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REVISTA PLANETA
EDIÇÃO 409

 
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OUTUBRO /2006

VIDA NO MANGUEZAL
No sentido horário, Marina, conchera do Pampanal, passa várias horas por dia agachada, buscando moluscos no manguezal; a criançada do Pampanal; Alfonso Segura, vice-presidente do conselho de Pampanal, explica aos visitantes a importância do manguezal e as limitações do povoado.

 

VIAJOLOGIA
EQUADOR
Jornalistas investigam como comunidades costeiras protegem seus manguezais


Viajar é uma atividade prazerosa para muitos. Pode ser por curtição, negócios e até mesmo por profissão. Porém, para alguns, saber mais sobre o que existe fora de sua cidade pode significar um elemento vital para sua carreira.


Texto e fotos: Haroldo Castro

Foi o que aconteceu com 19 jornalistas durante uma intensa viagem de quatro dias, quando juntos descobriram o litoral do Pacífico equatoriano. A idéia era simples, porém criativa: reunir colegas que cobrem o meio ambiente na Colômbia e no Equador para conhecerem um ecossistema tropical existente em ambos os países, o Chocó. Uma boa maneira de comparar experiências e confrontar realidades. Os colombianos encontraram seus parceiros na capital Quito. Trocariam, em poucas horas, as terras frias andinas por florestas quentes e úmidas. O ônibus era pesado e longo, mas o motorista era suficientemente treinado para negociar as curvas da estrada que baixava da Cordilheira até San Lorenzo.

Pela janela, percebemos as imagens da destruição dos diferentes pisos ecológicos. A 3.000 metros de altitude, as encostas dos Andes e seus vales possuíam muito pouco da vegetação original. Já a 2.000 metros, as matas de neblina mostravam suas entranhas detonadas. Na cota 1.000, o calor nos obrigou a abrir as janelas e a respirar o doce cheiro da floresta tropical. Mas o desmatamento revelava-se ainda mais feroz e audaz. Quando chegamos ao nível do mar, a surpresa foi com o calibre do investimento na monocultura da palma africana substituindo mata rica e virgem pelo dendê e seu óleo milionário.

Durante seis horas, de Quito a San Lorenzo, constatamos com nossos próprios olhos que todos ambientes, da Cordilheira à costa, são saqueados sem piedade. Raras eram as ilhas que se mantinham incólumes ao Homo destructibilis. Essa verificação só poderia ser realizada graças ao famoso “pé na estrada”. Um repórter que não sai da redação ou de seu Google jamais pode sentir, no coração e na mente, o estado doentio no qual se encontra o planeta. Em poucas horas, aquela viagem já abrira a cabeça de muita gente.

Nosso destino era um porto no Pacífico, a menos de 20 quilômetros da vizinha Colômbia. Como todo porto fronteiriço, San Lorenzo tem má fama: violência, contrabando e narcotráfico. Mas os sorrisos da população local, na sua maioria composta de negros, só demonstravam jovialidade e descontração. Não havia casa ou comércio que não irradiasse uma boa música. Os jornalistas colombianos conferiam, aliviados, que seu complicado país exporta mais salsa do que guerrilha.
San Lorenzo está rodeada de manguezais. Tantos e tão altos – podem chegar a 50 metros de altura – que em 1996 o governo equatoriano decidiu criar a Reserva Ecológica dos Manguezais Cayapas-Mataje, com uma área significativa de 50 mil hectares. A reserva foi estabelecida para conter os avanços das empresas de cria de camarões. Um dos objetivos dos jornalistas era conhecer a opinião dos moradores das ilhas dentro da reserva.

Depois de meia hora de lancha desde San Lorenzo, fomos recebidos no vilarejo de Pampanal de Bolívar por Alfonso Segura, vice-presidente do conselho local, um eloqüente pescador de descendência africana. “Aqui nós nos dedicamos à pesca artesanal e coleta de conchas”, disse ele. “Quando uma empresa que produzia camarões chegou a Pampanal – mesmo com uma concessão oficial nas mãos – nós nos unimos para que eles não construíssem suas camaroneras. Pedimos proteção ao governo e apoiamos o estabelecimento da reserva”.

Alfonso explicou que antes da reserva, a comunidade usava os recursos naturais de forma indiscriminada. “Agora as pessoas pensam um pouco mais: apanham conchas com um tamanho mínimo de 45 milímetros e pescam com redes de malha mais grossa para evitar agarrar peixe pequeno. Assim, essas atividades serão sustentáveis”, afirmou.

