haroldo
castro |
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Riquesa natural: A Bacia de Sovi (no
alto) é o ecossistema terrestre mais rico de
Fiki. Por ser de difícil acesso, a região
conseguiu se manter conservada. À esq., o taro,
parecido com nosso inhame, serve como base
da alimentação do fijiano. Suas folhas
(à dir.) também são comestíveis. |
VIAJOLOGIA
ILHAS
FIJI
A
praia teve de esperar.
Mas valeu a pena
Texto e fotos: Haroldo Castro
Quando confirmei minha viagem a Fiji, me imaginei
pisando naquele pedacinho de paraíso no meio do Pacífico.
Além de comemorar meu 131o país visitado, a
idéia de curtir aquelas praias de areia branca e de
água cristalina me fazia esquecer que eu precisaria
de 32 horas de aviões e aeroportos para chegar lá.
Mas eu estava pronto para esse “sacrifício”,
principalmente se minha recompensa fosse mergulhar nas águas
mornas que rodeiam o arquipélago.
Fiji é composto por mais de 300 ilhas e apenas um
terço delas são habitadas. O famoso meridiano
de mudança de data (180º) corta o arquipélago.
Para evitar uma grande confusão – imagine uma
ilha estar vivendo numa data e a outra vizinha estar ainda
no dia anterior –, a linha deu uma guinada para o leste
para acomodar todo o país. Fiji aproveitou sua geografia
e durante o frenesi da entrada do terceiro milênio se
autopromoveu como o primeiro país a ingressar no ano
2000.
Existem dois aeroportos internacionais na ilha principal
de Viti Levu. Os turistas chegam em Nadi, uma cidadezinha
situada na parte ocidental da ilha. De lá, os bem-aventurados
visitantes passam a alguma ilha paradisíaca.
Eu aterrissei na capital Suva, do outro lado de Viti Levu.
Suva não tem nada de turístico e, apesar de
estar na beira do mar, não seria ali que eu encontraria
minha praia do tipo cartão-postal. Todo o litoral perto
da capital é composto por mangues ou rochas. Mas, afinal,
eu não estava em Fiji de férias e a praia poderia
esperar.
O objetivo da viagem era participar de uma oficina de comunicação
ambiental e eu passaria os três dias seguintes em um
centro de treinamento à uma hora de Suva – bem
longe de qualquer praia – trabalhando com 25 fijianos.
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O
cavalo é um dos meios de transporte nas montanhas
de Sovi.
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Os dias foram intensos e nunca aprendi tanto, em tão
pouco tempo, sobre uma cultura e um lugar. O país é
composto por dois grandes grupos étnicos: os fijianos
– com a mesma origem melanésia que os habitantes
de Papua-Nova Guiné (Viajologia, PLANETA 400, janeiro/2006)
– e os indo-fijianos, que chegaram da Índia como
trabalhadores braçais há quatro gerações
e hoje perfazem 45% da população. A propriedade
rural é assunto sério em Fiji. O Conselho de
Terras Nativas é a única autarquia oficial encabeçada
pelo próprio presidente da república e o primeiro-ministro.
Cerca de 83% das terras pertencem às comunidades indígenas,
seguindo um complexo sistema tradicional de divisão
entre famílias e clãs. Ou seja, os indo-fijianos,
por mais ricos que possam ser, jamais terão grandes
extensões rurais, pois a propriedade comunitária
não pode ser vendida.
O tema fundiário foi um dos que mais me interessou,
pois é raro encontrar um sistema que defende as comunidades
tradicionais, dando-lhes poder sobre quase todo território.
Mas, se o Estado não é dono da terra, como fazer
para estabelecer um parque nacional ou uma reserva natural?
A resposta é simples: são os mataqalis (uma
espécie de conjunto de clãs proprietários
de uma determinada área) que devem decidir, com o aval
do Conselho de Terras Nativas.
