|
haroldo
castro |
 |
Russ Mittermeir segura um exemplar
da Conraua goliath. Desde menino, o ambientalista
sonhava em encontrar a maior rã do mundo no seu
habitat natural, na Guiné Equatorial. |
VIAJOLOGIA
GUINÉ
EQUATORIAL
Em busca da rã gigante
Uma
agitada jornada pelas
florestas africanas
Texto e fotos: Haroldo Castro
A Guiné Equatorial era uma das nações
mais pobres do mundo até 1996, quando grandes reservas
de petróleo foram descobertas. Com a chegada das multinacionais,
o país se transformou. No nosso vôo até
essa ex-colônia espanhola, os passageiros pareciam ser
engenheiros, técnicos ou consultores regressando ao
trabalho. Com uma taxa anual de crescimento de mais de 18%,
a terceira mais alta no mundo, a necessidade de mão-de-obra
especializada para construir uma nova nação
é crescente e quem se aventura a viver nessas terras
úmidas e quentes é recompensado com um alto
salário.
O país é pequeno – do tamanho do Estado
de Alagoas – e a capital Malabo não está
situada no continente africano, mas numa ilha, chamada Bioko.
Mais uma vez, eu viajava com Russ Mittermeier, presidente
da ONG Conservação Internacional. Nosso objetivo
não era descobrir nenhuma riqueza mineral no subsolo.
Queríamos observar e, se possível, fotografar
e filmar, a maior rã do mundo, a Conraua goliath. Desde
pequeno, quando havia visto essa enorme rã em um zoológico,
Russ alimentava o sonho de encontrar o animal em seu ambiente
natural: os rios turbulentos da Guiné Equatorial ou
do país vizinho, Camarões.
 |
Guias
locais e visitantes se preparam para uma excursão
|
| |
Para chegar ao parque nacional Monte Alen, onde poderíamos
encontrar a rã Golias, viajamos de Malabo para Bata,
no continente, e de lá pegamos a estrada. No caminho,
encontramos tartarugas, pássaros e pequenos roedores
– todos mortos e amarrados pelas pernas em uma vara
de bambu. Os animais eram oferecidos aos viajantes, interessados
em transformá-los em sua próxima refeição.
Infelizmente, na África central e ocidental, o consumo
de carne de animais selvagens – bushmeat – ainda
é uma prática comum, trazendo graves riscos
para a saúde. Por isso, qualquer bicho de duas ou quatro
patas, inclusive nossa rã, desaparece assustado ao
ouvir qualquer passo humano.
 |
Animais sacrificados: Pequenos roedores,
tartarugas e pássaros são capturados e
vendidos aos viajantes que desejam transformá-los
na refeição do dia. O consumo de carne
de animais selvagens é um risco para a saúde. |
Foi preciso cruzar uma concessão madeireira para chegar
ao parque Monte Alen. As tristes imagens de animais mortos
foram substituídas pelas longas toras de madeira tombadas,
à espera de um caminhão que as levasse ao porto.
De lá partiriam para a Europa, Índia ou China.
E a floresta tropical continua definhando.
Depois de uma hora de caminhada no mato, chegamos à
beira do Rio Wele. Do outro lado estava o parque nacional,
teoricamente uma área protegida. Para cruzar o rio,
precisávamos de uma canoa, mas a única encontrada
estava com as bordas carcomidas. O barqueiro retirou a água
de seu interior e chamou os passageiros. Quando os dois primeiros
entraram com sua bagagem, o nível da água ficou
a um dedo de entrar na canoa. Não havia outra solução:
apenas duas pessoas poderiam cruzar o rio de cada vez. Como
éramos 16 pessoas e o trajeto de ida e volta levava
uns 15 minutos, a operação demoraria duas horas.
Russ, com o pensamento fixo na rã e contrariado com
a demora, saiu na primeira canoa. Eu fui na segunda viagem,
com meu assistente local que carregava o equipamento. Com
receio de perder minutos preciosos, ele acabou seqüestrando
meu assistente, transformando-o em seu guia. “Vou na
frente”, disse ele desaparecendo na floresta.