Todos os 800 habitantes que vivem em Pampanal são de origem africana. Seus ancestrais chegaram do Chocó colombiano há um ou dois séculos, onde haviam sido trazidos para trabalhar nas minas. Encontraram ilhas no labirinto de mangues, montaram seus casebres e sobreviveram – esquecidos por todos os governos. Na época das eleições, um ou outro candidato se lembra desse punhado de votos e aparece para oferecer promessas.

“Conseguimos energia elétrica e telefone público”, ressaltou Alfonso. “Mas precisamos de água potável e ainda necessitamos resolver como o povoado vai deixar de afundar”. A cada tempestade que passa, Pampanal está cada vez mais baixo e as casas de palafitas são inundadas com maior freqüência.
Depois de uma inesperada entrevista coletiva no campo de futebol, Alfonso fez questão de mostrar o povoado. Em cada casa que passávamos, o cortejo aumentava. Crianças, não habituadas a tantos visitantes, corriam atrás da comitiva. Alfonso, um vivaz líder comunitário, não deixou escapar a oportunidade – afinal ele estava falando com jornalistas. “Temos 300 crianças em Pampanal e muitas sem escola”.
A visita quase-que-oficial virou farra quando chegamos num barraco que, à noite, se converte numa discoteca. Apesar de o relógio marcar 11 horas da manhã, a criançada invadiu o salão; duas jovens esbeltas ligaram o som e uma tremenda salsa envolveu o ambiente. Colombianos e equatorianos, jovens e maduros, da serra ou da costa, jornalistas e pescadores, todos esqueceram suas tarefas para celebrar que estar vivo é o mais belo presente.

DESTRUIÇÃO GALOPANTE
No sentido horário, grande parte da cidade de San Lorenzo é composta por casas sobre palafitas; manguezal e canoano porto de de San Lorenzo, o desmatamento da região do Chocó equatoriano é galopante. As toras são transportadas pelo Rio Cayapas e depois de caminhão

 

Deixamos Pampanal com lágrimas de alegria. Mas precisávamos encontrar algum grupo de pescadores ou de coletores de conchas para saber um pouco mais sobre as atividades que Alfonso insistia que eram sustentáveis.

Lucho Suárez, diretor da ONG Conservação Internacional no Equador e que acompanhava o grupo como biólogo, enfatizou a importância dos manguezais como criadouro de peixes, crustáceos, moluscos e outras espécies. “Esses manguezais são verdadeiros berçários, cumprem uma função biológica vital. Por isso, nosso esforço em preservar essa área”. Suárez dirigiu o estudo técnico que serviu como base para a criação da reserva. “Algumas empresas de Guayaquil pretendiam converter os manguezais em grandes piscinas para criar camarões. Iriam destruir a ‘galinha de ovos de ouro’, uma vez que os manguezais são essenciais para as larvas do próprio camarão”.

Nossa lancha chegou em uma das ilhas e tentou se embrenhar pelo meio das ramas tortuosas do manguezal. Quando a água deu espaço ao lodo, todos os jornalistas, ávidos por terra firme, pensaram que seria fácil vencer o dédalo vegetal. Juan Carlos Gutiérrez, exímio contador de histórias oriundo de Bucaramanga, foi o primeiro a se aventurar. Queria ser o primeiro a chegar até o grupo de catadores de conchas que estavam a 20 metros de distância – quem sabe, talvez até mesmo para uma entrevista exclusiva.

Juan Carlos saltou do barco, agarrou-se num pé de mangue e começou a engatinhar pelos troncos úmidos e desgastados pela maresia. Olhos cheios de dúvidas acompanhavam seus movimentos. Colombiano da serra e não da costa, ele não tardou dois minutos em pisar no tronco errado, romper uma rama mais corroída e resvalar no emaranhado de galhos. A cena de Juan Carlos esfolado e lambuzado de lama e sangue (devido aos arranhões nas pernas e braços), entrou para o diário de bordo.

Como não chegamos até os catadores de conchas, resolvemos inverter o percurso. Clamamos por suas presenças e, em segundos, eles surgiram saltitando.
Marina, 45 anos e mãe de nove filhos, é conchera. Passa a maior parte de seu dia com pés e mãos enterrados no lodo do manguezal, vasculhando as entranhas da lama. Se ela encontrar cem conchas, sua diária é de quatro dólares. “Apenas o suficiente para alimentar meus filhos”, lamentou. “Quando retorno para casa, todo meu corpo dói”.

