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Atenas entre a democracia e o império - parte 2
Capturados por Paques, os principais cabecilhas insurretos de Mitilene foram enviados para Atenas para serem punidos. O povo reunido em assembléia, furioso com o que entendiam ser uma traição deles, exigiu das autoridades uma solução radical. Tolhidos os olhos pelo sangue da vingança, intimaram, exaltados, que não fossem só os chefes os sacrificados. Que Paques recebesse a autorização de passar no gládio todos os adultos, mesmo os do povo, e que as mulheres e crianças deles fossem vendidas como escravas. A punição tinha que ser exemplar para que nenhuma outra cidade aliada ousasse revoltar-se sem razão. No dia seguinte a tal terrível determinação, uma nau ateniense partiu para a Ilha de Lesbos com a ordem do extermínio. Insuflara-os ainda mais o discurso de Clêon, um representante popular, que, temendo que “ a cólera do ofendido contra o ofensor vai-se amortecendo com o passar do tempo”, cobrou do povo ali reunido uma posição firme e definitiva. Que se matassem a todos, nobres e povo! Doravante eles, os de Atenas, não deveriam deixar-se dominar pela tolerância e piedade ou fraqueza, voltando atrás no que haviam acertado. O risco pior, assegurou ele, era “ a falta de firmeza nas decisões”. Que “não se deixassem levar pelos três sentimentos mais nocivos a quem exerce o império: a compaixão, o encanto pela eloqüência e a clemência” ...”que se vingassem sem fraquejar” (Tucídides, III, 40). Clêon tocara no âmago da questão. Uma democracia que se tornava num império não podia ser magnânima. Por mais que repugnasse os seus integrantes, ela era tão tirânica como qualquer déspota oriental. A alternativa era “ desistir do império e viver sem riscos como homens virtuosos”.
Para sorte dos mitilenses, em meio a reunião, surgiu a voz da indulgência. Diôdotos, um homem brando, tomou a palavra e conseguiu reverteu a situação. Mostrou que era um absurdo sacrificar-se toda a população, pois a pena de morte não previnia nada. Sendo os homens temerários por natureza, quando se engajam afoitamente numa ação, nem a lei nem ameaças os fazem retroceder. O melhor a fazer é deixá-los arrependerem-se, dar-lhes uma chance para repararem o erro, pois uma punição excessivamente severa dos mitilenses traria evidentes prejuízos econômicos. Além disso, um regime democrático punir um povo ex-aliado era cortar pela raiz qualquer apoio futuro que pudessem ter junto aos setores populares de outras cidades. Arrependida dos seus exageros, a assembléia ordenou então que uma outra nave, tripulada por remadores velozes, partisse para Mitilene. Durante alguns dias, os dois barcos, um com a sentença de morte, que partira antes, e o outro, portando o pergaminho da clemência, navegaram quase que lado a lado. Para a boa fama de Atenas, o perdão chegou antes que Paques mandasse afiar os fios das espadas, mas a grande cidade não escapou da contradição de ser uma democracia dona de um império...
Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.)
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