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VIDA NO MANGUEZAL
No sentido horário, Marina, conchera
do Pampanal, passa várias horas por dia agachada,
buscando moluscos no manguezal; a criançada do
Pampanal; Alfonso Segura, vice-presidente do conselho
de Pampanal, explica aos visitantes a importância
do manguezal e as limitações do povoado. |
VIAJOLOGIA
EQUADOR
Jornalistas investigam como comunidades
costeiras protegem seus manguezais
Viajar é uma atividade prazerosa para muitos. Pode
ser por curtição, negócios e até
mesmo por profissão. Porém, para alguns, saber
mais sobre o que existe fora de sua cidade pode significar
um elemento vital para sua carreira.
Texto e fotos: Haroldo Castro
Foi o que aconteceu com 19 jornalistas durante uma
intensa viagem de quatro dias, quando juntos descobriram o
litoral do Pacífico equatoriano. A idéia era
simples, porém criativa: reunir colegas que cobrem
o meio ambiente na Colômbia e no Equador para conhecerem
um ecossistema tropical existente em ambos os países,
o Chocó. Uma boa maneira de comparar experiências
e confrontar realidades. Os colombianos encontraram seus parceiros
na capital Quito. Trocariam, em poucas horas, as terras frias
andinas por florestas quentes e úmidas. O ônibus
era pesado e longo, mas o motorista era suficientemente treinado
para negociar as curvas da estrada que baixava da Cordilheira
até San Lorenzo.
Pela janela, percebemos as imagens da destruição
dos diferentes pisos ecológicos. A 3.000 metros de
altitude, as encostas dos Andes e seus vales possuíam
muito pouco da vegetação original. Já
a 2.000 metros, as matas de neblina mostravam suas entranhas
detonadas. Na cota 1.000, o calor nos obrigou a abrir as janelas
e a respirar o doce cheiro da floresta tropical. Mas o desmatamento
revelava-se ainda mais feroz e audaz. Quando chegamos ao nível
do mar, a surpresa foi com o calibre do investimento na monocultura
da palma africana substituindo mata rica e virgem pelo dendê
e seu óleo milionário.
Durante seis horas, de Quito a San Lorenzo, constatamos com
nossos próprios olhos que todos ambientes, da Cordilheira
à costa, são saqueados sem piedade. Raras eram
as ilhas que se mantinham incólumes ao Homo destructibilis.
Essa verificação só poderia ser realizada
graças ao famoso “pé na estrada”.
Um repórter que não sai da redação
ou de seu Google jamais pode sentir, no coração
e na mente, o estado doentio no qual se encontra o planeta.
Em poucas horas, aquela viagem já abrira a cabeça
de muita gente.
Nosso destino era um porto no Pacífico, a menos de
20 quilômetros da vizinha Colômbia. Como todo
porto fronteiriço, San Lorenzo tem má fama:
violência, contrabando e narcotráfico. Mas os
sorrisos da população local, na sua maioria
composta de negros, só demonstravam jovialidade e descontração.
Não havia casa ou comércio que não irradiasse
uma boa música. Os jornalistas colombianos conferiam,
aliviados, que seu complicado país exporta mais salsa
do que guerrilha.
San Lorenzo está rodeada de manguezais. Tantos e tão
altos – podem chegar a 50 metros de altura – que
em 1996 o governo equatoriano decidiu criar a Reserva Ecológica
dos Manguezais Cayapas-Mataje, com uma área significativa
de 50 mil hectares. A reserva foi estabelecida para conter
os avanços das empresas de cria de camarões.
Um dos objetivos dos jornalistas era conhecer a opinião
dos moradores das ilhas dentro da reserva.
Depois de meia hora de lancha desde San Lorenzo, fomos recebidos
no vilarejo de Pampanal de Bolívar por Alfonso Segura,
vice-presidente do conselho local, um eloqüente pescador
de descendência africana. “Aqui nós nos
dedicamos à pesca artesanal e coleta de conchas”,
disse ele. “Quando uma empresa que produzia camarões
chegou a Pampanal – mesmo com uma concessão oficial
nas mãos – nós nos unimos para que eles
não construíssem suas camaroneras. Pedimos proteção
ao governo e apoiamos o estabelecimento da reserva”.
Alfonso explicou que antes da reserva, a comunidade usava
os recursos naturais de forma indiscriminada. “Agora
as pessoas pensam um pouco mais: apanham conchas com um tamanho
mínimo de 45 milímetros e pescam com redes de
malha mais grossa para evitar agarrar peixe pequeno. Assim,
essas atividades serão sustentáveis”,
afirmou.
