VIAJOLOGIA
A maior flor do mundo está em Bornéu
E, de quebra, encontro com orangotangos e macacos-narigudos
| Haroldo Castro |
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Floração
o ano todo: A probabilidade de encontrar uma
raflésia florida em Gunung Gadin é de
50%. Não existe uma época fixa de floração
e, em qualquer mês do ano, pelo menos uma flor
pode ser descoberta Na foto, Andrea Margit, da Conservação
Internacional, ao lado de uma raflésia |
Por Haroldo Castro
Nomes como Bornéu e Sarawak fazem qualquer
aprendiz de aventureiro sonhar. Soam como selvas impenetráveis,
habitadas por caçadores de cabeças e animais
estranhos. Mas, no século 21, nem a terceira maior
ilha do mundo (Bornéu) escapa dos contrastes da nossa
civilização.
Eu jamais poderia esperar que Kuching, a capital
de Sarawak, o maior Estado da Malásia, abrigasse
tantos prédios modernos, museus e... estátuas
de
gatos. A explicação dos felinos gigantes me
foi rapidamente dada: “Kuching em malaio significa ‘gato’
e por isso temos todos esses monumentos coloridos”,
me disse Sally Sheriza.
Sally Sheriza e Elaine Tan trabalham na Sarawak Forestry, uma empresa de propriedade do governo estadual que cuida tanto da comercialização da madeira (a principal receita de Sarawak) como dos parques nacionais e de sua biodiversidade. Com elas, fui visitar a reserva natural Semenggoh, um centro de reabilitação de orangotangos, que está a 24 km de carro de Kuching.
Durante o trajeto, elas me explicaram como a corporação opera, buscando realizar o sonho – na minha opinião, quase utópico – de explorar florestas tropicais de forma sustentável. A conversa foi animada, mas no final continuei achando que existe um tremendo conflito de interesses na empresa, pois conservação da biodiversidade não combina com extração madeireira.
Chegamos na reserva bem antes do lanche vespertino. Duas
vezes ao dia,
alguns dos 22 orangotangos que vivem soltos ali podem degustar
batata-doce,
cana-de-açúcar ou banana, oferecidas pelos guarda-parques.
“Quando existe
muita fruta na floresta, é raro que eles busquem alimentos
conosco”, explicou
Jen Sangel, gerente do parque.
Os orangotangos – em malaio, orang-utan significa
“pessoa da floresta”
– vivem, de fato, no topo das árvores. Toda noite
constroem um ninho com
galhos entrelaçados e preparam uma plataforma onde
podem descansar.
Há milhares de anos, esses animais povoavam a Ásia.
Hoje, devido à destruição
de seu habitat, eles estão ameaçados
de extinção e são encontrados apenas
nas ilhas de Bornéu e Sumatra.
Apesar de estarmos na época das frutas selvagens, seis orangotangos apareceram para a boca-livre. Três fêmeas e seus filhotes encontraram galhos a dez metros de altura e aguardaram os guarda-parques lançarem uma batata-doce para cada. Enquanto as mães comiam o tubérculo com tranqüilidade, confortavelmente sentadas sobre uma forquilha, os jovens aprendiam a saltar de galho em galho. Os visitantes apreciavam o espetáculo natural, boquiabertos com o comportamento quase humano de um de nossos parentes mais próximos.
A segunda reserva que visitamos é uma jóia à beira do mar. Bako, a uma hora de carro e 30 minutos de lancha de Kuching, foi o primeiro parque nacional a ser criado em Sarawak, há quase 50 anos. Como está na ponta de uma península e não possui acesso rodoviário, Bako se protegeu naturalmente e virou uma atração para os estrangeiros. Mais de 70% dos 25 mil visitantes anuais vêm de fora para conhecer suas praias, trilhas e vida selvagem. “Temos muitos manguezais e conseguimos manter uma população saudável de proboscis, o macaco-narigudo”, explicou Saili Aban, gerente do parque.
