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A batalha dos elefantes
Avisado a tempo da chegada do exército invasor, o rei Porus acampou na margem esquerda do rio Hidaspes. Consigo havia um força formidável, composta de carruagens-de-combate e regimentos de elefantes, com cuja assustadora imponência procurava impor temor e respeito no jovem aventureiro que descera de Cabul, vindo pelo Hindu-Kush, para assombrar as terras da Índia. Era a época das monções e rajadas de vento e de água chicoteavam as tropas acampadas dos dois lados do rio, enfrentando-se à distância, separadas pelo tumulto da volumosa e perigosa corrente. Alexandre soube usar com muito gênio tático o clima hostil a seu favor. A chuvarada que desabava na área serviu-lhe de cortina de proteção para uma manobra audaz que permitiu-lhe transpor o Hidaspes num ponto mais acima sem que o rei Porus se desse conta disso. Era a primeira vez na história que um exército vindo da Europa enfrentava um exército da Índia (batalha precursora das que muitos séculos depois os portugueses travaram em Calicute e em outras partes da Índia). Na margem esquerda do rio, esperando para enfrentar a falange de Alexandre, alinhavam-se 200 elefantes treinados para a guerra. A cavalaria invasora composta pelos heteros, a nobreza da Macedônia, refugou, pois as montarias arrepiaram, mostrando-se assustadas frente aos mastodontes que viam pela frente. Coube assim aos peltastas, a infantaria ligeira, e os stichos, os pelotões adestrados, neutralizarem os possíveis estragos dos paquidermes. Travou-se então, em meio a chuva, na data imprecisa de maio ou julho de 326 a.C., uma batalha formidável: a última das batalhas memoráveis de Alexandre. Depois de conseguir neutralizar a cavalaria de Porus, um regimento eqüestre dos macedônicos conseguiu, contornando as linhas inimigas, atingir a retaguarda do rei indiano. Os elefantes, feridos, foram tomados de pânico e seus tratadores, os mahouts, viram-se em apuros para tentar dominá-los. Por fim, a falange entrou em ação esmagando o restante das forças inimigas. A batalha foi longa, estendeu-se por oito horas (o que não era comum naqueles tempos), sendo que as baixas dos invasores somaram 980 homens (cavaleiros e infantes) e tiveram de 10 a 12 mil feridos. As forças em confronto
| Macedônicos | Indianos | | Rei Alexandre | Rei Porus | | Força atacante: 15 a 25 mil soldados | Força de defesa: 22 a 34 mil soldados | | Cavalaria e hypaspists (Escudos do Rei) | Regimento com 200 elefantes |
As conseqüências da batalha de Hidaspes
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A falange enfrenta os elefantes
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Porus, aprisionado, impressionou a Alexandre com sua altivez exigindo “ser tratado como a um rei”. O conquistador o reconduziu ao trono com o compromisso dele aceitar ser seu vassalo. A confusão todavia deu-se logo depois da vitória, especialmente pelo amotinamento do batalhão de elite formado pelos hypaspists, os Escudos do Rei (*), que não desejavam dar continuidade a campanha que previa, a seguir, uma marcha para o Indo para o Ganges. Alexandre enfureceu-se, mas depois ele percebeu o sentimento profundo da tropa. Os soldados há tempos que estavam longe de casa, carregados de vitórias e de despojos. Queriam voltar para o lar na Macedônia para poder usufruir dos ganhos dos saques e das pilhagens. Além disso, a batalha de Hidaspes, enfrentar aqueles elefantes todos, esfriou-lhes os ânimos. Quantos outros exército iguais aos de Porus, pensarem eles, ainda teriam pela frente? Um oficial, tomando coragem, teria inquirido o comandante supremo perguntando-lhe se ele “desejava expor aquele brilhante exército nu frente às bestas selvagens?” O choque que Alexandre sofreu foi o suficiente para ele dar-se conta que soara a hora de retornar, de por um fim à trajetória de conquistas. A isso, reforçando a sua decisão, juntou-se o fato de que Esfiges, um filósofo gimnosofista que acompanhava o acampamento e a quem os gregos chamaram de Calano, querendo expor emblematicamente a situação de um império, colocara no chão um couro de boi totalmente seco, mostrando ao rei que cada vez que ele pisava numa extremidade do couro, numa das patas ou no rabo, as outras partes se levantavam, enquanto que se ele pisasse somente no centro nada se mexia. O novo Grande Rei devia fazer isto: encontrar o centro do seu império e nele fixar o trono definitivamente (Plutarco – Vidas Paralelas –Alexandre: LXV). Mas antes disso, de ordenar a retirada geral das terras da Índia, mandou que fossem erguidos nas margens do rio Hidaspes 12 altares gigantes, um para cada deus olímpico, para sinalizar os limites setentrionais do seus domínios na Ásia Oriental. (*) Os Hypaspists , também conhecidos depois da campanha da Índia como os Escudos de Prata, foram os antecessores da Guarda Pretoriana dos imperadores romanos e da Guarda Imperial de Napoleão Bonaparte.