Esperanza Páez, uma jornalista colombiana de Tunja, não se conteve e perguntou se Marina, na hora do apuro, não levava também alguma concha menor para casa. A conchera respondeu categoricamente. “Nem pensar. Se hoje já tem pouca concha, como será o amanhã se não deixarmos essas conchas crescerem?”
Apesar da extrema pobreza na qual vivem os habitantes de Pampanal – e de qualquer outro povoado no manguezal Cayapas-Mataje – os jornalistas puderam ouvir de viva voz que a importância de proteger os recursos naturais não é assunto somente de biólogos. Quando a população local tem um incentivo para conservar suas terras e suas águas, ela grita, luta e vence.

Assim como não se pode fazer conservação apenas desde um gabinete, também concluímos que, para fazer bom jornalismo ambiental, é preciso experimentar, ao vivo e a cores, as dificuldades e as soluções encontradas por cada comunidade. E para isso, só tem uma solução: pé na estrada.

Andasibe está situada a apenas 140 km da capital Antananarivo. A estrada sinuosa, embora asfaltada, pode ser percorrida em três horas. Quem quiser passar um ou dois dias na natureza e observar espécies emblemáticas de Madagascar não pode deixar de fazer esse desvio. Por sua fácil localização, o parque recebeu 28 mil visitantes em 2005 e, quando o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, visitou o país em março de 2006, seu roteiro também incluiu Andasibe.

Foi exatamente por isso que decidimos que Andasibe seria o destino dos cinco jornalistas africanos que haviam sido convidados para um encontro de conservação em Madagascar. Madrugamos, vimos o sol nascer já na estrada e chegamos ao parque antes das nove. Nirina, sempre atencioso, havia congregado sua trupe e todos estavam uniformizados e enfileirados, à espera dos ilustres visitantes. Orgulhoso de sua associação de 21 guias profissionais e 15 estagiários, Nirina, em um excelente francês e bom inglês, explicou aos jornalistas africanos a importância do parque, as normas para a visita e algumas características dos lêmures.

O mais famoso habitante dessa pequena reserva de 8 km2 é o indri, o maior dos lêmures. É também um dos mais fofos, pois seu focinho de cachorro e corpo gordinho e peludo, preto-e-branco como um panda, faz com que todo visitante se apaixone pelo primata. O indri, um parente distante dos seres humanos, pesa apenas sete quilos, mas seu canto alto e estridente pode assustar os desavisados.

Dividimos-nos em três pequenos grupos e escolhi seguir Nirina. Como bom ariano, eu queria ser o primeiro a encontrar uma das duas famílias habituadas aos visitantes e poder fotografar algum animal. Nirina entendeu minha estratégia e apressou o passo. Subimos a colina escolhida pelos indris como morada e nosso guia afinou seus ouvidos e sua visão.

Não demorou nem 15 minutos e nosso guia sussurrou a frase tão esperada: “Estão no alto daquela árvore, comendo folhas.” Confortavelmente sentados em forquilhas, quatro indris estavam degustando, com serenidade, a primeira refeição do dia. Seus dedos, quase humanos, agarravam pequenos galhos, envergando-os em direção à boca.

Mas a foto almejada era impossível, pois os primatas estavam distantes e, pior, na contraluz. “Vão ficar no topo da árvore pelo menos 30 ou 40 minutos”, avisou Nirina, perguntando-me sutilmente se eu estava disposto a esperar que os animais mudassem de posição. Respondi que ele deveria continuar a visita com nossos colegas e que eu conhecia o caminho de volta à trilha principal.
Para desfrutar uma floresta é preciso estar sozinho e em silêncio, sem movimentos. Com a saída de meus colegas, passei a fazer parte da paisagem e escutar os ruídos que até então eram abafados pelos sons humanos. Ouvi os insetos, o vento nos galhos e até mesmo os iIndris mordendo e mastigando as folhas. Com um olho nos lêmures e outro no bosque que me abraçava, os minutos de espera deixaram de ser um contratempo.

