VIAJOLOGIA
KAYAPÓS
Guerreiros da Amazônia
A luta para manter sua cultura viva e suas terras sem invasores
| Haroldo Castro |
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Lideranças reunidas: À
esq., chefes e guerreiros durante o encontro de lideranças
kayapó. Todos eles apresentavam a parte superior
do rosto pintada de preto. Ao centro, um chefe de aldeia
kayapó; e à dir., uma adolescente da mesma
etnia na aldeia kedjan, no Pará |
Texto e fotos: Haroldo Castro
Depois de sobrevoar a Ilha do Bananal e o Rio Araguaia, entramos no espaço aéreo do Mato Grosso. As parcelas de desmatamento ganharam mais espaço e aumentaram de escala. Eram enormes polígonos de cor verde-clara, contrastando com o verde denso da floresta tropical. Essas bizarras formas geométricas continuavam avançando, carcomendo o que ainda sobra da Amazônia. Estradas de barro, vermelhas e retilíneas, emolduravam as áreas desmatadas.
Sobre as manchas verdes-claras vegetavam, quase imóveis, milhares de minúsculos pontos brancos. Lá de cima, pareciam vermes. Lá em baixo, bois e vacas cumpriam o papel de invasores que lentamente definham a Floresta Amazônica brasileira. (Alguém precisa de uma razão adicional para ser vegetariano?)
Somente quando se sobrevoa essa região com um monomotor, a uns seis mil pés de altitude, é que podemos entender a dimensão da destruição no Mato Grosso e no Pará. Quem vive nos grandes centros urbanos do Sul e Sudeste não consegue compreender a escala dessa calamidade. “Há 15 anos, quase todas essas florestas estavam em bom estado”, disse Russ Mittermeier, presidente da ONG Conservação Internacional, sem tirar os olhos da janela do avião. “O gado e as monoculturas são os maiores responsáveis pelo desmatamento da Amazônia. A floresta vai perdendo terreno a cada ano que passa.”
Avistamos o Rio Xingu e, como num passe de mágica, a floresta compacta apareceu. O Cessna deu a volta sobre uma aldeia indígena, fez uma curva fechada, tomou o rumo da pista e pousou.
Chegamos em Piaraçu, um conjunto de umas 20 casas na margem direita do Rio Xingu, entre o Parque Indígena Xingu e o Território Indígena Capoto-Jarina. Fomos conduzidos a uma casinha de madeira, apenas para deixar nossas bagagens. Seguimos nosso anfitrião e, como se entrássemos em um túnel do tempo e do espaço, caímos em um cenário surpreendente.
Embaixo de uma longa oca, estavam reunidos, sentados no chão coberto de palha, cerca de 200 caciques e guerreiros da etnia kayapó – ou mebêngokrê, como se autodenominam. Todos tinham a parte superior do rosto, do nariz até a testa, pintada de negro, como se fosse uma máscara. Metade dos indígenas levava cocares resplandecentes; vários traziam nas mãos uma borduna ou um conjunto de flechas. Pareciam estar prontos para uma luta.
Sob a pintura de guerra, reconheci alguns índios legendários, como Raoni, Payakã e Megaron – este último, o coordenador da reunião. Também havia brancos de renome: Sydney Possuelo, um dos últimos sertanistas brasileiros e ex-presidente da Funai, e Terry Turner, um antropólogo norte-americano que trabalha há 42 anos com os kayapós. Russ Mittermeier e uma pequena equipe da CI juntaram-se a eles.
O encontro era histórico: pela primeira vez, as principais lideranças kayapós, representando 19 aldeias, estavam reunidas sob um mesmo teto de palha. Para que essa sexta reunião pudesse acontecer, com um número de participantes dez vezes maior do que a primeira, ocorrida em 2001, uma dezena de aviões e uma enxurrada de ônibus, vans e caminhonetes tomaram o rumo de Piaraçu. “Megaron me convenceu de que havia chegado o momento de congregar, em um só lugar, representantes de todas as aldeias kayapós e por isso apoiamos a logística da reunião”, confirmou Barbara Zimmerman, bióloga que lidera um projeto da CI com os kayapós desde 1992. “Promover a realização desse encontro, com a Funai, significa fortalecer a etnia kayapó.”
Durante os quatro primeiros dias da reunião, as duas centenas de guerreiros conversaram demoradamente sobre a situação de sua gente e de suas terras. Os caciques discorreram sobre os projetos de cada aldeia e discutiram sobre os desafios que eles vislumbram pela frente. Para os kayapós, a maior dificuldade é essa relação confusa com a sociedade branca – sempre de olho nas suas terras –, assim como a constante ameaça de que grileiros invadam seus territórios.
“Os kayapós são senhoriais, guerreiros e orgulhosos de sua raça. Mantiveram suas tradições e seu idioma. Talvez por serem um povo tão lutador, eles conseguiram também a demarcação de um enorme território”, relatou Sydney Possuelo, que conviveu com os kayapós por várias décadas. De fato, no norte do Mato Grosso e no sul do Pará, existem cinco territórios kayapós: Baú, Menkranoti, Kayapó, Badjonkore e Capoto-Jarina. Considerando uma outra área indígena contígua, a dos panarás – uma etnia que se juntou à luta dos kayapós e fala um idioma similar –, esses seis territórios demarcados englobam 11,5 milhões de hectares, ou seja, uma área do tamanho dos Estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Alagoas, juntos. Cerca de sete mil indígenas habitam a reserva.
