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Londres: a Essência das Cidades

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Londres à noite (tela de Ronald Tucker)
A vida nas grandes cidades, especialmente em Londres, quase sempre provocou espanto em seus visitantes. Voltaire, Bernard de Mandeville e Engels, um francês, um holandês e um alemão, em épocas diferentes, deixaram seu testemunho contraditório sobre aquela experiência, inclusive com visões divergentes sobre o que traz a prosperidade para uma megalópole.



Luxo, a sinfonia do progresso

"Mas as cidades buscam somente o seu próprio bem;
Arrastam tudo em sua pressa precipitada
Despedaçam animais como madeira decadente
E consomem incontáveis nações por nada.
"

R.M. Rilke - Livro das horas, 1902

Exilado em Londres em 1726, Voltaire fascinou-se pela grande capital. A tumulto das ruas apinhadas de povo, a cacofonia das vozes e das charretes e carroções com suas rodas gemidas, soou-lhe como a sinfonia do progresso. O curioso foi a quem ele atribuiu a razão daquela prosperidade nunca vista. A multidão toda, assegurou, trabalhava para satisfazer o capricho dos mundanos, dos bon vivants, que graças às suas extravagâncias de ricos, seu gosto pelo luxo, faziam as coisas funcionar, dando emprego a milhares de laboriosos operários.

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Royal Opera House de Londres
Voltaire, com esta inaudita tese, nada mais fez do que emprestar sua solidariedade e admiração a um outro escritor, estrangeiro na Inglaterra como ele, chamado Bernard de Mandeville. Era um médico holandês, residente fazia anos em Londres, que havia publicado em 1723 um escandaloso ensaio intitulado The Fable of the Bess (A Fábula das Abelhas), desancando os moralistas e os puritanos. Mandeville chocou o mundo da época afirmando que quase tudo de bom que nos cercava vinha dos nossos vícios privados, exatamente o subtítulo que adora para o seu livro: Private Vices, Public Benefits. Quem dá trabalho ao ourives, ao joalheiros e ao pintor, senão a vocação de alguns ricaços pela ostentação e o desejo deles de provocar a inveja nos outros? Quem senão os exibicionistas mandariam construir prédios para óperas, contratar músicos e artistas, arquitetos e decoradores, para poderem ir pavonearem-se com suas chiquérrimas mulheres nos camarotes de luxo e nas salas de recepção? Era para chegar-se às mansões dos grandes que construíam-se as estradas e erguiam-se as pontes.



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