Todos os 800 habitantes que vivem em Pampanal são de
origem africana. Seus ancestrais chegaram do Chocó
colombiano há um ou dois séculos, onde haviam
sido trazidos para trabalhar nas minas. Encontraram ilhas
no labirinto de mangues, montaram seus casebres e sobreviveram
– esquecidos por todos os governos. Na época
das eleições, um ou outro candidato se lembra
desse punhado de votos e aparece para oferecer promessas.
“Conseguimos energia elétrica e telefone público”,
ressaltou Alfonso. “Mas precisamos de água potável
e ainda necessitamos resolver como o povoado vai deixar de
afundar”. A cada tempestade que passa, Pampanal está
cada vez mais baixo e as casas de palafitas são inundadas
com maior freqüência.
Depois de uma inesperada entrevista coletiva no campo de futebol,
Alfonso fez questão de mostrar o povoado. Em cada casa
que passávamos, o cortejo aumentava. Crianças,
não habituadas a tantos visitantes, corriam atrás
da comitiva. Alfonso, um vivaz líder comunitário,
não deixou escapar a oportunidade – afinal ele
estava falando com jornalistas. “Temos 300 crianças
em Pampanal e muitas sem escola”.
A visita quase-que-oficial virou farra quando chegamos num
barraco que, à noite, se converte numa discoteca. Apesar
de o relógio marcar 11 horas da manhã, a criançada
invadiu o salão; duas jovens esbeltas ligaram o som
e uma tremenda salsa envolveu o ambiente. Colombianos e equatorianos,
jovens e maduros, da serra ou da costa, jornalistas e pescadores,
todos esqueceram suas tarefas para celebrar que estar vivo
é o mais belo presente.
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DESTRUIÇÃO
GALOPANTE
No sentido horário, grande parte da
cidade de San Lorenzo é composta por casas sobre
palafitas; manguezal e canoano porto de de San Lorenzo,
o desmatamento da região do Chocó equatoriano
é galopante. As toras são transportadas
pelo Rio Cayapas e depois de caminhão
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Deixamos Pampanal com lágrimas de alegria. Mas precisávamos
encontrar algum grupo de pescadores ou de coletores de conchas
para saber um pouco mais sobre as atividades que Alfonso insistia
que eram sustentáveis.
Lucho Suárez, diretor da ONG Conservação
Internacional no Equador e que acompanhava o grupo como biólogo,
enfatizou a importância dos manguezais como criadouro
de peixes, crustáceos, moluscos e outras espécies.
“Esses manguezais são verdadeiros berçários,
cumprem uma função biológica vital. Por
isso, nosso esforço em preservar essa área”.
Suárez dirigiu o estudo técnico que serviu como
base para a criação da reserva. “Algumas
empresas de Guayaquil pretendiam converter os manguezais em
grandes piscinas para criar camarões. Iriam destruir
a ‘galinha de ovos de ouro’, uma vez que os manguezais
são essenciais para as larvas do próprio camarão”.
Nossa lancha chegou em uma das ilhas e tentou se embrenhar
pelo meio das ramas tortuosas do manguezal. Quando a água
deu espaço ao lodo, todos os jornalistas, ávidos
por terra firme, pensaram que seria fácil vencer o
dédalo vegetal. Juan Carlos Gutiérrez, exímio
contador de histórias oriundo de Bucaramanga, foi o
primeiro a se aventurar. Queria ser o primeiro a chegar até
o grupo de catadores de conchas que estavam a 20 metros de
distância – quem sabe, talvez até mesmo
para uma entrevista exclusiva.
Juan Carlos saltou do barco, agarrou-se num pé de mangue
e começou a engatinhar pelos troncos úmidos
e desgastados pela maresia. Olhos cheios de dúvidas
acompanhavam seus movimentos. Colombiano da serra e não
da costa, ele não tardou dois minutos em pisar no tronco
errado, romper uma rama mais corroída e resvalar no
emaranhado de galhos. A cena de Juan Carlos esfolado e lambuzado
de lama e sangue (devido aos arranhões nas pernas e
braços), entrou para o diário de bordo.
Como não chegamos até os catadores de conchas,
resolvemos inverter o percurso. Clamamos por suas presenças
e, em segundos, eles surgiram saltitando.
Marina, 45 anos e mãe de nove filhos, é conchera.
Passa a maior parte de seu dia com pés e mãos
enterrados no lodo do manguezal, vasculhando as entranhas
da lama. Se ela encontrar cem conchas, sua diária é
de quatro dólares. “Apenas o suficiente para
alimentar meus filhos”, lamentou. “Quando retorno
para casa, todo meu corpo dói”.