Retirando-se pelas águas e pelo deserto
Para evitar ter que voltar pelo mesmo trajeto que viera, tendo que transpor os impressionantes desfiladeiros do Hindu-Kush, Alexandre ordenou a Nearco (que a partir de então se transformaria no mais famoso dos almirantes de Alexandre) que construísse uma frota composta de barcos e batelões em número suficiente para transportar parte dos cem mil homens pelo rio Indo até o seu delta que desemboca no Mar Arábico. Marchando pelas margens, uma parte da falange era liderada por Heféstion, o favorito de Alexandre, e a outra por Crátero. No caminho em direção ao Índico ele realizou operações de surpresa para submeter os povos ribeirinhos do vale do Indo. Num destes desembarques-relâmpago, ao tentar a submissão dos malavas, numa ação tipicamente juvenil e despropositada, o conquistador foi gravemente ferido por um flecha que lhe trespassou a couraça, sofrendo ainda várias outras contusões ao cair em meio aos inimigos. Os soldados temeram por sua vida. Mas uns dias depois, recuperado, Alexandre, no alto da popa do barco real, apareceu a todos, envolto no seu manto abanando para as tropas. Quando, oito meses depois da invasão da Índia, nos começos de 325 a.C., chegaram às braçadas finais do rio, ele decidiu separar suas forças em três corpos. Não era possível enfrenta o mar aberto com os navios da frota, pois eram insuficientes para transportar os soldados. Parte deles foi mantida a bordo sob o leme de Nearco, com a missão de enfrentar o Oceano Índico e ir encontrar-se com Alexandre depois, navegando pelo Golfo Pérsico. (Nearco, de origem cipriota, autor do livro de viagens “Périplo”, iria se consagrar como um almirante desbravador de cenários desconhecidos para os gregos). Outro tanto da tropa, acredita-se que 1/3 dos soldados, acompanhou o general Craterus numa marcha para o norte, para a Carmina, cabendo a maioria do exército à chefia de Alexandre. Desconhecendo as reais condições do território que tinha a frente, ele embrenhou-se numa das regiões mais áridas do sul do Irã, o deserto de Gedrosia (hoje Beluquistão). Foi uma travessia desastrosa mas heróica. As perdas humanas, por doença e flagelos outros, provavelmente foram superiores às baixas que até então a falange tivera em campo de batalha. A aridez do solo, o sol inclemente, as areias e as pedras quentes, a fome e a sede intermitente, mostraram-se uma combinação mortífera para as tropas. Durante 60 dias Alexandre padeceu num inferno de desolação e desespero até que conseguiu acampar a salvo (historiadores militares comparam os estragos padecidos na retirada de Alexandre pelo deserto de Gedrosia ao desastre de Napoleão na Russia, em 1812). Quando o jovem conquistador subitamente morreu na Babilônia no ano de 323 a.C., acometido por violenta febre (parte pelos excessos dos bacanais, forrados a álcool e a todo tipo de exagero, mas também pelo desgaste do esforço físico despendido nas marchas e batalhas), os diádocos (os generais sucessores de Alexandre), confirmaram na Conferência de Triparadeisos, realizada no ano de 320 a.C., as indicações que o conquistador havia feito antes para os governos do norte da Índia, legitimando Porus em Patala e Taxiles na região do Hidaspe. Na verdade a presença dos macedônios e dos poucos gregos que os acompanhavam foi passageira na história da Índia, muito aquém daquela marca deixada mais tarde pelos mongóis ou pelos britânicos, mas mesmo assim, até os nosso dias, os indianos fazem referência ao jovem guerreiro que eles tiveram que combater com suas espadas e seus elefantes.
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