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Al-Mansur, o caudilho de Alá
O registro da passagem dos mil anos da morte de Abi Amir Muhammad ou Ben-abi-Amir, mais conhecido como Al-Mansur, o vitorioso, vizir do Califado de Córdoba na Espanha mourisca, general conquistador e estadista árabe, falecido no lugarejo de Medinaceli, entre os dias 10 e 11 de agosto de 1002, gerou escassas abordagens fora da Espanha. Ele, entretanto, foi o primeiro homem de estado muçulmano, nascido na Europa, que empenhou-se, entre 981 e 1002, em colocar o território ibérico sob uma só regência – a do Califado de Córdoba. Morreu imaginando-se um caudilho de Alá.
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Al-Mansur (940-1002), tela de Zurbarán
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Desde a ocupação árabe da península Ibérica, conquista iniciada em 711 pelo caudilho Táriq ibn Ziyad, vindo do Magrebe, a bandeira verde do Profeta tremulou sobre a maior parte das terras da Espanha e de Portugal. O domínio Visigodo que por lá até então reinara, fora varrido do mapa com uma facilidade espantosa, e, em pouco tempo, levas de tribos árabes e bérberes, atravessando o estreito de Gibraltar (de Gibel el-Táriq), assentavam-se por todo lado. Pela excelência da sua situação geográfica, a cidade de Córdoba, na beira do rio Guadalquivir, não tardou em ser promovida a hadira, a sede dos califados mouros que lá se estabeleceram. Fizeram-na a capital do Al-Andaluz, base e trampolim do domínio muçulmano sobre a Ibéria. Naquela ocasião, nos finais do século X, só estavam fora do seu controle direto apenas os reinos cristãos situados na Marca Norte (Leão, Castela e Navarra) e o condado da Catalunha ao leste, vassalo dos carolingeos franceses. Mas eles não tiveram descanso porque um novo caudilho a serviço da causa do Profeta logo entraria em ação.
Diferenças entre os ocupantes
Vindos do Norte da África, ou dos desertos da berbéria, a antiga Numídia dos romanos, as tribos muçulmanas que ocuparam a Espanha não tardaram em desentender-se. Os árabes, mais cultos e instruídos, se indispuseram com os bérberes africanos, ignorantes e fanáticos do Islã, produzindo uma tensão permanente entre a cidade e o campo. As principais famílias ocupantes de Córdoba, Mérida, Toledo ou Saragoça, por sua vez, não ficaram imunes à guerra civil que corroeu a unidade do Islã no século VIII. O confronto entre o partido Abássida e o partido Omíada, as duas dinastias árabes que lá longe, no Oriente, lutavam pela herança do Profeta, por igual projetaram sua discórdia para dentro da Espanha moura. Com o questionamento da autoridade daí decorrente, emires e vális (governadores de província), alcaides (prefeitos das cidades) e xeques (chefes das tribos), também deram para desavir-se sobre as esferas e os limites do seu poder. De certo modo, esse desacerto (entre árabes e bérberes, e entre as tribos entre si) derivava das históricas dificuldades dos povos nômades em saberem se adaptar ao sedentarismo e à disciplina administrativa exigida pela vida urbana e pelas coisas do governo. A isso agregava-se o desconhecimento deles do hábito da obediência a um poder superior centralizado e a um conjunto de regras burocráticas que o caracterizam. O único e verdadeiro imperador do deserto que conheciam, o déspota das areias e dos destinos deles era o Sol, e a versão humana disso era o xeque, o líder da tribo. Por isso, para uni-los, para juntar aquela massa de iemenitas, de moraditas, de egípcios, de sírios e de bérberes, que haviam invadido e ocupado a Espanha, para fazer com que eles sublimassem suas diferenças era preciso sacudir a bandeira do verde do Profeta e incitá-los à Jihad, a guerra santa. Essa foi a grande percepção e o sucesso de Ben-abi-Amir, o Al-Mansur.