Esperanza Páez, uma jornalista colombiana de Tunja,
não se conteve e perguntou se Marina, na hora do apuro,
não levava também alguma concha menor para casa.
A conchera respondeu categoricamente. “Nem pensar. Se
hoje já tem pouca concha, como será o amanhã
se não deixarmos essas conchas crescerem?”
Apesar da extrema pobreza na qual vivem os habitantes de Pampanal
– e de qualquer outro povoado no manguezal Cayapas-Mataje
– os jornalistas puderam ouvir de viva voz que a importância
de proteger os recursos naturais não é assunto
somente de biólogos. Quando a população
local tem um incentivo para conservar suas terras e suas águas,
ela grita, luta e vence.
Assim como não se pode fazer conservação
apenas desde um gabinete, também concluímos
que, para fazer bom jornalismo ambiental, é preciso
experimentar, ao vivo e a cores, as dificuldades e as soluções
encontradas por cada comunidade. E para isso, só tem
uma solução: pé na estrada.
Andasibe está situada a apenas 140 km da capital Antananarivo.
A estrada sinuosa, embora asfaltada, pode ser percorrida em
três horas. Quem quiser passar um ou dois dias na natureza
e observar espécies emblemáticas de Madagascar
não pode deixar de fazer esse desvio. Por sua fácil
localização, o parque recebeu 28 mil visitantes
em 2005 e, quando o secretário-geral da ONU, Kofi Annan,
visitou o país em março de 2006, seu roteiro
também incluiu Andasibe.
Foi exatamente por isso que decidimos que Andasibe seria
o destino dos cinco jornalistas africanos que haviam sido
convidados para um encontro de conservação em
Madagascar. Madrugamos, vimos o sol nascer já na estrada
e chegamos ao parque antes das nove. Nirina, sempre atencioso,
havia congregado sua trupe e todos estavam uniformizados e
enfileirados, à espera dos ilustres visitantes. Orgulhoso
de sua associação de 21 guias profissionais
e 15 estagiários, Nirina, em um excelente francês
e bom inglês, explicou aos jornalistas africanos a importância
do parque, as normas para a visita e algumas características
dos lêmures.
O mais famoso habitante dessa pequena reserva de 8 km2 é
o indri, o maior dos lêmures. É também
um dos mais fofos, pois seu focinho de cachorro e corpo gordinho
e peludo, preto-e-branco como um panda, faz com que todo visitante
se apaixone pelo primata. O indri, um parente distante dos
seres humanos, pesa apenas sete quilos, mas seu canto alto
e estridente pode assustar os desavisados.
Dividimos-nos em três pequenos grupos e escolhi seguir
Nirina. Como bom ariano, eu queria ser o primeiro a encontrar
uma das duas famílias habituadas aos visitantes e poder
fotografar algum animal. Nirina entendeu minha estratégia
e apressou o passo. Subimos a colina escolhida pelos indris
como morada e nosso guia afinou seus ouvidos e sua visão.
Não demorou nem 15 minutos e nosso guia sussurrou
a frase tão esperada: “Estão no alto daquela
árvore, comendo folhas.” Confortavelmente sentados
em forquilhas, quatro indris estavam degustando, com serenidade,
a primeira refeição do dia. Seus dedos, quase
humanos, agarravam pequenos galhos, envergando-os em direção
à boca.
Mas a foto almejada era impossível, pois os primatas
estavam distantes e, pior, na contraluz. “Vão
ficar no topo da árvore pelo menos 30 ou 40 minutos”,
avisou Nirina, perguntando-me sutilmente se eu estava disposto
a esperar que os animais mudassem de posição.
Respondi que ele deveria continuar a visita com nossos colegas
e que eu conhecia o caminho de volta à trilha principal.
Para desfrutar uma floresta é preciso estar sozinho
e em silêncio, sem movimentos. Com a saída de
meus colegas, passei a fazer parte da paisagem e escutar os
ruídos que até então eram abafados pelos
sons humanos. Ouvi os insetos, o vento nos galhos e até
mesmo os iIndris mordendo e mastigando as folhas. Com um olho
nos lêmures e outro no bosque que me abraçava,
os minutos de espera deixaram de ser um contratempo.
