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FESTA CONCORRIDA
Atualmente, a festa do Inti Raymi, em Saqsayhuaman
(no alto), congrega, como há cinco séculos,
milhares de visitantes. No dia da festividade, 24 de
junho, o Inca moderno é levado da Plaza de Armas
até o local das comemorações (abaixo,
à esq.). Nesse dia, o Inca torna-se uma autoridade
mais respeitada que os próprios governantes locais.
Abaixo, à dir., um cego toca harpa para ganhar
a vida em uma ruela incaica de Cuzco. |
VIAJOLOGIA
CUZCO
Umbigo do mundo
Afinal, qual é a magia dessa cidade?
Texto e fotos: Haroldo Castro
Todo viajólogo tem sua lista de países
preferidos. Aliás, não só países
– cidades, lugares e festivais. Estes nomes precisam
estar na ponta da língua, pois, em qualquer conversa
mais profunda sobre viajologia, a pergunta sempre aparece.
Quando interrogado, dou respostas vagas, pois não existe
apenas um paraíso neste planeta. Listo um país
por continente, conto que alguns – como Brasil ou Itália
– são hors-concours e enrolo um pouco mais, propondo
que Índia e China não podem ficar de fora; nem
a Indonésia, pela sua variedade de ilhas.
Mas quando se trata de cidades preferidas – por mais
carioca que eu seja – não posso evitar: minha
mente regressa imediatamente a Cuzco.
Minha relação com essa cidade empoleirada na
cordilheira andina é muito forte. Foi em Cuzco que
deixei de comer carne e comecei a praticar ioga. Lá
descobri a força dos Andes. Fotografei suas pedras
incaicas, a arte colonial espanhola e os desafios de sua vida
moderna. Estava em Cuzco quando terroristas do Sendero Luminoso
explodiram um trem de turistas, quando o papa João
Paulo II vestiu um poncho pela primeira vez e quando militares
do governo Morales Bermúdez espancaram estudantes.
Sentado em algum banco da Plaza de Armas, o coração
palpitante da cidade, parei várias vezes para refletir
por que Cuzco me enfeitiçava tanto. Quando eu saía
das minhas divagações, a resposta estava ali,
à minha frente. Cuzco atraía, como se fosse
um ponto magnético ou um chacra da Terra, gente de
todo o mundo, de todas as raças. Os cuzquenhos confirmam
essa vocação e explicam que qusqu, em idioma
quéchua, significa centro ou umbigo. A antiga capital
incaica era – e continua sendo – um Umbigo do
Mundo.
Cheguei a Cuzco pela primeira vez em março de 1978.
Pretendia passar duas semanas e fiquei três meses. Durante
esse período, meu endereço era a própria
Plaza de Armas: dormia dentro de uma Kombi azul, convenientemente
estacionada do lado oposto da catedral. Quando consegui sair,
deixei um filho: o restaurante vegetariano Pura Vida, no pátio
colonial do Hotel de los Marqueses, que sobreviveu por uma
década. Graças ao Pura Vida, provei variados
pratos da culinária local e conheci todos os mercados
cuzquenhos.
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TRADIÇÃO
CUZQUENHA
No alto, uma dança tradicional cuzqueana.
Abaixo (à esqu.), mascarados do festival Q´ollor
Riti na Plazza de Armas, em Cuzco; dom Faustino Espinosa.
Abaixo (à dir.), uma menina quéchua, com
o irmão nas costas, observa militares peruanos
na década de 80.
