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História - Antiga e medieval
ANTIGA E MEDIEVAL

A trama contra Constantinopla

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A Quarta Cruzada
» A cruzada bandida de 1204
» A trama contra Constantinopla
 
De fato, uma impressionante coligação de forças terminou por desabar sobre a infeliz capital da cristandade oriental no ano de 1204. O Papa Inocêncio III conclamara a nobreza européia a retomar Jerusalém (nas mãos de Saladino, desde 1187), o imperador do Sacro Império queria a submissão da cidade para fazer dela um Império latino, os barões franceses viram-na como um fabuloso butim antes de seguir na cruzada e, por último. O doge de Veneza, Enrique Dándolo, um enérgico octogenário, desejava eliminá-la como rival comercial e açambarcar-lhe o grande mercado asiático controlado por ela.

E tudo começara quando os cavaleiros cruzados - liderados por Balduíno, Conde de Flandres, e por Bonifácio, Marquês de Montferrant -, pegos sem dinheiro com suas tropas acampadas na ilha do Lido, em Veneza, tiveram que aceitar o desvio da nobre missão sugerido pelo doge Dándolo. Ao invés de resgatarem Jerusalém por uma incursão pelo Egito, como era o plano original, aceitaram incursionar contra Constantinopla para pagar as dívidas à Veneza (mais de 30 mil marcos de prata). Como primeira missão, foram constrangidos a retomar para Veneza o porto de Zara, no litoral Adriático (hoje na Croácia e que havia sido ocupada pelo rei da Hungria, um cristão).

O pretexto a que se prenderam, tanto os nobres franceses como seus sócios venezianos, que formavam o grosso da expedição de mais de 150 navios e galeras - a justificativa que encontraram para que cristãos atacassem uma metrópole cristã -, em total desvirtuamento com o espirito da cruzada (que era combater o Islã para controlar os Santos Lugares), era reparar a injustiça feita com o principe Alexis Angelos, que tivera seu pai, o basileu Isaac II, deposto e preso por um irmão, que entronara-se no Palácio Bucoleon como Alexis III (o príncipe bizantino Alexis Angelos prometera mundos e fundos aos cruzados, quando estes por fim o colocaram no poder, por ocasião da primeira conquista da cidade, em 17 de julho de 1203, ele deu-se conta que não podia pagá-los, visto que o tesouro real estava vazio ).

O cronista desta infeliz cruzada de bandidos, Geoffrey de Villehardouin, Marechal da Champanha, (autor de Memórias ou Crônica da Quarta Cruzada e a Conquista de Constantinopla), assegurou que nada daquilo fora premeditado. As coisas foram acontecendo ao acaso e os homens deixaram-se envolver pelas obrigações imediatas. Como se dera com os cruzados franceses que, comprometidos a assegurarem 85 mil marcos de prata à Veneza para pagarem os custos da viagem até o Egito, tiveram que, como se viu acima, aceitar uma mudança do roteiro original, pois somente haviam levantado 50 mil marcos de prata, insuficientes para cobrir as despesas do translado de 33.500 soldados e cavalos para o Oriente Médio.

O primeiro passo em falso dado por eles foi ter atendido ao doge Dándolo para que recuperassem Zara, um porto cristão, para Veneza. Cometido o primeiro desvio, seguiu-se um outro, bem maior.

A pilhagem de Constantinopla

O assalto à Constantinopla (12 de abril de 1204)
"...Como devo eu começar a relatar as proezas cometidas por tais homens nefandos! Arre. As imagens, as quais temos o dever de adorar, foram arremetidas ao chão! Arre, as relíquias dos santos mártires foram atiradas sobre lugares imundos! Foi doloroso ver e com tremor ouvir, o divino corpo e o sangue de Cristo, esparramado .... pelo chão. Eles despedaçaram os preciosos relicários e colocaram os ornamentos que lá continham dentro das suas bolsas e, precursores do Anti-Cristo, usaram as partes remanescentes como taças e copos..... Cristo foi roubado e insultado e Suas roupas divididas por sorteio....Ninguém pode violar a Grande Igreja ( Hagia Sofia)".
Nicetas Choniates - O Saque de Constantinopla, 1204.

