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Segredos da floresta: Lêmures
habituados à presença humana, como o varecia
preto-e-branco (Varecia variegata), são
a principal razão para que turistas visitem as
reservas naturais. Acima, à direira, o sifaka
diadema (Popithecus diadema), habitante do
Parque Nacional Matandia, é uma das 72 espécies
de lêmures encontradas em Madagascar; embaixo,
jornalistas africanos descobrem os segredos da floresta. |
VIAJOLOGIA
MADAGASCAR
Um grito de esperança para o indri
Uma associação de guias turísticos promove
a conservação de lêmures
Texto e fotos: Haroldo Castro
Bedo tinha muitas habilidades: era extrovertido
e habilidoso com os estrangeiros, aprendia idiomas com facilidade
e conhecia tudo sobre os lêmures de sua região.
Nos anos 80, qualquer visitante que chegasse à Reserva
Especial indri, em Andasibe, o procurava para que ele fosse
seu guia na floresta. Sempre encontrava os animais, mesmo
quando escondidos no meio do mato, e clamava por mais proteção
para a reserva.
A fama de Bedo – e seu sucesso financeiro, uma vez
que os estrangeiros pagavam bem por seu serviço –
lhe custou a vida. Em 1989, quatro habitantes de Andasibe
saíram embriagados do bar da estação
ferroviária e o encontraram sozinho. “Eles atacaram
meu irmão, pois tinham muita inveja dele”, conta
Maurice Ratsisakanana. “Bedo ficou desacordado com as
pancadas recebidas na cabeça e os bandidos jogaram
o seu corpo no rio.” O jovem guia, que tinha tudo para
sair da pobreza e ser um líder na sua comunidade, morreu
afogado.
Não cheguei a conhecê-lo – minha primeira
visita a Andasibe data de 1993 –, mas me encontrei muitas
vezes com três de seus irmãos, Maurice, Patrice
e Luc, e com sua irmã Marie. Juntos, visitamos seu
túmulo no meio da floresta e ouvi a história
do assassinato um par de ocasiões. Os irmãos
o consideram como um verdadeiro mártir da reserva de
Andasibe.
Foi dessa maneira trágica que a Associação
de Guias de Andasibe (AGA) teve origem em 1992. Os irmãos
de Bedo, Raymond Nirina, hoje presidente da AGA, e mais alguns
aliados decidiram que deveriam homenagear o trabalho do falecido
e criaram a organização. “Bedo foi –
e sempre será – quem nos inspirou a abraçar
a profissão de guia turístico. Seguimos até
hoje seu exemplo e sua visão”, declarou com emoção
Nirina.
Para quem quer entrar numa floresta totalmente desconhecida
para observar a fauna singular da reserva de Andasibe, um
guia turístico é mais importante que uma garrafa
de água mineral. As trilhas são ardilosas e
os animais sabem se camuflar. Ter um bom guia ao lado significa
descobrir alguns dos mistérios da floresta e observar
animais que poderiam passar totalmente despercebidos.
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Indri,
o "avô: À esquerda, um indri
(Indri indri), o maior dos lêmures existentes
hoje em Madagascar. Ele é chamado pelos malgaxes
de babakoto, ou "avô". À
direita, Raynond Nirina, presidente da Associação
de Guias de Andasibe, a qual cumpre um papel vital para
que as reservas e as espécies raras da região
continuem protegidas.
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Andasibe está situada a apenas 140 km da capital Antananarivo.
A estrada sinuosa, embora asfaltada, pode ser percorrida em
três horas. Quem quiser passar um ou dois dias na natureza
e observar espécies emblemáticas de Madagascar
não pode deixar de fazer esse desvio. Por sua fácil
localização, o parque recebeu 28 mil visitantes
em 2005 e, quando o secretário-geral da ONU, Kofi Annan,
visitou o país em março de 2006, seu roteiro
também incluiu Andasibe.
Foi exatamente por isso que decidimos que Andasibe seria
o destino dos cinco jornalistas africanos que haviam sido
convidados para um encontro de conservação em
Madagascar. Madrugamos, vimos o sol nascer já na estrada
e chegamos ao parque antes das nove. Nirina, sempre atencioso,
havia congregado sua trupe e todos estavam uniformizados e
enfileirados, à espera dos ilustres visitantes. Orgulhoso
de sua associação de 21 guias profissionais
e 15 estagiários, Nirina, em um excelente francês
e bom inglês, explicou aos jornalistas africanos a importância
do parque, as normas para a visita e algumas características
dos lêmures.
O mais famoso habitante dessa pequena reserva de 8 km2 é
o indri, o maior dos lêmures. É também
um dos mais fofos, pois seu focinho de cachorro e corpo gordinho
e peludo, preto-e-branco como um panda, faz com que todo visitante
se apaixone pelo primata. O indri, um parente distante dos
seres humanos, pesa apenas sete quilos, mas seu canto alto
e estridente pode assustar os desavisados.
Dividimos-nos em três pequenos grupos e escolhi seguir
Nirina. Como bom ariano, eu queria ser o primeiro a encontrar
uma das duas famílias habituadas aos visitantes e poder
fotografar algum animal. Nirina entendeu minha estratégia
e apressou o passo. Subimos a colina escolhida pelos indris
como morada e nosso guia afinou seus ouvidos e sua visão.
Não demorou nem 15 minutos e nosso guia sussurrou
a frase tão esperada: “Estão no alto daquela
árvore, comendo folhas.” Confortavelmente sentados
em forquilhas, quatro indris estavam degustando, com serenidade,
a primeira refeição do dia. Seus dedos, quase
humanos, agarravam pequenos galhos, envergando-os em direção
à boca.
