Educação História por Voltaire Schilling Antiga e medieval
Boletim
Receba as novidades no seu e-mail!
Fale conosco
. Envie releases
. Mande críticas, dúvidas e sugestões
EducaRede
Entre no portal da escola pública
História - Antiga e medieval
ANTIGA E MEDIEVAL

Boccaccio: testemunho de Petrarca

Leia mais
» Boccaccio e a praga da China
» Boccaccio: testemunho de Petrarca
 
Em meio a tal indiscritível horror, Petrarca escreveu ao seu irmão, o único frade que escapara com vida no interior de um mosteiro:

Meu irmão! Meu irmão! Meu irmão!, É um começo de uma carta também usado por Marco Túlio Cícero 14 séculos atrás. Alás meu irmão, que poderia eu dizer? Como eu deveria começar? Por onde emocionar-me? Há sombras em todos os lados e em todo os lugares paira o medo. Eu gostaria, meu irmão, de não ter nascido ou então de ter morrido antes desses tempos. Como poderá a posteridade acreditar que mesmo sem os relâmpagos do céu ou os fogos da terra, quando o bom tempo predominava sobre todo o globo, ele quase ficou sem seus habitantes. Um tal tipo de coisa jamais foi ouvida ou vista antes; em qual dos anais leu-se alguma vez que as casas ficaram vazias, as cidades desertas, os condados abandonados, o espaço totalmente diminuto frente à morte e o receio da mais completa solidão sobre toda a Terra? ...Oh feliz povo do futuro, que não conhecerá tais misérias e que tomará nosso testemunho como se fosse uma fábula.

(Petrarca em carta ao seu irmão. O único sobrevivente de um mosteiro em Monrieux, na França, em 1348)

A dissolução de tudo

Petrarca e Boccaccio, testemunhos da Peste Negra
Os féretros dos figurões, antes um acontecimento social, com a parentela e os grandes da cidade acompanhando o caixão até o mausoléu da família, viraram uma cerimônia grotesca, na qual um par de humildes padioleiros desconhecidos, contratados a peso de ouro, carregavam o defunto quase que na corrida para ir jogá-lo às pressas na primeira cova que viam aberta. Nas capelas e igrejas do campo santo, os mortos eram empilhados como se fossem carga de navio. Enfiavam, sem reza nem benção, três de cada vez num só buraco cavado na terra.

Nenhum laço humano era capaz de atar alguém ainda saudável perto de um afligido em agonia, dar-lhe água ou acalentá-lo com uma prece. Pai desertava do filho, irmão da irmã, o amigo do amigo, a mulher do marido e vice versa. Nem lei, nem autoridade, nem crença, eram mais respeitadas ou acatadas. Até os animais de estimação, por roçarem-se nos donos, morriam aos magotes. Andar pelas ruas era um risco e um sacrifício. Logo, os poucos atrevidos traziam junto das narinas plantas aromáticas para atenuar a fedentina dos restos dos insepultos e do lixo que se acumulava por toda a parte. Ninguém mais se ajudava.

Florença ficou quase que deserta pela fuga dos que ainda podiam andar. Não caminhavam muito pois a pestilência os emboscava na primeira curva da estrada. Então debatiam-se sozinhos, contorcendo-se na mais completa solidão, não tendo o consolo de um só olhar de comiseração que fosse. No campo não era diferente. Sem o vaqueiro ou o pastor, todos mortos, os bichos sucumbiam de fome pois nem a forragem lhes era mais oferecida. Em apenas cinco meses, de maio a setembro de 1348, registrou Boccaccio, cem mil vidas foram ceifadas pela praga da China, em Florença e nas cercanias.

página anterior     
Veja todos os artigos | Voltar