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Weimar e Beslan, livros e crianças

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Na mesma primeira semana de setembro de 2004, o desastre e a loucura humana deram-se as mãos para fazer dela uma semana trágica. Na pequena cidade de Weimar, a informal capital cultural da Alemanha, uma das mais famosas e importantes bibliotecas do Mundo queimou.

Naquele mesmo dia 2, bem longe da Alemanha, no lugarejo de Beslan, no Cáucaso russo, centenas de crianças foram mortas quando estavam reféns de um grupo de guerrilheiros chechenos suicidas.

Deste modo, livros e inocentes, em países tão distantes como a Alemanha e a Rússia, foram empilhados queimados ou chamuscados como se fossem os mártires do descuido e do desatino dos homens.

A biblioteca de Weimar

Fogo na biblioteca Anna Amália em Weimar
"Do alto desaba uma onda enfurecida/ De uma tímida gota/ [torna-se] a enchente que explode com raiva"

Goethe - O Livro das Parábolas, in Divã Oriente-Ocidente, 1819

Viu-se fogo no alto do teto do Castelo Verde, em Weimar, Alemanha. Num nada, todo o andar superior foi engolfado pelas chamas. Eram 20h do dia 2 de setembro de 2004, na quinta-feira, quando o incêndio saiu devorando tudo o que via pela frente. Os que conseguiram entrar no prédio logo trataram de tiram de lá o que podia ser salvo dos andares inferiores que ainda não haviam sido atingidos. Pilhas de livros, alguns já bem chamuscados, foram amontoadas do lado de fora do prédio, enquanto o socorro tratava de deter as labaredas. Anunciaram, no dia seguinte, que 30 mil preciosíssimos volumes da biblioteca duquesa Anna Amália haviam sido perdidos. Tesouros da literatura e da história da arte alemã, especialmente os dos séculos 16 e 18, foram-se para sempre. Inclusive os 13 mil volumes das várias edições internacionais do “Fausto” de Goethe.

A construção vinha dos tempos do barroco alemão, mas a verdadeira jóia do Castelo Verde era a sala ovalada, a Rokokosaal, de onde se erguiam os andares com prateleiras e estantes cheias de livros e partituras musicais, juntadas desde 1691 pelo duque Guilherme da Saxônia-Weimar. A decoração interna coube aos pintores Kraus, Schmeller e Tischbein que fizeram os retratos dos grandes artistas de Weimar, enquanto bustos em mármore da duquesa, dos poetas Weiland, Goethe, Schiller e de Herder, colocados um ao lado do outro, davam um ar sagrado ao recinto: a Biblioteca Anna Amália era uma espécie de santuário da cultura universal.

A Atenas da Alemanha

O impulso para fazer de Weimar um lugar excepcional para as letras e artes da Alemanha inteira deu-se quando a duquesa, Protetora dos Poetas e Pensadores, enviuvou em 1759.

O seu mais famoso convidado foi Goethe, homem cosmopolita, um gênio que, além das línguas modernas, dominava meia dúzia de idiomas antigos. Ainda que assumindo o pequeno teatro local, por igual encarregaram-no da biblioteca, sendo seu diretor de 1797 até a sua morte em 1832. Tornou-a – a Biblioteca Central dos Clássicos Alemães -, referência obrigatória para o mundo culto germânico, ao tempo em que o ducado de Weimar ganhou fama como a Atenas da Alemanha. Mais recentemente, a UNESCO promovera a biblioteca a patrimônio da humanidade.

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