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Guerra e juventude
Mais uma vez o mundo prepara-se para assistir uma guerra. Todos os apelos de bom senso parecem propositadamente ignorados. Os Estados Unidos foram tomados por incontrolável volúpia da agressão, de um irreprimido desejo de vingança. Depois de terem bombardeado e ocupado o Afeganistão, voltam-se para o Iraque de Saddam Hussein. Nada os deterá. Seria mais uma manobra dos homens mais velhos para canalizar a agressividade natural dos jovens, levando-os a atacarem um país qualquer para que eles possam liberar seus instintos mais primários?
A iniciação de um guerreiro
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O Tio Sam, um tio severo convocando para a guerra
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- “Qual coisa poderemos mais com razão desejar que a paz?”- “Assim falavam os velhos...mas o entusiasmo não era partilhado pelos filhos. Os novos...esperavam que a guerra recomeçasse e entendiam que o rei fora demasiado condescendente com o inimigo” Gomes E. de Zurara – Crônica de Ceuta, 1450
Nas mais diversas tribos estudadas, seja as da Nova Guiné ou do Sudão, o cerimonial é quase o mesmo. Os guerreiros encerram, num certo dia do ano, um grupo de adolescentes numa das malocas, e lá, isolados, os deixam à espera da iniciação. Depois de muita fumaça e bebericação de estranhos elixires, um a um , eles são conduzidos ao xamã que lhes remove, num corte cirúrgico rápido e preciso, o prepúcio. Tornaram-no um bravo, alguém capaz de dar a vida pela tribo. Para os seguidores de Freud, esse banal ritual de introdução à vida adulta, registrado por sir James Frazer e tantos outros antropólogos, reveste-se de um outro significado. Trata-se, para eles, de uma castração simbólica. Uma cerimônia na qual os veteranos intimidam pela dolorosa prática da circuncisão os mais jovens na sua disputa pelas fêmeas da tribo. Um outro freudiano, o dr. Arnaldo Raskowski, foi mais longe. A própria guerra, quase sempre maquinada por caciques e generais madurões, ou mesmo anciãos, é uma tentativa de eliminação, legal e patriótica, de boa parte da concorrência que os jovens naturalmente lhes movem pela posse das mulheres da aldeia. A expressão “infantaria”, segundo o dr.Raskowski, já designa em si o desejo deles, dos veteranos, de expor no fronte para uma morte rápida os seus possíveis rivais sexuais. Representativo disso é o conhecidíssimo pôster americano no qual aparece o Tio Sam, como se fora um respeitável avô rigoroso, convocando os rapazes para a guerra. Não é isso porém o que a História mostra. Nada indica que a guerra resulte de uma conspiração, ainda que inconsciente, da gente mais velha manipulando a ingenuidade da rapaziada, levando-a ao matadouro dos campos de batalha. Um exemplo, entre tantos outros, extraído dos tempos de D. João I, no medievo português, nos serve.
Chegava a hora em que os três filhos do rei, D.Duarte, D.Pedro e D.Henrique, então entre os 17 e 20 anos, deveriam “calçar as esporas” o mais breve possível. Imaginou-se para tanto um feito grandioso. Enquanto os sábios do reino lhes falavam do momento ditoso em que viviam, finalmente em paz com os castelhanos, com quem os lusos haviam assinado um tratado de não-agressão em 1411, os infantes se impacientavam. Queriam ação , “queriam alçar honras”, diziam eles. Pressionado pelo ardor viril dos príncipes, o soberano ainda sugeriu, contemporizando, um grande torneio de cavalaria. Ocasião, prometeu-lhes, em que estariam presentes campeões de todas as partes. Os herdeiros mofaram dele. Trançar lanças e espadas num espetáculo público não era para valer. “Cheirava”, disseram, “ a projeto de novo rico”, uma exibição indigna dos príncipes. Atormentaram então o pessoal da corte para que os apoiassem numa campanha armada no exterior. A conquista de Ceuta, por exemplo, lhes serviria. Cidade moura, africana e infiel, não muito distante das costas fe Portugal, seria o alvo perfeito para uma cruzada. Operação que assegurava aos varões o ungir-se em combate real com o odiado sangue do sarraceno. E foi assim, a contra gosto, que D.João I foi à luta. Ceuta foi tomada em agosto de 1415.
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