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Guerras: salvar os pagãos
Praticamente a mesma alegação que levou os conquistadores espanhóis, Cortes, no México, a partir de 1519 , e Pizarro, no Peru, desde 1532, a porem fim, a ferro e sangue, aos reinos dos astecas e dos incas. Aquela gente cor de cobre era arredia aos bons ensinamentos do Evangelho, logo era preciso livrá-los da influência perniciosa de Huitzilopochtli (o deus da guerra) e da mãe dele Coatlicue (a deusa-serpentente), ou ainda espantar a superstição Inca em torno de Wiroqocha e de Inti, o deus-sol, que eram entraves a catequese. Os conquistadores talvez até acreditassem que as massas de ouro e de prata que retiram do México e do Peru, reinos inteiramente pilhados, fossem uma soma modesta equiparada à impressionante operação de libertação daquelas almas pagãs que eles realizaram. Rapinagem que foi completada com a determinação dos frades cristãos em destruir todas as pirâmides e templos dos nativos para livrá-los da crendice dos falsos deuses.
Salvar os povos do atraso ou da opressão
Com a adoção das doutrinas do progresso no século 19, o Império Britânico tratou de enquadrar suas guerras colonialistas como resultantes da inevitável marcha da civilização contra o atraso das nações da Ásia e da África, chegando ao ponto de justificar a Guerra do Ópio (1839-1842), travada contra a China imperial, em nome das necessidades do livre-comércio, de libertar os chineses de uma economia anacrônica. Alegação tornada de uso comum a todas as agressões colonialistas de então que se fizeram contra as nações da Ásia e da África. Quando, no século 20, a ideologia substitui a religião como motivação das guerras, o cenário pouco se alterou. Hitler invadiu a URSS, em 1941, para libertar os russos do domínio judaico-comunista, lá implantado desde 1917. Winston Churchill, o primeiro-ministro britânico, na mesma ocasião, ordenou um implacável bombardeamento das cidades e das populações civis alemãs (mais de 650 mil mortos), para libertá-las dos nazistas. A URSS, por seu lado, não teve pejo em largar seus tanques sobre Praga, em 1968, para salvar os tchecos da contra-revolução capitalista, ou ainda a induzir o general Jaruzelsky que fechasse a Polônia ao mundo, em 1981, com o mesmo objetivo. Agora, na recente guerra contra o Iraque, foi a vez da dupla Bush-Blair, fortes candidatos ao prêmio Pinóquio do Milênio, assegurar que libertariam o mundo da terrível ameaça das armas de destruição em massa em posse de Saddam Hussein. Para tanto, não hesitaram em devastar com foguetes e com mísseis uma indefesa capital do terceiro mundo, deixando-a entregue ao caos e à humilhação coletiva, obedientes ao que parece ser o novo espirito do século: "bombardeios antes, democracia depois"! E, evidentemente, eles não vêem mal nenhum nas empresas anglo-saxãs apropriarem-se do vasto lençol de petróleo, o segundo maior do mundo, existente debaixo daquelas areias. Tudo, como se sabe, em nome da liberdade.
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