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Sempre que retorno a Cuzco, mesmo se apenaspor um dia, faço
questão de reviver determinados cerimoniais. Tomo o
café da manhã no Mercado São Pedro –
em frente da estação do trem que sai para Machu
Picchu – e me delicio com dois enormes copos de suco
de cenoura. Caminho pelas estreitas ruelas em busca da geometria
incaica e não me canso de rever a pedra dos 12 ângulos,
parte do muro do palácio Hatunrumiyoc. Entro no Convento
de Santo Domingo, não para visitar o santuário
católico, mas para desfrutar o Qorikancha, o Templo
do Sol. No final do dia, subo em direção a Saqsayhuaman
e, da igreja de San Cristobal, quase como um condor, observo
a cidade majestosa, que começa a brilhar com suas luzes
alaranjadas. Minhas passagens por Cuzco me deram sempre a
oportunidade de criar novos laços de amizade. A maioria
foi com gente de fora, europeus ou latino-americanos. Mas
um deles, um verdadeiro cuzquenho, me impressionou desde o
primeiro encontro. Faustino Espinoza Navarro nasceu no início
do século e, se estivesse vivo hoje, estaria perto
de completar 100 anos de idade. Era um erudito. Junto com
outros intelectuais cuzquenhos, Don Faustino fundou em 1953
a Academia do Idioma Quéchua, da qual foi presidente
por vários anos.
Ele possuía uma lojinha de artesanato em uma das ruelas
mais incaicas do centro, a Calle Procuradores. Sempre vestia
um poncho bordado, em tons vermelhos, e levava na cabeça
um chullo, o boné andino de lã de lhama. Na
sua mão direita, como símbolo de mando, portava
um bastão de madeira nobre, com acabamento de prata.
A maioria dos visitantes entrava na loja em busca de casacos
de lã, ponchos, jóias de prata ou esculturas.
Mas quem conhecesse um pouco mais Don Faustino sabia que o
tesouro a ser descoberto não estava nas prateleiras.
O velho sábio quéchua era um verdadeiro poço
de conhecimento. Lembro-me de uma longa visita, quando eu
buscava uma resposta menos convencional sobre as possíveis
técnicas utilizadas pelos incas para cortar os enormes
blocos de pedra. Nenhuma folha de papel nem mesmo um fio de
cabelo podem penetrar nas frestas entre duas pedras. O encaixe
é perfeito. Mas os arqueólogos insistiam que
tudo era produzido apenas com cinzel e mãos fortes.
“Os incas cortavam a pedra como se ela fosse um pedaço
de manteiga”, rebatia Don Faustino. “Eles usavam
um ingrediente que amolecia a rocha.” Don Faustino esteve
a ponto de descobrir a “receita” várias
vezes, mas ele admitia que nunca chegou a conhecer o mistério.
“Certa vez, um campesino, que dizia saber o enigma,
disse que iria me levar a um lugar onde eu poderia compreender
o que os incas faziam. Como o local era longe da comunidade,
marcamos encontro para o dia seguinte às 5 horas da
manhã. Mas ele nunca apareceu. Aliás, nunca
mais pude encontrá-lo.”
Don Faustino acreditava que essa poção fosse
preparada com uma mistura de vegetais. Contava que, certa
vez, ouvira uma estória sobre uma espécie de
pássaro andino que utilizava plantas para construir
seu ninho na rocha. A ave picava a pedra e usava as plantas
para abrandar a rocha. Mas a teoria nunca foi confirmada.
Gostoso mesmo era ouvi-lo articular o quéchua clássico,
não o idioma popular, falado nos mercados andinos.
“Ama sua, ama llulla, ama qella”, dizia ele como
se estivesse declamando uma poesia. “Este era o lema
incaico, tão válido hoje como há 500
anos. Significa: ‘Não roube, não seja
preguiçoso e não minta.’ Bom seria se
nossos governantes seguissem esses princípios”,
lamentava.
Don Faustino se orgulhava também de ter sido o primeiro
Inca (imperador) moderno. “Nos anos 40, resolvi estudar
as crônicas de Garcilaso de la Vega que descreviam a
cerimônia incaica do Inti Raymi, a festa do Sol. Inspirado,
escrevi o roteiro do que passaria a ser o novo festival.”