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Audiência no palácio Al-Zahra, Córdoba, século X
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Chegando em Córdoba ainda bem jovem, vindo de Torrox, na ilha de Málaga, onde nascera em 940, ele não tardou em ascender na corte do califa Hakam II. Rapidamente indicaram-no como hachyb, isto é, um prefeito do paço, um primeiro-ministro, quando apenas atingira 26 anos de idade. Homem brilhante, dominando a literatura e a ciência, terminou por seduzir a Subh, a própria viúva do califa (ele morreu em 975), mulher origem basca que exercia enorme influência na corte como a favorita de Hakam II e mãe do seu herdeiro. Fato que muito o ajudou para que Ben-abi-Amir se tornasse o tutor do filho do califa morto, um garoto de 11 anos, que assumiu o trono com o nome de Hisam II. Não tardou para que o califa fosse orientado pela mãe e pelo amante dela no sentido de dopar-se com estudos corânicos, vivendo recolhido em meio as rezas e preces a Alá, deixando o caminho aberto para que Ben-abi-Amir assumisse o controle da totalidade das coisas do estado. Para marcar ainda mais a posição politica e administrativa dele, distanciada das funções do califa, o ministro determinou a mudança do governo para o complexo da cidade-palácio de Madinat al-Zahra, mandado inicialmente construir pelo califa Abderraman III, a partir de 936, e que sustentava-se sobre mais de quatro mil colunas. Era um impressionante conglomerado de prédios projetados para acolher a administração e que tornou-se inspiração para muitos outros soberanos europeus quando eles, séculos depois, decidiram-se viver a parte da sociedade em que reinavam (o palácio de Versalhes de Luís XIV, ou o Sanssouci, de Frederico , o grande, são projeções tardias do Al-Zahra) Desde então o califa restringiu-se ao Dar al-Mulk, o palácio califal, posando como uma espécie de guia espiritual da comunidade muçulmana, enquanto ele, o hachyb, chefe do poder temporal, despachava as coisas do governo e recebia os diplomatas nas suntuosas instalações do Al-Zahra, distante uns 8 quilômetros do centro de Córdoba, fixando-se como o verdadeiro sol da constelação política, econômica, social e cultural do califado. Ben-abi-Amir, conformando-se com o titulo de vizir, teve a inteligência de jamais querer substituir o califa, mesmo sabendo-o um incompetente, pois assim preservou a legalidade e o respeito e a fidelidade da massa muçulmana às instituições. Para si resolveu adotar apenas a designação de seyd – senhor – ao tempo em que acrescentou ainda um outro titulo, o de Melic carim – o nobre rei. Para reforçar ainda mais o apoio interno a concentração de poder que imaginou, além de mandar ampliar a bela mesquita de Córdoba, aliou-se aos ulemás, os obscurantistas lideres religiosos islâmicos, satisfazendo-os com a queima dos livros de filosofia, astronomia e outras ciências , selecionados antes pelo Índice Exprobatório, que existiam na soberba biblioteca que o califado herdara dos tempos de Alhaquem II. Desse modo, provavelmente mesmo contra suas convicções culturais mais profundas, ele apresentou-se como o campeão e defensor da ortodoxia corânica, fator fundamental para conseguir o respaldo e a simpatia das massas bérberes fanatizadas, a quem ele iria convocar para Jihad. Ele seria o Castigo de Alá. O terceiro passo dado por Ben-ibn-Amir foi no sentido de modelar um novo exército, expurgando-o da presença dos hasham, os mercenários estrangeiros, e afastando-o da poderosa influência do general Galib, então ministro da guerra. Deixou-o enxuto, com regimentos ligados entre si pelos laços da fé e pela veneração que tinham pelo seu comandante supremo, o próprio Ben-ibn-Amir. Exército este que foi a primeira força realmente organizada na Espanha em muitos séculos. Em bem poucos anos, a administração dele foi considerada como a melhor de todos os estados europeus, e o califado de Córdoba projetou-se como uma das potências do continente, tendo como rivais a altura apenas o Papado romano.
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