Mas a foto almejada era impossível, pois os primatas
estavam distantes e, pior, na contraluz. “Vão
ficar no topo da árvore pelo menos 30 ou 40 minutos”,
avisou Nirina, perguntando-me sutilmente se eu estava disposto
a esperar que os animais mudassem de posição.
Respondi que ele deveria continuar a visita com nossos colegas
e que eu conhecia o caminho de volta à trilha principal.
Para desfrutar uma floresta é preciso estar sozinho
e em silêncio, sem movimentos. Com a saída de
meus colegas, passei a fazer parte da paisagem e escutar os
ruídos que até então eram abafados pelos
sons humanos. Ouvi os insetos, o vento nos galhos e até
mesmo os iIndris mordendo e mastigando as folhas. Com um olho
nos lêmures e outro no bosque que me abraçava,
os minutos de espera deixaram de ser um contratempo.
Minha meditação de olhos abertos foi interrompida
bruscamente por um grito agudo. Consegui identificar o indri
que “cantava” e, entre as folhas, perceber sua
boca aberta emitindo os sons em notas decrescentes. Um indri
vizinho respondeu com a mesma melodia em três partes,
que pode ter a duração de dez segundos. Esqueci
a máquina fotográfica e agucei os ouvidos. Um
terceiro animal entrou no concerto e, mais longe, um indri
de uma outra família também marcou sua localização.
Durante aquele minuto, o bosque de Andasibe se transformou
em um ambiente feérico. Todos os insetos e pássaros
se calaram para ouvir os cantos dos indris. Esta era minha
oitava visita a Andasibe, mas eu me sentia como uma criança
enfeitiçada por um novo brinquedo, curtindo-os como
se fosse a primeira vez que eles estivessem à minha
frente.
Finda a gritaria, o lêmure que estava mais alto mudou
de posição. Sem pressa ou ansiedade, ele desceu
até o tronco principal, se agarrou a ele com as duas
mãos e os dois pés e, usando a força
dos músculos de suas pernas, se projetou para o lado
em um enorme salto. Aterrissou perfeitamente em um outro tronco,
avistou uma outra árvore e deu um segundo pulo.
Tudo aconteceu muito rápido e não consegui
capturar a imagem que eu buscava. Porém, os outros
três lêmures ainda estavam na mesma árvore
e eu sabia que seguiriam o mesmo percurso escolhido pelo líder.
Eu só precisaria ser mais ligeiro no gatilho.
Dito e feito. Captei a imagem que eu buscava com o segundo
e o terceiro indri. Nirina apareceu quando o último
havia pulado, se enfronhando no mato. Feliz com as fotos,
dei atenção ao amigo. “Encontramos um
grupo de lêmures marrons na trilha principal e os jornalistas
estão entusiasmados. Venha com a gente”, contou
Nirina, me intimando a seguir seus passos.
O segredo para avistar e chegar bem pertinho dos lêmures
é que estes estejam habituados aos seres humanos. É
um trabalho lento, podendo demorar alguns anos até
que os animais deixem de se sentir ameaçados. Biólogos
e guias turísticos cumprem um papel fundamental nesse
processo de aproximação.
Embora o indri seja a estrela de Andasibe, existem na reserva
outras nove espécies de lêmures, cinco deles
noturnos. A 20 km dali, o Parque Nacional Matandia, com dimensões
bem maiores que Andasibe, alberga as mesmas dez espécies
e mais duas adicionais.
Os dois “novos” lêmures são uma
gracinha e Nirina não teve dificuldade para nos convencer
a visitar o parque Matandia no dia seguinte. Passamos a manhã
toda subindo e descendo trilhas para encontrar o Sifaka diademado
e o Varecia preto-e-branco. Mas a recompensa de vê-los
bem pertinho foi bem maior que o esforço realizado.
Infelizmente, em algumas regiões de Madagascar, os
lêmures ainda são caçados e podem virar
parte de uma refeição malgaxe. Em outros lados,
é a destruição do habitat que ameaça
a sobrevivência dos lêmures e de outras espécies
endêmicas. A Associação de Guias de Andasibe,
nesses quase 15 anos de atividade, transformou-se em um dos
bastiões para a conservação da natureza.
Os guias provaram para a comunidade que a biodiversidade pode
trazer mais recursos que um espaço adicional para agricultura.
O resultado em Andasibe é gratificante: as duas famílias
de indris que se deixam ver e fotografar são responsáveis
por uma receita de cerca de meio milhão de dólares
anuais em ecoturismo.
Os jornalistas africanos saíram de Andasibe felizes,
pois haviam conseguido observar diversas espécies de
lêmures. Eu tinha uma razão adicional para estar
contente: além de ter reencontrado Nirina, Maurice
e outros amigos, eu testemunhava que a associação
havia crescido, estava se profissionalizando e que a iniciativa
representava concretamente uma alternativa econômica
à destruição da natureza. Bedo não
chegou a ver essa conquista, mas, a cada ano que passa, sua
visão se torna cada vez mais realidade. “
Ouvir
o grito do Indri é um dos 150 Lances de Viajologia
que constam do Teste de Viajologia Mundial.
Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia
e vice-presidente de comunicação da ONG Conservação
Internacional, viaja como fotojornalista e diretor de documentários
e visitou 131 países. Durante essa 13a visita a Madagascar,
Haroldo levou a Andasibe jornalistas africanos que participavam
do Simpósio Global de Conservação, realizado
na capital.
CLUBE DE VIAJOLOGIA
Texto e fotos: Haroldo Castro
haroldo@viajologia.com.br
www.viajologia.com.br
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