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A imolação de Vieira de Mello
Ao ser recebido publicamente, com toda a cordialidade, por Paul Bremer, o procônsul americano do Iraque, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello assinou sua sentença de morte. Para a resistência iraquiana aquela imagem de quase confraternização entre os dois diplomatas indicou que a ONU estava presente em Bagdá para dar o aval à ocupação anglo-saxã do país. A troca de gentilezas entre a face civil da ocupação militar americana e o enviado especial da ONU era, por assim dizer, o epílogo de uma série de Resoluções (a 687, a 1205 e a 1284) que, desde 1991, fizeram do Iraque uma nação párea no mundo globalizado. A triste ironia desse lamentável episódio que vitimou o diplomata é que Sérgio Viera de Mello fez uma das mais contundentes exposições junto ao Conselho de Segurança da ONU, logo depois que retornou de Bagdá, em maio de 2003.
Em favor de um governo legítimo
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Sérgio Vieira de Mello (1948-2003)
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Pelo relatório dele, respaldado pelas suas experiências anteriores na Bósnia e no Timor Leste, não havia a menor esperança de estabelecer-se qualquer sistema de ajuda à população iraquiana, caso não houvesse o pronto estabelecimento de um governo autônomo e legítimo em Bagdá. A fúria da população contra os invasores que, já se manifestava numa série de ataques aos soldados americanos e seus aliados, não só aumentava, como tornava-se cada vez mais violenta. Naquele clima denso, onde o ódio é visível por quem anda nas ruas era impossível que os iraquianos aceitassem como legal o bando de colaboracionistas montado às pressas pelos Estados Unidos, formado por chefes tribais e um banqueiro foragido da lei – todos eles selecionados pela CIA - , cuja função real é apenas dizer "sim senhor" às medidas administrativas de Paul Bremer.
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Vieira de Mello entre os representantes civis da ocupação anglo-saxã do Iraque
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Arriscada ainda foi a disposição da ONU em colocar no mesmo prédio - o Hotel Canal - o seu pessoal misturado aos técnicos do FMI e do Banco Mundial, os braços financeiros do domínio militar dos Estados Unidos. Aos olhos iraquianos, os funcionários da ONU viraram parceiros da ocupação e não gente neutra que estava lá para ajudar o povo. E de certo modo, foi assim que a ONU deixou-se conduzir por Kofi Annan. Impotente em conseguir demover Bush e Blair do ataque ao Iraque, resolveu aceitar a política do fato consumado. Nem lhe passou pela cabeça fazer uma reprimenda aos Estados Unidos ou a Grã-Bretanha por terem atacado um país membro da instituição que ele preside. Mesmo que provada a falsa alegação do Iraque ter armas de destruição em massa ou poder desencadear uma guerra química em apenas 45 minutos (puro humor britânico), tudo ficou por isso mesmo. O secretário-geral não encaminhou nenhuma resolução censurando o império dos primos anglo-saxãos por terem entrado numa destrutiva guerra contra um país que não lhes fizera mal algum. Ao desembarcar seus funcionários em Bagdá, fosse qual fosse o pretexto. Kofi Annan legitimou politicamente a ocupação. O resultado disso, da quebra da neutralidade da ONU, foi a trágica imolação de Sérgio Viera de Mello e da sua equipe. Com isso apagou-se a mais brilhante estrela da diplomacia internacional a serviço das causas da paz.
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