O que Russ só viria a saber mais tarde é que
meu assistente era um péssimo guia e que, infelizmente,
tomariam a trilha errada. Embrenharam-se pelo caminho antigo:
mais curto, porém com muita vegetação.
E abriram passo a facão para chegar até a cachoeira
onde estariam as rãs.
Já era o final da tarde, quase sem luz do dia, quando
cheguei na cascata. Tive o tempo exato de colocar a câmera
no tripé e filmar alguns ângulos da queda d’água
durante 90 segundos, quando uma tremenda trovoada arrebentou
nossos tímpanos. Imediatamente, uma tempestade se derramou
sobre todos. Parecia que a cachoeira havia se deslocado e
agora estava caindo nas nossas cabeças. A pesada e
escura nuvem não somente trouxe chuva como também
escuridão.
Precavido, eu trazia uma lanterna no bolso. Andamos uns cem
metros e vi outras luzes à frente. Deveria ser o Russ
e o meu ex-guia. A tempestade não facilitava a visão
e, ao me aproximar, joguei, sem hesitar, o facho de luz na
cara de quem estava à minha frente. De fato, era o
Russ. Mas algo estava diferente em seu sorriso. Sim, faltava-lhe
alguma coisa.
“Viu o que aconteceu?” Russ perguntou-me sorrindo,
abrindo a boca como se estivesse no dentista. Imediatamente
vi que lhe faltava um dente, um dos incisivos. “Culpa
sua”, disse-me ele rindo. “Você fez alguma
macumba para mim só porque roubei o seu guia?”,
perguntou. Eu não sabia se caía na gargalhada
por ver o Russ de dente quebrado, ou se me preocupava pela
saúde dele. Preferi a segunda opção e
perguntei o que havia acontecido.
“Um minuto depois que eu roubei seu guia, já
caminhando na trilha, eu abaixei os olhos para buscar meu
bloquinho de notas para fazer uma anotação e...
um tronco apareceu na minha frente. Não tive tempo
de desviar e a pancada na testa foi forte. Aliás, tão
grande, que senti o dente pular fora. Mas consegui agarrá-lo
antes de cair no chão”, contou ele. “O
que você acha do meu novo sorriso?”
 |
Floresta do perigo: No alto. cachoeira
do Rio Wele. Abaixo, um caminhão leva madeira
até o porto, de onde será enviada para
a Europa, a Índia e a China. Graças a
isso, a floresta tropical da Guimé Equatorial
continua, dia após dia, diminuindo de tamanho
|
Como a chuva não amainava, achei melhor continuar
o papo em algum lugar mais seco e tomamos a trilha rumo a
um antigo acampamento do parque nacional. Chegamos a uma casa
de madeira abandonada, com inúmeras tábuas podres,
mas um teto com poucos furos. Encharcados, colocamos nosso
equipamento em lugar seguro e nos deparamos com uma nova surpresa.
Uma pessoa que não fazia parte de nossa equipe estava
cercada por nossos ajudantes.
“Este hombre estaba cazando dentro del parque nacional”,
gritou um dos guarda-parques em espanhol. “Quando chegamos,
ele estava
com um antílope e uma tartaruga dentro do seu cesto
de palha”, explicou-me um outro. Os animais ainda estavam
vivos, pois haviam sido capturados com armadilha.
O dia havia sido bastante intenso e eu precisava descarregar
meu estresse – o caçador acabou sendo minha vítima.
Esquecendo que eu não tinha a menor autoridade no país,
passei a discursar sobre o fato. Disse ao intruso que ele
não poderia invadir uma área protegida, que
o consumo de carne de animais selvagens não deveria
continuar dessa forma descarada e que o caçador não
poderia usar o acampamento do parque como lugar de descanso.
Mandamos o vilão embora, sob uma tremenda chuva, e
soltamos os animais.
Voltando nossa atenção às rãs
Golias, Russ pôde enfim me explicar que ele não
havia visto nenhuma rã na cachoeira. “Como o
animal é noturno, voltarei lá depois do jantar”,
decidiu. Depois de comer um pedaço de pão meio
molhado com queijo, ele saiu novamente em busca dos anfíbios.