“Fiscalizar esse gigantesco patrimônio é uma tarefa difícil e custosa, porém, extremamente necessária se quisermos que esse pedaço de Floresta Amazônica não se transforme em puro pasto”, concluiu Russ Mittermeier. “Os kayapós são os guardiões naturais dessa região e por isso a CI apóia a fiscalização realizada pelas aldeias, fornecendo barcos, motores de popa, gasolina e equipamentos de comunicação.” As aldeias que estão na fronteira criaram postos de guarda e hoje existem mais de 60 pontos de fiscalização.
| Haroldo Castro |
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Rosto de vitória: Acima, a coloração
vermelha do urucum, que simboliza a vitória,
substituiu, no último dia do encontro, a pintura
negra de guerra, como a exibida pelo chefe kayapó
à esq. Abaixo, vista aérea da aldeia Pykany
próxima de kedjan |
“Nós não deixa madeireiro entrar nas nossas terras. Nem garimpeiro, fazendeiro, posseiro e caçador”, clamou Raoni, um chefe indígena que foi manchete de jornais em 1989, quando divulgou mundialmente a luta indígena, com o apoio do cantor Sting. Com mais de 70 anos de idade e usando um largo botoque, um disco de madeira em seu lábio inferior, o chefe demonstrava vitalidade e autoridade. Durante a reunião, quando ele se levantava para falar, todos, sem exceção, o escutavam atentamente. E a mensagem de Raoni era clara: nada de negociatas com os brancos.
Os kayapós já passaram pelo seu inferno consumista. Nos anos 80 e 90, muitas aldeias abriram seus territórios aos madeireiros de exportação. Estes entravam na mata, marcavam as toras maduras de mogno, derrubavam a árvore, retiravam a madeira e enviavam as tábuas preciosas para a Europa e os Estados Unidos. Devido ao alto preço dessa madeira, sobrava dinheiro até para os índios. Mas os kayapós pagaram caro por essas transações e quase perderam o rumo. Em 2001, a exportação de mogno foi definitivamente proibida pelo governo brasileiro e os kayapós se livraram dessa tentação.
Paulinho Payakã foi um dos que conheceram bem esses altos e baixos de se relacionar com a sociedade branca. Na semana da Rio-92, ele saiu na capa da Veja, foi chamado de “selvagem” e sentiu na pele o que era mexer com os poderosos do outro time. Quatorze anos depois, ele ainda está proibido de sair de seu território indígena. Quase cinquentão, de cabelos ralos e grisalhos, Payakã tornou-se mais sábio. “A reunião aqui em Piaraçu mostrou que todos nós, mebêngokrês, estamos mais unidos do que nunca. Somos um povo forte e as novas gerações continuarão a nossa luta”, disse ele, dominando perfeitamente o português.
Durante o intervalo entre as reuniões, percebi que Payakã estava geralmente conversando com jovens caciques. As velhas lideranças sabem que devem passar o bastão, mais cedo ou mais tarde, aos futuros chefes. Payakã me apresentou a Takakire, de 32 anos e chefe de posto da Funai na aldeia Pykany, às margens do Rio Iriri, no Pará. Takakire me contou que aprendeu tudo com seu pai e teve de passar pela prova ritual de “bater em casa de maribondo”. “Para ser um líder, tem que ser calmo, ser honesto e ser um homem de palavra. Nossa força é manter nossa tradição, nosso conhecimento. Sangue kayapó é puro, como se fosse um rio só.”
Na tarde do quinto e último dia do encontro, duas cuias com pasta de urucum entraram na longa oca. Dedos hábeis levaram a pintura vermelha ao rosto de todos os índios, desenhando traços retilíneos ou colorindo a parte inferior da face, que rodeia a boca. Se a cor negra simboliza a guerra, o vermelho representa a vitória. Megaron me explicou a razão do rito: “Recebemos a notícia de que a obra da represa Belo Monte, que teria um impacto em nossas terras, teve seu licenciamento ambiental suspenso pela justiça federal. Para nós, é uma vitória.”
Depois de lida a notícia e traduzida em idioma kayapó, os índios se levantaram e correram para o centro da aldeia. Formaram-se em linha, cada uma com dez, 12 guerreiros lado a lado. Entoando cânticos tradicionais e marcando o passo com a batida de seus pés, os guerreiros partiram para dar duas longas voltas na aldeia. A voz dos 200 guerreiros era forte e soava como um trovão.
Não parei de filmar a cena, mas confesso que fiquei emocionado com a energia criada por esses titãs da Floresta Amazônica. Espero que o projeto da usina hidrelétrica Belo Monte no Rio Xingu, reencarnação do projeto Kararaô, derrubado em 1989, seja definitivamente arquivado. Brigar com os kayapós é um grande equívoco. Pior do que mexer em ninho de marimbondo. Principalmente agora que esses guerreiros estão, mais que nunca, unidos e preparados para defender seus direitos.
Conhecer a floresta da Amazônia e conviver com uma tribo indígena são dois dos 150 Lances de Viajologia que constam do Teste de Viajologia Mundial.
Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia, já
visitou 130 países como fotojornalista e diretor de
documentários. É o vice-presidente de comunicação
da ONG Conservação Internacional. Convidado
para participar do encontro de lideranças kayapós,
ele esteve nas aldeias Piaraçu (MT) e Kendjam (PA).
CLUBE DE VIAJOLOGIA
Texto e fotos: Haroldo Castro
haroldo@viajologia.com.br
www.viajologia.com.br
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