Viti Levu possui 3.500 anos de história. Durante esse
período – e principalmente durante a colônia
inglesa, que durou 96 anos até 1970 – a ilha
fértil de solo vulcânico foi usada e abusada.
Apenas uma pequena parte da ilha ainda está coberta
pelas florestas originais. Todo o resto foi substituído
por pasto, cana-de-açúcar e até mesmo
por plantações de pinheiro e mogno. Por isso,
quando biólogos e conservacionistas “encontraram”
há algumas décadas uma área virgem nas
montanhas, o desafio passou a ser como evitar que essa região,
denominada Bacia de Sovi, tivesse o mesmo destino que o resto
da ilha.
“Você precisa visitar Sovi e a maneira mais rápida
é de helicóptero”, decidiu
Lemeki Lenoa, engenheiro florestal e diretor da ONG Conservação
Internacional
em Fiji. “Somente dessa maneira podemos compreender
por que essa região se manteve intacta.”
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Ilha parasidíaca: No alto, a
Ilha de Malamala, na Baía de Nadi, é um
bom exemplo de paraíso no Oceano Pacífico.
O vialrejo de Nadakuni (à esq.) situa-se a cinco
horas da entrada da Bacia de Sovi; quase metade da bacia
pertence a essa comunidade. A única maneira de
entrar na bacia é subindo o Rio Sovi. |
Adorei a idéia; quem não gosta de passear de
helicóptero? Uma vez concluída nossa oficina,
pegamos a estrada para Nadi, onde o helicóptero estava
baseado. Uma das descobertas durante o trajeto de Suva a Nadi
foi que Viti Levu é muito mais montanhoso do que eu
imaginava. Todo o interior da ilha é recoberto por
vales e picos.
Essas serras possuem um papel fundamental
no clima da ilha, pois as nuvens (que sempre vêm do
leste) esbarram nas montanhas e não chegam até
Nadi. Enquanto os turistas nas imediações de
Nadi curtem um belo sol, os capitalinos de Suva podem estar
debaixo de uma tremenda chuva. Essas mesmas nuvens também
são as responsáveis pelas florestas ricas e
resplandecentes que ainda existem nas montanhas.
Mas nuvem para piloto de helicóptero é sinônimo
de problema. Nem pensar em furar uma delas, principalmente
numa região montanhosa. Assim, nosso sobrevôo
foi adiado algumas vezes, pois o clima estava instável
e nublado. Finalmente, na véspera de minha partida
de Fiji, o céu amanheceu totalmente limpo. Era minha
última chance. Levantamos vôo e partimos em direção
ao maciço.
Lemeki decidiu que, para encontrar com facilidade a Bacia
de Sovi, deveríamos seguir o rio que nos levaria aos
vilarejos que estão perto da floresta. À medida
que nos aproximávamos do destino, as nuvens fechavam
nosso passo e nos obrigavam a dar grandes voltas. Após
considerar que poderíamos até mesmo ser obrigados
a dar uma frustrante meia-volta, uma brecha finalmente permitiu
uma investida mais ousada e avistamos Nadakuni.
Lemeki tinha me falado sobre a comunidade, um dos seis vilarejos
donos de Sovi. O mataqali de Waibasaga, baseado inteiramente
em Nadakuni, é aquele que possui a maior proporção
de terras. Cerca de 45% da Bacia de Sovi pertence a esse clã.
Nas discussões para estabelecer a reserva, o chefe
de Nadakuni, Ratu Masi Roraveli, sabia que estava com a faca
e a manteiga na mão. Ele negociou para o mataqali essa
mesma proporção do valor total do “aluguel”
das terras. Assim, uma vez assinado o contrato, Waibasaga
receberá por ano, durante os próximos 99 anos,
a quantia de 45 mil dólares Fiji (65 mil reais) que
deverão ser investidos em projetos sociais.
Logo após passarmos por Nadakuni, seguimos o Rio Sovi.
