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A lenda de Osíris
Atribui-se também à sua religião a idéia do deus morto e redivivo, reproduzida na lenda de Osíris: a história do deus morto à traição pelo seu perverso irmão Seth, o "Caim" dos egípcios. Essa história era uma representação simbólica das fases de estiagem do Nilo, quando em dezembro ele se encolhia. Osíris, todavia, ressuscitava voltando à vida, transbordando das suas margens e propiciando com seu humo as prodigiosas colheitas por todo o lugar onde passava.Manifestavam eles a mais profunda fé no retorno futuro dos seus mortos ilustres. Daí mumifica-los. Os egípcios eram os apologistas da ressurreição. Não aceitavam que seus grandes simplesmente desaparecessem nos breus escuros da morte como acontecia aos demais mortais. Inconformados, envolviam os corpos dos grandes mortos em natrão (carbonato hidratado de sódio natural) e essências especiais. Enchiam-lhes as cavidades com panos ensopados em resina e sacos de matérias perfumadas com mirra e canela, enfaixando-os, por fim, com tiras de linho. Sepultavam-nos então seus faraós e grão-sacerdotes em prédios gigantescos, dignos da magnitude deles, em mastabas, pirâmides ou em templos no Vale dos Reis. No sarcófago ilustre deixavam parte dos seus bens e decoravam tudo com imagens que faziam o gosto do falecido, visto que esperavam que na outra vida ele pudesse usufruir daquilo que amara aqui na terra.
Tais construções majestosas e imponentes, que se encontram em várias partes do alto e baixo Nilo, glorificavam ainda outra coisa. Foram elas as primeiras manifestações arquitetônicas celebrantes da grandeza do estado. As dimensões gigantescas e a estatuária extravagante da maioria delas, como é o caso das pirâmides da planície de Guizé, que até hoje impressionam qualquer visitante, são lembrança permanente do feito extraordinário que foi constituir-se um estado centralizado, soberano e independente, que se estendia por milhares de quilômetros quadrados do solo africano. O Antigo Egito formou uma sociedade emblemática. Nenhum dos seus reinos vizinhos, na Palestina, ou na velha Mesopotâmia ou no planalto do Irã, atingiu a sua duradoura continuidade. Com aqueles edificios-monumento o faraó desejava imortalizar não apenas a sua sobrevivência no mundo do além, no reino dos mortos, mas igualmente a perpetuação do poder do estado real. Era como se houve um trono imaginário no vértice das pirâmides contemplando dali os quatro cantos da Terra. O Estado é aquele que tudo vê e que tudo alcança com seu olhar. A base dele pode estar enraizada no chão, na realidade, mas sua cabeça coroada encontra-se nas alturas, perto dos céus e dos deuses, bem longe da vista dos simples mortais.
Geograficamente o Antigo Egito era uma confederação de oásis espalhados pelo Nilo e adjacências e bem poucas vezes, ao correr da sua longuíssima história, as antigas cidades de Mênfis, Tebas ou Heliópolis, gozaram de alguma autonomia política. Quem o dominasse o rio Nilo, dominava tudo. Deste modo, quando os governantes do Alto Nilo, situado próximo ao delta, unificaram todas as regiões mais ao sul, submeteram-nas a um único e sólido reino: o império dos faraós. E, para fixar definitivamente essa integração norte-sul, fizeram vir por barcaças e jangadas, enormes pedras de todas as partes do país para empilhá-las, uma a uma, formando assim as impressionantes pirâmides de Guizé. Os quatro pontos cardeais da base da pirâmide, os quatro cantos do império, tinham um só comando situado no seu topo. Toda a dócil população ribeirinha do Egito, os felás, transformada num exército de operários, era então convocada para, nos períodos da entre-safra, vir a colaborar no erguimento delas, fazendo com que aquelas construções imperiais representassem também, em sua grandeza, a materialização das possibilidades coletivas da humanidade. As pirâmides não foram obra de gente escrava, mas sim de milhares de súditos de um Egito independente e orgulhoso.
Nenhum rio do mundo sustentou a perenidade de uma civilização, de uma cultura e de um estado, durante tanto tempo como o Nilo o fez. Nascido bifurcado, resultado do Nilo branco e do Nilo azul, vindos ambos das profundezas do coração da África, ele cumpre uma sinuosa trajetória de mais de 6 mil quilômetros. Rasgando com suas águas mansas o deserto, termina por desaguar no Mediterrâneo. No seu berço ele é assistido por um monte de pedras e, ao longo das suas margens, contido pelas areias finas do Saara. O Sol inclemente acompanha suas corrente o tempo inteiro. Foi nas suas beiras que se multiplicou o papiro, utilizado como o papel da época, que proporcionou que se registrasse nele toda a sabedoria da Antigüidade. O Nilo, tal como os rios da Mesopotâmia, é assim um dos rios-mãe da humanidade, tudo por primeiro surgiu por lá, dali espalhando-se para o restante do mundo.
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