Minha meditação de olhos abertos foi interrompida
bruscamente por um grito agudo. Consegui identificar o indri
que “cantava” e, entre as folhas, perceber sua
boca aberta emitindo os sons em notas decrescentes. Um indri
vizinho respondeu com a mesma melodia em três partes,
que pode ter a duração de dez segundos. Esqueci
a máquina fotográfica e agucei os ouvidos. Um
terceiro animal entrou no concerto e, mais longe, um indri
de uma outra família também marcou sua localização.
Durante aquele minuto, o bosque de Andasibe se transformou
em um ambiente feérico. Todos os insetos e pássaros
se calaram para ouvir os cantos dos indris. Esta era minha
oitava visita a Andasibe, mas eu me sentia como uma criança
enfeitiçada por um novo brinquedo, curtindo-os como
se fosse a primeira vez que eles estivessem à minha
frente.
Finda a gritaria, o lêmure que estava mais alto mudou
de posição. Sem pressa ou ansiedade, ele desceu
até o tronco principal, se agarrou a ele com as duas
mãos e os dois pés e, usando a força
dos músculos de suas pernas, se projetou para o lado
em um enorme salto. Aterrissou perfeitamente em um outro tronco,
avistou uma outra árvore e deu um segundo pulo.
Tudo aconteceu muito rápido e não consegui
capturar a imagem que eu buscava. Porém, os outros
três lêmures ainda estavam na mesma árvore
e eu sabia que seguiriam o mesmo percurso escolhido pelo líder.
Eu só precisaria ser mais ligeiro no gatilho.
Dito e feito. Captei a imagem que eu buscava com o segundo
e o terceiro indri. Nirina apareceu quando o último
havia pulado, se enfronhando no mato. Feliz com as fotos,
dei atenção ao amigo. “Encontramos um
grupo de lêmures marrons na trilha principal e os jornalistas
estão entusiasmados. Venha com a gente”, contou
Nirina, me intimando a seguir seus passos.
O segredo para avistar e chegar bem pertinho dos lêmures
é que estes estejam habituados aos seres humanos. É
um trabalho lento, podendo demorar alguns anos até
que os animais deixem de se sentir ameaçados. Biólogos
e guias turísticos cumprem um papel fundamental nesse
processo de aproximação.
Embora o indri seja a estrela de Andasibe, existem na reserva
outras nove espécies de lêmures, cinco deles
noturnos. A 20 km dali, o Parque Nacional Matandia, com dimensões
bem maiores que Andasibe, alberga as mesmas dez espécies
e mais duas adicionais.
Os dois “novos” lêmures são uma
gracinha e Nirina não teve dificuldade para nos convencer
a visitar o parque Matandia no dia seguinte. Passamos a manhã
toda subindo e descendo trilhas para encontrar o Sifaka diademado
e o Varecia preto-e-branco. Mas a recompensa de vê-los
bem pertinho foi bem maior que o esforço realizado.
Infelizmente, em algumas regiões de Madagascar, os
lêmures ainda são caçados e podem virar
parte de uma refeição malgaxe. Em outros lados,
é a destruição do habitat que ameaça
a sobrevivência dos lêmures e de outras espécies
endêmicas. A Associação de Guias de Andasibe,
nesses quase 15 anos de atividade, transformou-se em um dos
bastiões para a conservação da natureza.
Os guias provaram para a comunidade que a biodiversidade pode
trazer mais recursos que um espaço adicional para agricultura.
O resultado em Andasibe é gratificante: as duas famílias
de indris que se deixam ver e fotografar são responsáveis
por uma receita de cerca de meio milhão de dólares
anuais em ecoturismo.
Os jornalistas africanos saíram de Andasibe felizes,
pois haviam conseguido observar diversas espécies de
lêmures. Eu tinha uma razão adicional para estar
contente: além de ter reencontrado Nirina, Maurice
e outros amigos, eu testemunhava que a associação
havia crescido, estava se profissionalizando e que a iniciativa
representava concretamente uma alternativa econômica
à destruição da natureza. Bedo não
chegou a ver essa conquista, mas, a cada ano que passa, sua
visão se torna cada vez mais realidade. “
O
Equador é um dos 222 países e territórios
que constam do Teste de Viajologia Mundial.
Haroldo Castro, fundador do Clube
de Viajologia e vice-presidente de comunicação
da ONG Conservação Internacional, viaja como
fotojornalista e diretor de documentários e visitou
131 países. No Equador, ele acompanhou uma visita de
jornalistas à Reserva Ecológica dos Manguezais
Cayapas-Mataje.
CLUBE DE VIAJOLOGIA
Texto e fotos: Haroldo Castro
haroldo@viajologia.com.br
www.viajologia.com.br
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