vingança dos cabanos
A hora da vingança popular soou dez anos depois do massacre dos amotinados, sufocados no bridge “Palhaço”. Em 1833, num momento de desentendimento da Regência com a oligarquia de Belém (dividida entre o partido filolusitano dos Caramurus e os nacionalistas chamados de Filantrópicos), abriu-se uma brecha para que o furor nativo emergisse. Em janeiro de 1835, capitaneados pelos irmãos Vinagre e por Eduardo Argelim, um ex-seringueiro, a Selva marchou contra a Cidade. Os cabanos eram milhares, tapuias de todas as tribos e caboclos do todas as misturas. Assassinaram o presidente da província, e os chefes militares, do exército e da marinha. O que restou do governo de Belém, apavorado com a insurgência, escafedeu-se para a ilha Tatuoca, montando ali uma precária resistência enquanto esperavam rezando um socorro qualquer da Regência.
|
|
|
|
O porto de Belém no século 19
|
Na capital abandonada, enquanto isso, assumiam os revolucionários. Ao contrário de tantas outras rebeliões daquela época, comandadas por robespierres do engenho e dantons da estância, a cabanagem foi inteiramente popular, liderada por gente do povo mesmo, pelo Bararoá, pelo Borba e pelo lendário Maparajuba do Tapajós. A massa porém, egressa do mato e dos igarapés, não sabia bem o que fazer com o que conquistara, não conseguiu fazer com que a vitória inicial se transformasse em algo seguro, num estado revolucionário como os jacobinos fizeram na França em 1793. Tudo deu para desandar. Enquanto isso, Belém padecia. O mato crescia por tudo e o lixo se empilhava. Não havia serviço público algum. O rebelde, o apigáua paraense saído da palhoça da beira de rio, descuidava-se da cidade. Os prédios públicos, obra do desenho do italiano Antônio Landi, eram tomados por bichos e, disseram que, até a boiuna de prata, a malvada cobra-grande, andou habitando neles. Oito meses e 19 dias depois, com a chegada das tropas da Regência em maio de 1836, os cabanos foram obrigados a se retirarem, refugiando-se nos matos. Um viajante, o reverendo norte-americano Daniel Kidder (*), que lá esteve logo depois da retomada de Belém em ruínas, encontrou a maioria das fachadas dos prédios e das casas furadas à bala ou lambidas pelo fogo. Seguiu-se então, sob comando das tropas imperiais, o terror branco, ao mata-cabano, momento em que a floresta encheu-se de sangue. Estimaram as vítimas da repressão do governo em mais de 30 mil mortos. A cabanagem traumatizou por muitos anos o Pará. Se o poeta Manuel Bandeira muito mais tarde, encantado, admirando as mangueiras que dão as boas sombras das ruas de Belém, a “cidade pomar” (obra do intendente Lemos, no auge da extração da borracha), disse que nela “o céu esta encoberto de verde”, provavelmente hoje, olhando para o mesmo céu (corridos mais de cento e oitenta anos dos gazeamentos do brigue “Palhaço” e das chacinas governamentais nas florestas do Pará), veria-o ainda enrubescido de vergonha pela impunidade que por lá ainda continua soberana.. (*)KIDDER, Daniel Parish (1815-1891); FLETCHER, James Cooley (1823-?) Brasil e os brasileiros, O; esboço histórico e descritivo. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1941, p. 2v. -
|