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A América dos matutos

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» A América dos matutos
 
A base social mais ampla disso tudo, desse festival de vitupérios, Todd Gitlin encontra na América do “interior”, os matutos do Meio-Oeste e do Cinturão da Bíblia, confederação dos carolas formada pelo Velho Sul, que sempre entenderam a França como uma Sodoma, pátria das libertinagens e das safadezas. Para os Ferdinandos calçados com botinas e os bebedores de uísque de milho do Missouri, o povaréu matuto que dá sempre o seu voto aos republicanos e que hoje compõe a Bushlândia, as desgraças da América já começam em Nova Iorque mesmo. Cidade cosmopolita, é apontada como um enclave das forças socioculturais não-americanas, símbolo da perdição e da licença habitado por gente estranha à “verdadeira América”. Beatos, não acreditam na evolução da espécie, considerando Darwin uma espécie de enviado de Satanás saído das trevas para vir abalar a crença dos bons cristãos na Bíblia. Foram eles que se alinharam atrás de W.J. Bryan, advogado de defesa no célebre caso Scopes, também conhecido como “O Julgamento do Macaco”, ocorrido em 1925, no Tennessee, ocasião em que reafirmou-se a proibição de um professor ensinar a teoria da evolução aos seus alunos.

Com a vitória de Bush, os brucutus nacionalistas batem no peito. Rejeitaram Kioto, o Tribunal Penal Internacional e o Acordo Antimíssil acertado com os russos, acreditando piamente que a ONU quer “mandar na América”. Dai entender-se porque os republicanos estarem sempre às turras com aquela instituição (cuja sede, significativamente obra de um arquiteto modernista francês, Le Corbusier, fica em Nova Iorque): ora atrasando o dinheiro que lhe deve, ou, como recentemente, dizendo-a “ irrelevante”.

Essas posições xenófobas são crescentemente afirmadas numa retórica inspirada numa mistura de jargão imperialista e messianismo cristão que entende a América , “eleita por Deus”, lutando contra o “eixo do mal”, missionada a travar perpétuo combate contra os “malfeitores” em qualquer canto do mundo (*). Expressões essas, diga-se, bem mais apropriadas aos pregadores apocalípticos da Virgínia do Oeste do que aos dirigentes da maior potência militar e econômica do mundo. Assim, com sua retórica belicista, anunciada em seguidos sermões contra o mal, a administração Bush conseguiu o feito de pulverizar a enorme simpatia que os atentados de 11 de setembro haviam rendido ao país.


(*) Uma das mais esdrúxulas posições da direita cristã que sustenta Bush e alia-se ao governo de Sharon em Israel, apoiando as intervenções armadas israelenses, diz que tudo isso que se vê na Palestina decorre de um destino previsível. No Armagedon que se aproxima, na batalha final que trava-se na Terra Santa, os judeus que sobreviverem a ela finalmente reverterão ao bom caminho e se converterão à religião cristã.

Evangelho e Guerra

Os fundamentalistas: Falwell e Bin Laden (fotomontagem)
Trata-se pois da aliança entre dos criadores de peru do Kentucky com os falcões do Pentágono, todos ansiosos em soltar os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, a guerra, a peste, a fome e a morte, sobre o Iraque e sabe lá contra quem mais. Com o Evangelho numa mão e os foguetes na outra, pensam que não devem dar mais satisfações a ninguém. É a guerra entre a América boa, pura e bem intencionada, contra a velha Babilônia, terra do mal, da luxúria e do pecado. Porque, perguntam eles, ter que pleitear o consentimento de alemães, de russos, de chineses ou franceses? Agora Bronco Bill, cavalgando um míssil, galopa em direção aos céus da velha Bagdá para ir liquidar com Saddam Hussein e uma boa parte daqueles infiéis. Os que entregam suas preces a quem o pastor Jerry Falwell - o fundamentalista cristão líder da Cruzada Moral - , chamou de “o terrorista Maomé”.

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