Do helicóptero – sem porta naturalmente –
podíamos observar como a água esverdeada do
rio era cristalina. O piloto apontou para uma enorme garganta
à nossa frente. Ali estava a explicação
geológica da conservação da área:
a dificuldade de acesso. Para entrar na Bacia de Sovi era
preciso cruzar essa garganta. De cima, como um pássaro,
parecia fácil. Mas Lemeki contou que o percurso de
Nadakuni até a entrada da bacia, que havia durado apenas
cinco minutos de helicóptero, levava pelo menos cinco
horas pela trilha da beira do rio.
Pedi que o piloto subisse um pouco mais para melhor compreender
a paisagem. De fato, só havia uma única entrada
para essa bacia circular de 20.700 hectares – cerca
de 200 km2 – semelhante a uma antiga cratera de um vulcão.
Toda a área estava rodeada por altas montanhas, que
protegiam o lugar. Não havia nenhuma manifestação
de impacto humano e toda a floresta era virgem.
Logo depois de sobrevoar a garganta de entrada a esse pequeno
Shangri-Lá, encontramos os dois riachos que formam
o Rio Sovi. Continuamos o sobrevôo evitando as nuvens
baixas e buscando as manchas de sol sobre a floresta para
um melhor efeito fotográfico. Com o sol nas nossas
costas e uma nuvem de chuva à frente, tivemos a sorte
de observar, por poucos segundos, um inesperado arco-íris
unindo o verde do mato e o branco das nuvens.
O piloto apontou para os instrumentos nos avisando que não
poderíamos nos demorar, pois já havíamos
ultrapassado a metade do tempo de vôo previsto. E precisávamos
de combustível para retornar a Nadi. Dobrei o número
de cliques fotográficos, aproveitando a proximidade
das montanhas. Passamos pela garganta novamente e deixamos
Sovi para trás.
Voltamos a sobrevoar plantações e pastagens.
Contrastando com o resto da vegetação de Fiji,
a Bacia de Sovi é a jóia natural de Viti Levu.
O verdadeiro paraíso terrestre não estava no
litoral, como eu pensara antes, mas sim nesse pedacinho de
floresta defendido por montanhas. Graças à parceria
criada por conservacionistas e comunidades tradicionais, sua
proteção estará assegurada durante todo
o século 21.
Essas eram minhas últimas horas em Fiji e eu já
sabia, nessa altura do dia, que não teria tempo de
conhecer nenhuma praia e muito menos colocar os pés
dentro d’água. Porém, o piloto, que já
havia tomado conhecimento da minha obsessão por conhecer
e fotografar praias deslumbrantes, resolveu me fazer uma surpresa
de última hora. A apenas quatro minutos do aeroporto
de Nadi, a minúscula ilha Malamala poderia servir como
uma bela amostra de paraíso costeiro. Antes de pousar,
o piloto deu uma volta completa sobre a ilha cercada por um
radiante anel de areia branca e corais. Era o típico
cartão-postal de Fiji!
No final do vôo Lemeki concluiu: “Agora você
tem uma boa razão para regressar
a Fiji.” Pensei, obviamente, que ele se referia às
“minhas” praias paradisíacas.
“Nada de praias”, esclareceu, “na sua próxima
visita iremos explorar a Bacia de Sovi... a pé”.
Fiji é um dos 222 países e territórios
que constam do Teste de Viajologia Mundial. (Sérvia
e Montenegro agora são dois países diferentes).
“
Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia
e vice-presidente de comunicação da ong Conservação
Internacional, viaja como fotojornalista e diretor de documentários.
Em Fiji, seu 131o país, ele visitou apenas a ilha Viti
Levu, mas promete retornar para ir à praia e mergulhar.
CLUBE DE VIAJOLOGIA
Texto e fotos: Haroldo Castro
haroldo@viajologia.com.br
www.viajologia.com.br
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