Em 1944, Faustino entrou em cena pela primeira vez como personagem
principal e seu porte nobre e voz profunda o fizeram guardar
a função de Inca moderno durante 14 anos seguidos.
Assim como o Inti Raymi atual, o antigo festival do sol era
realizado no dia 24 de junho, em Saqsayhuaman, a menos de
um quilômetro da Plaza de Armas de Cuzco. Celebrava
a entrada do inverno – momento que o Sol está
mais distante – e comemorava, com alegria, o retorno
do astro, pronto para esquentar novamente a terra.
Era a mais importante festividade na época dos incas.
Súditos vindos dos quatro cantos do Tawantisuyu, a
confederação incaica, congregavam-se no Umbigo
do Mundo para marcar o início de um novo ano agrícola
e celebrar a origem mítica dos incas. A história
relata que o último evento a contar com a presença
de um imperador inca aconteceu em 1535. Nas décadas
seguintes, o poder da Igreja católica proibiu a realização
da festa, por considerá-la pagã.
Documentei duas vezes o Inti Raymi moderno e confesso que
fiquei impressionado quando vi dezenas de milhares de pessoas
rodeando as edificações gigantescas de Saqsayhuaman.
Como não chovia nesse dia, o brilho do evento parecia
ser ainda maior: o Sol flamejava com vigor e as cores fortes
das vestimentas incaicas contrastavam com o azul profundo
do céu.
Antes de chegar às ruínas, o cortejo do Inca
parou em uma das praças de Cuzco. Diante do prefeito
da cidade, o Inca, escolhido para representar essa função
por suas qualidades pessoais e sua integridade, fez um pronunciamento
firme: “Os dirigentes devem sempre governar lembrando-se
dos valores tradicionais e usando justiça e sabedoria.”
Em Cuzco, no dia 24 de junho, o novo Inca tem mais autoridade
que os governantes eleitos e a mensagem do soberano se torna
um ponto de referência para o público local.
Graças à idéia de Don Faustino, o Inti
Raymi voltou a ser o festival mais importante de Cuzco. Milhares
de pessoas, agora não somente das quatro regiões
do Tawantinsuyu, mas dos cinco continentes, se concentram
para reviver a mitologia andina. Além de trazer dólares
e criar empregos, o Inti Raymi veio reafirmar as raízes
ancestrais, reconhecendo a força do sagrado.
A verdade é que Cuzco não é uma cidade
qualquer. Impossível sair de lá a mesma pessoa,
sem ao menos uma pequena transformação. Visitar
o Umbigo do Mundo é como aceitar um convite para romper
barreiras internas, ir além do nosso cotidiano racional
e criar oportunidades únicas para empreender mudanças
na alma. Como uma peregrinação, ir a Cuzco é
como acolher um chamado direto do coração, o
coração dos Andes.
Quase 30 anos depois da primeira visita, agradeço
essa cidade por ter me albergado durante mais de seis meses,
em muitas ocasiões. Gosto tanto de Cuzco que até
pensei em me tornar um residente oficial. Mas, pensando bem,
teria sido um erro trocar o encanto das visitas mágicas
pelas dificuldades do dia-a-dia de uma cidade de província
peruana. Prefiro continuar a degustar as maravilhas de Cuzco
como se estas fossem um raro licor, um néctar dos deuses,
a ser saboreado com requinte e moderação. “
O
Inti Raymi é um dos 150 Lances de Viologia que
constam do Teste de Vialogia Mundial.
Haroldo Castro, fundador do Clube
de Viajologia e vice-presidente de comunicação
da ONG Conservação Internacional, viaja como
fotojornalista e diretor de documentários e visitou
131 países. No Equador, ele acompanhou uma visita de
jornalistas à Reserva Ecológica dos Manguezais
Cayapas-Mataje.
CLUBE DE VIAJOLOGIA
Texto e fotos: Haroldo Castro
haroldo@viajologia.com.br
www.viajologia.com.br
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