França: de De Gaulle a Le Pen
As eleições presidenciais francesas de abril/maio de 2002, pela primeira vez em muitos anos provocaram uma polarização inesperada. Ao invés, como de praxe, conservadores e esquerdistas se enfrentarem num segundo turno, as urnas revelaram um quadro surpreendente. Com a derrota do candidatos dos socialistas, o ex-primeiro ministro Leonel Jospin, o atual presidente Jacques Chirac, chefe do partido gaulista, majoritário na primeira rodada, disputou a eleição com Jean-Marie le Pen, o líder da ultradireita, a quem conseguiu suplantar por um folgada maioria ( 82% a 18%). A pergunta que se faz é o que separa os conservadores do partido gaulista da ultradireita de Le Pen? Para encontrarmos a resposta é preciso recuar décadas na história da França, aos começos da Segunda Guerra Mundial, tempos em que o país encontrava-se no fundo do poço, no fatídico ano de 1940.
A débâcle de 1940
Em maio de 1940, as divisões blindadas da Alemanha Nazista, depois de um longo período de nove meses onde travou-se a chamada Drôle de Guèrre, a “guerra de mentira”, invadiram a França. As panzers, tanques e carros de combate, apoiadas por intensa cobertura aérea, não tiveram grande dificuldade em arrasar com as defesas dos exércitos aliados ( ingleses e franceses). O que sobrou da força expedicionária britânica fugiu pelo porto belga de Dunquerque, atravessando o Canal da Mancha de volta para a Inglaterra, enquanto que o exército francês recuava em todas as linhas. As estradas do Norte da França, por sua vez, ficaram apinhadas por milhares de fugitivos com carroças, caminhões e automóveis, de gente que vinha a pé, fugindo da invasão alemã em busca de um lugar mais seguro. Parecia que ninguém queria mais resistir, opondo-se ao avanço do inimigo, Em apenas 42 dias, do dia 10 de maio ao 22 de junho, as linhas francesas foram esmagadas pelo rolo compressor dos nazistas. A vitória foi impressionante, inesperada. Ninguém imaginou que a França, que, durante a Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918, resistira ao exercito imperial alemão com grande bravura , fosse capitular em tão pouco tempo. A vergonha, o vexame, invadiu os lares e os sentimentos mais íntimos dos franceses. O que fazer frente aquele cenário desolador? No dia 14 de junho de 1940, perante o povo de Paris perplexo, chocado e atônito pelo desfecho inesperado daquela guerra, o exército alemão, como se estivesse num desfile militar em tempos de paz, marchou pela Avenida dos Campos Elísios em direção ao Arco do Triunfo, o coração da capital francesa.
A rendição e o regime de Vichy
Enquanto o estado-maior francês mostrava-se inoperante, impotente e desolado ( segundo William Shirer, corresponde americano de guerra, os oficiais se abraçaram e choraram), não sabendo mais que medida tomar, o alto comando e os políticos da IIIª República, assaltados pelo derrotismo, só desejavam parar imediatamente com a guerra. Aceitando para tanto, com exceção de Paul Reynaud, o Presidente do Conselho dos Ministros, qualquer acordo para obter o cessar fogo. Hitler, por sua vez, num encontro que tivera com Mussolini, o líder dos fascistas italianos, logo que a vitória alemã tornou-se evidente, assegurou ao colega ditador que ele, além de naturalmente querer fazer os franceses engolir a poção da humilhação, pretendia manter um governo formado por franceses que colaborassem com a ocupação. A França era muito grande e muito povoada para que os alemães a controlassem sozinhos, portanto, nada melhor do que promover uma administração amiga, que aceitasse os termos impostos pelos vencedores. Foi neste momento que surgiu o nome do venerável Marechal Pétain, o herói francês da batalha de Verdun de 1916, então ocupando o posto de vice-presidente do Conselho de Ministros, que, naquelas circunstâncias era o nome mais indicado para negociar a rendição com a Alemanha Nazista. Foi o Marechal quem anunciou pelo rádio aos franceses, em 25 de junho de 1940, as condições do armistício acertadas com os alemães.
A França dividida
Entrementes, a preocupação do supremo comandante francês, General Weygand, era acertar logo um armistício na expectativa que o exército nacional pudesse assumir o controle da sociedade para evitar o caos. Por imposição dos vencedores a França, segundo o acertado em 22 de junho de 1940, ficou dividida em duas partes: a primeira delas, abarcando o Norte da França e o litoral atlântico, tendo sede em Paris, ficaria sob o comando militar dos nazistas; a segunda, compreendendo os departamentos internos até à costa do Mediterrâneo, ficaria ao encargo do governo de Vichy( sede do regime colaboracionista, chefiado pelo Marechal Pétain).
| Governo militar alemão | Governo de Vichy |
| Sede; Paris Litoral da França atlântica Zonas industriais, carboníferas e portos atlânticos | Sede; Vichy Departamentos do interior e o litoral do Sul da França Zona rural e a costa mediterrânea |