Minha meditação de olhos abertos foi interrompida bruscamente por um grito agudo. Consegui identificar o indri que “cantava” e, entre as folhas, perceber sua boca aberta emitindo os sons em notas decrescentes. Um indri vizinho respondeu com a mesma melodia em três partes, que pode ter a duração de dez segundos. Esqueci a máquina fotográfica e agucei os ouvidos. Um terceiro animal entrou no concerto e, mais longe, um indri de uma outra família também marcou sua localização.

Durante aquele minuto, o bosque de Andasibe se transformou em um ambiente feérico. Todos os insetos e pássaros se calaram para ouvir os cantos dos indris. Esta era minha oitava visita a Andasibe, mas eu me sentia como uma criança enfeitiçada por um novo brinquedo, curtindo-os como se fosse a primeira vez que eles estivessem à minha frente.

Finda a gritaria, o lêmure que estava mais alto mudou de posição. Sem pressa ou ansiedade, ele desceu até o tronco principal, se agarrou a ele com as duas mãos e os dois pés e, usando a força dos músculos de suas pernas, se projetou para o lado em um enorme salto. Aterrissou perfeitamente em um outro tronco, avistou uma outra árvore e deu um segundo pulo.

Tudo aconteceu muito rápido e não consegui capturar a imagem que eu buscava. Porém, os outros três lêmures ainda estavam na mesma árvore e eu sabia que seguiriam o mesmo percurso escolhido pelo líder. Eu só precisaria ser mais ligeiro no gatilho.

Dito e feito. Captei a imagem que eu buscava com o segundo e o terceiro indri. Nirina apareceu quando o último havia pulado, se enfronhando no mato. Feliz com as fotos, dei atenção ao amigo. “Encontramos um grupo de lêmures marrons na trilha principal e os jornalistas estão entusiasmados. Venha com a gente”, contou Nirina, me intimando a seguir seus passos.

O segredo para avistar e chegar bem pertinho dos lêmures é que estes estejam habituados aos seres humanos. É um trabalho lento, podendo demorar alguns anos até que os animais deixem de se sentir ameaçados. Biólogos e guias turísticos cumprem um papel fundamental nesse processo de aproximação.

Embora o indri seja a estrela de Andasibe, existem na reserva outras nove espécies de lêmures, cinco deles noturnos. A 20 km dali, o Parque Nacional Matandia, com dimensões bem maiores que Andasibe, alberga as mesmas dez espécies e mais duas adicionais.

Os dois “novos” lêmures são uma gracinha e Nirina não teve dificuldade para nos convencer a visitar o parque Matandia no dia seguinte. Passamos a manhã toda subindo e descendo trilhas para encontrar o Sifaka diademado e o Varecia preto-e-branco. Mas a recompensa de vê-los bem pertinho foi bem maior que o esforço realizado.

Infelizmente, em algumas regiões de Madagascar, os lêmures ainda são caçados e podem virar parte de uma refeição malgaxe. Em outros lados, é a destruição do habitat que ameaça a sobrevivência dos lêmures e de outras espécies endêmicas. A Associação de Guias de Andasibe, nesses quase 15 anos de atividade, transformou-se em um dos bastiões para a conservação da natureza. Os guias provaram para a comunidade que a biodiversidade pode trazer mais recursos que um espaço adicional para agricultura. O resultado em Andasibe é gratificante: as duas famílias de indris que se deixam ver e fotografar são responsáveis por uma receita de cerca de meio milhão de dólares anuais em ecoturismo.

Os jornalistas africanos saíram de Andasibe felizes, pois haviam conseguido observar diversas espécies de lêmures. Eu tinha uma razão adicional para estar contente: além de ter reencontrado Nirina, Maurice e outros amigos, eu testemunhava que a associação havia crescido, estava se profissionalizando e que a iniciativa representava concretamente uma alternativa econômica à destruição da natureza. Bedo não chegou a ver essa conquista, mas, a cada ano que passa, sua visão se torna cada vez mais realidade. “

O Equador é um dos 222 países e territórios
que constam do Teste de Viajologia Mundial.

Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia e vice-presidente de comunicação da ONG Conservação Internacional, viaja como fotojornalista e diretor de documentários e visitou 131 países. No Equador, ele acompanhou uma visita de jornalistas à Reserva Ecológica dos Manguezais Cayapas-Mataje.
CLUBE DE VIAJOLOGIA
Texto e fotos: Haroldo Castro
haroldo@viajologia.com.br
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