Como ainda chovia bastante, eu apenas gritei: “Não
se esqueça de agarrar um desses sapos gigantes para
eu poder fotografar amanhã.”
Passaram-se duas horas e eu já estava dentro domeu
saco de dormir quando Russ regressou – com as mãos
vazias. Graças à sua lanterna, ele havia conseguido
ver umas dez rãs a uns 20 metros de distância,
perto da queda d’água. Porém, com exceção
de uma, todas estavam do outro lado do rio, ironicamente do
lado de fora do parque nacional. Ele chegou a se aproximar
da única que estava na mesma margem, mas esta deu um
enorme pulo quando os curiosos chegaram perto, jogando-se
nas águas do rio revolto. Nem pensar em fotografá-la,
muito menos em agarrá-la.
Russ voltou decepcionado porque as possibilidades de encontrar
uma rã na manhã seguinte seriam ainda menores.
Todo aquele esforço – e até mesmo um dente
perdido – para pouca recompensa. Ele estava contente
em ter visto a rã em seu habitat natural, mas não
havia conseguido fotografá-la nem segurá-la
em suas mãos. Frustrados, resolvemos tentar dormir.
Lá pelas duas horas da manhã ouvimos vozes.
Alguém havia chegado ao acampamento. Teria o caçador
regressado? Não, ele não teria coragem. Fui
ver o que estava acontecendo e descobri que o visitante estava
feliz, exibindo um sorriso de vencedor. Em uma de suas mãos
ele segurava uma rede de pescar, uma espécie de tarrafa.
A outra mão agarrava um saco e, pela forma, com alguma
coisa viva dentro.
Em poucos minutos elucidamos a equação. Nelson,
o visitante, vivia em um dos vilarejos perto da concessão
florestal, mas não havia podido viajar conosco. Ao
cair da noite, ele caminhou até o rio, cruzou-o com
uma pequena canoa que estava escondida e seguiu a trilha diretamente
até a cachoeira. Lá, no habitat da Golias, Nelson
demonstrou que era um bom pescador. Com sua tarrafa, conseguiu
capturar dois espécimes.
Na manhã seguinte, levamos as duas rãs de volta
à cachoeira. A maior delas pesava mais de dois quilos
e, esticada, media 60 centímetros. Era grande mesmo.
Fotografamos a rã gigante primeiro nas nossas mãos,
pois não sabíamos como seria a reação
dela ao ser liberada. Com cuidado, colocamos a rã em
uma pedra, nos afastamos lentamente e começamos a clicar.
Ela ficou imóvel por alguns segundos, mas, num piscar
de olhos, ela deu um tremendo salto, passando por cima de
nossas cabeças e mergulhando de volta no rio turbulento.
Missão cumprida.
Infelizmente, a rã Golias, além de ser consumida
localmente como bushmeat, também é procurada
por colecionadores e pode valer até três mil
dólares. O governo da Guiné Equatorial está
agora mais consciente da importância de conservar sua
biodiversidade e pretende investir 27 milhões de seus
petro-dólares em conservação. Brevemente,
o presidente deve anunciar o estabelecimento de uma nova reserva
de 500 mil hectares, fazendo com que 37% do território
nacional esteja protegido. Por isso, deve também tomar
medidas urgentes para que essa espécie singular não
desapareça do planeta. Afinal, essa rã alimentou
um sonho de um menino que veio a ser um dos maiores conservacionistas
do mundo. “
A Guiné Equatorial é
um dos 221 países e territórios que constam
do
Teste de Viajologia Mundial.
Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia, já
visitou 130 países como fotojornalista e diretor de
documentários. É o vice-presidente de comunicação
da ONG Conservação Internacional. Convidado
para participar do encontro de lideranças kayapós,
ele esteve nas aldeias Piaraçu (MT) e Kendjam (PA).
CLUBE DE VIAJOLOGIA
Texto e fotos: Haroldo Castro
haroldo@viajologia.com.br
www.viajologia.com.br
|