Endêmico à ilha de Bornéu, o macaco-narigudo é um dos primatas mais espetaculares do planeta. No final da tarde, encontramos um bando de 40 deles deliciando-se com as folhas tenras do mangue. Além do avantajado nariz avermelhado, o que mais me impressionou foi a musculatura de suas pernas. No manguezal, mostraram-se exímios acrobatas, conseguindo pular de uma árvore a outra com admirável destreza, além de serem excelentes nadadores. Poderiam também ser chamados de barrigudos, pois a pança deles é colossal, uma necessidade para poder digerir uma grande quantidade de folhas e sementes. São campeões em peidos. “Não podem comer frutas maduras e morrem quando ingerem qualquer tipo de açúcar”, esclareceu Aban.
O último parque a ser visitado em Sarawak foi Gunung Gading, um dos poucos lugares onde pode ser encontrada a rafflesia, a maior flor do mundo. Das 18 espécies diferentes dessa planta parasítica, oito podem ser encontradas em Bornéu, as outras na península da Malásia, em Sumatra e nas Filipinas.
Durante os últimos 12 meses, apenas 37 flores, sempre da mesma espécie – Rafflesia tuan-mudae –, haviam sido encontradas em Gunung Gading. A equipe do parque percorre diariamente as trilhas em busca dessa preciosidade que atrai tanto botânicos como turistas. Podem achar até seis flores em um mesmo mês, mas já fazia 29 dias que ninguém havia descoberto nenhuma rafflesia florida.
Foi Oswald Braken, um dos responsáveis pela conservação da biodiversidade de Sarawak, quem me deu a boa notícia. “Acabo de receber uma mensagem no celular dizendo que acharam hoje de manhã uma rafflesia que não estava nas trilhas usuais. Partiremos amanhã cedo para o parque.”
| Haroldo Castro |
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Biodiversidade rara:
Na página ao lado, uma fêmea de orangotango
na reserva natural Semenggoh. Em seguida, duas tomadas
de Bako, um parque nacional. No mesmo parque, um macaco-narigudo
sobre uma árvores e uma variedade de nepentes
(planta carnívora) |
Logo que chegamos na sede, o grupo saiu ansioso para ver
a rafflesia.
Mas Braken queria que o prazer da busca se prolongasse um
pouco mais e resolveu fazer um desvio, barranco acima, para
mostrar os restos mortais da última flor. O biólogo
explicou como a planta, que não tem folhas, tira seu
sustento de uma trepadeira. “A flor também emana
um forte cheiro de carne podre, o qual atrai insetos que servem
de alimento”, relatou Braken, aproximando das nossas
narinas o que sobrava da flor.
Caminhamos mais uma meia hora mato adentro, todos encharcados
de suor. Finalmente, as cinco pétalas gigantes apareceram.
Sua cor alaranjada contrastava com o verde da floresta e o
marrom das folhas secas. Braken tirou a fita métrica
do bolso e declarou: “Cinqüenta e oito centímetros,
tamanho médio. A maior
que encontramos até agora media 99 cm. E são
pesadas: essa flor deve ter
uns cinco ou seis quilos.”
A rafflesia é totalmente protegida em Sarawak e sua flor leva nove meses para se desenvolver, consumindo um tremendo esforço para alcançar esse tamanho. “O mesmo tempo que uma gestação humana, mas o resultado”, disse Braken, apontando para a flor, “é maior e mais pesado do que um bebê”. Sua vida, entretanto, é bem mais curta que a nossa: a rafflesia vive apenas seis dias.
Observar a raflésia na Indonésia ou Malásia é um dos 150 Lances de Viajologia, na categoria “Natureza”.
Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia e vice-presidente de comunicação da ONG Conservação Internacional, viajou à Malásia para participar da Cúpula Internacional de Mídia e Meio Ambiente. Ele visitou 129 países, como fotógrafo, jornalista e diretor de documentários.
CLUBE DE VIAJOLOGIA
Texto e fotos: Haroldo Castro
haroldo@viajologia.com.br
www.viajologia.com.br
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