Tomada de assalto a cidade pela segunda vez em 12 de abril de 1204, depois de um assédio de poucos dias, latinos e gregos, ambos lados rogando por um empenho salvador de Jesus Cristo, engalfinharam-se pelas ruas e praças da capital, à sombra de impressionantes incêndios que devastavam a cidade. O imperador Alexis IV fugira miseravelmente deixando-a entregue ao despotismo da soldadesca. Tudo foi pilhado e roubado. A catedral de Santa Sofia, igrejas, capelas, palácios e edifícios públicos, bibliotecas, livrarias, lojas, os bazares, foram por três dias seguidos arrasados pela fúria desatada das tropas invasoras. Os chefes cruzados e o doge tiveram dificuldade em encontrar três igrejas ainda inteiras para poderem usá-las como local da partilha do enorme espólio. Isto numa cidade onde não havia rua sem uma capela. Poucas vezes assistira-se na história uma inversão tão completa de objetivos: a luta pela fé tornara-se uma enorme operação de banditismo, os cruzados viraram facínoras.

Niceta Chroniates, o historiador grego que testemunhou o desastre, assegurou que "nem meretrizes, nem pecadores com suas culpas, nem os ministros das fúrias ou os servos do demônio, nem mesmo os envenenadores... insultaram a Cristo e o trono do Patriarca (chefe da Igreja Ortodoxa)" de um modo tão obsceno e profano como eles o fizeram. Em valores atuais ainda é impossível calcular-se o montante do roubo promovido pelos cavaleiros cristãos. Seguramente as jóias e o ouro seriam avaliados em bilhões de dólares (*).

Dado que o príncipe Alexis fora morto por estrangulamento nos começos de 1204 e o outro imperador fugira, deixando o trono vago, os gregos, além de se verem espoliados pelos cruzados, foram obrigados a avassalarem-se a um monarca estrangeiro, um francês. Num parlamento formado por apenas 12 votantes (o número dos apóstolos), os cruzados elegeram Balduíno, Conde de Flandres como o novo rei de Constantinopla. Com o titulo oficial de Imperator Romaniae, ele foi coroado em 16 de maio de 1204 na Catedral de Santa Sofia, formado-se deste modo o Império Latino do Oriente. Situação que se estendeu até 1261, quando Miguel VIII Paleólogo, derrubando Balduíno II, o derradeiro monarca latino, conseguiu recuperar o controle da cidade de volta para os gregos.

Por um bom tempo, de 1204 a 1261, a cristandade então conheceu a existência de três impérios romanos: o Sacro Império no Ocidente; o Império Latino em Constantinopla e seus arredores; e a continuidade do Império Bizantino nas partes gregas e orientais.

O assalto à Constantinopla e a orgia de violência que se seguiu, ocorrido há 800 anos atrás, envenenou para sempre as relações entre os dois hemisférios da cristandade: o ocidental e o oriental. É esta brecha irreparável que o papa João Paulo II tentou diminuir devolvendo os santos ossários ao Patriarca ortodoxo.

(*) É de difícil entendimento para o homem dos nosso dias a obsessão dos cruzados europeus pelas relíquias. Ocorre que, talvez mais ainda do que o ouro, elas eram importantíssimas não só devido ao seu peso simbólico que os ligava a Cristo ou à Terra Santa, mas também pelo valor material delas. Uma relíquia qualquer posta em exposição numa igreja ou numa capela de uma pequena cidade européia atraia levas de visitantes, o que significava dinheiro para todos os moradores da localidade. Relíquias, por vezes, rendiam bem mais do que ouro ou rubi.

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