MONTE
SAINT-MICHEL
O rochedo do arcanjo
No litoral norte da França, entre a Normandia e a Bretanha,
um monte desafia os ventos e as tempestades e, quando a maré
sobe e o cerca, ele se torna uma ilha. No seu topo, antes
do ano 1.000, surgiu um templo dedicado ao Arcanjo Miguel.
Meta de peregrinos religiosos, durante séculos esse
monte é hoje o mais impressionante mosteiro do Ocidente
e um dos mais procurados destinos do turismo mundial. Mas
isso não destruiu o encanto mágico que o lugar
desperta. Em 1979, a Unesco inseriu o Monte Saint-Michel no
rol do Patrimônio Cultural da Humanidade
Por Luis Pellegrini
Fotos: Lamberto Scipioni
Desde os tempos pagãos mais remotos, a ilhota montanhosa onde hoje se eleva o mosteiro de Saint-Michel, bem como toda a região que a circunda, era considerada território sagrado pelos antigos celtas. Inúmeros menires e dolmens de pedra de grandes dimensões até hoje podem ser vistos, fincados no solo daquelas terras. Ao redor do século 8, o cristianismo se instalou no topo do monte, com a construção de uma primeira cripta, feita de blocos de granito superpostos. Desde então, a história do Monte Saint-Michel tem sido uma sucessão de períodos de grande brilho intelectual e religioso, de crises internas, de guerras, de demolições e reconstruções do imenso complexo de edifícios que constituem a abadia e o mosteiro.
| Lamberto Scipioni |
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Uma longa passarela: A aldeia medieval existente
na base do Monte Saint-Michel é um primor da
arquitetura medieval do norte da França. Ao redor
de boa parte da ilha existe uma muralha encimada por
uma longa passarela da qual o visitante descortina extraordinários
panoramas da baía. As ruas da aldeia são
estreitas, cheias de lojas de suvenires para os turistas,
restaurantes e hotéis das mais diferentes categorias.
Na Idade Média, o Monte Saint-Michel era uma
das metas de peregrinação mais procuradas
pelos católicos
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Naquele período da Idade Média, o culto a São Miguel começava a se propagar em toda a Europa. Acreditava-se que os lugares mais altos, como o cimo das montanhas, lhe pertenciam. Sob a inspiração de Saint-Aubert, bispo de Abranches, 12 monges se instalaram na cripta: salmos, devoções coletivas e mortificações marcavam o seu cotidiano. Foi o que bastou para que um mundo de lendas e histórias milagrosas – algumas falsas, outras verdadeiras – se formasse ao redor do Monte Saint-Michel. Muitas foram transformadas em crônicas e relatos pelos próprios monges.
Os beneditinos assumiriam o lugar
em 966. A área do mosteiro aumentou consideravelmente,
graças às contribuições financeiras
de grãos-senhores da Normandia, da Bretanha, da Itália
e da Inglaterra. Além das atividades devocionais, os
monges passaram também a estudar, copiar e “iluminar”
manuscritos, transformando-os em preciosas obras de arte:
as iluminuras. Diferente do que aconteceu depois, quando a
Igreja passou a proibir a abordagem de uma série de
temas, naqueles tempos medievais os religiosos podiam estudar
e se interessar por quase tudo: literatura, história,
ciência, filosofia. Em Saint-Michel foram copiados,
por exemplo, os famosos tratados de Aristóteles.
| Lamberto Scipioni i |
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| Perfeição
arquitetônica: À esquerda, o salão
principal do refeitório do mosteiro. Nele, antes
de depois das refeições, eram realizadas
sessões de leitura de textos sagrados. O conjunto
do refeitório, abadia e claustro ficaram conhecidos
pela alcunha de “A Maravilha”, pela sua perfeição
arquitetônica. À direita, o menir pré-histórico
de Dol, nas proximidades do Monte Saint-Michel. Na Antiguidade,
toda a região era considerada solo sagrado para
os celtas |
Como em todos os outros grandes sítios do catolicismo, a arquitetura grandiosa tinha a finalidade de agradar a Deus, aos sacerdotes e aos peregrinos. Desde o início, o santuário de Saint-Michel atraiu centenas de milhares de devotos. Com suas ofertas, eles contribuíram para a prosperidade do vilarejo e da comunidade monástica. Até o final do século 18, o Monte Saint-Michel fez parte de uma poderosa cadeia de metas maiores de peregrinação, em pé de igualdade com Roma, Jerusalém e Santiago de Compostela.
| Lamberto
Scipioni i |
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| Subida
ao céu: Ao
redor do Monte Saint-Michel, várias escadarias
conduzem ao mosteiro e à abadia. Não importa
qual seja o percurso, a vista que se descortina é
sempre extraordinária. Sem falar nas construções
em pedras, características da arquitetura do
lugar, quase todas de época medieval. Como a
terra é pouca, os moradores aproveitam o espaço
para fazerem jardins |
A fama de lugar milagroso, depositário de inúmeras
relíquias de santos, atrai milhares de peregrinos em
busca da salvação e de milagres. Mas nem só
de milagres é feita a história do lugar. Ela
está repleta de relatos de acidentes e catástrofes.
Só em 1318, 13 peregrinos morreram pisados pela multidão,
18 se afogaram no mar e 12 desapareceram nos bancos de areias
movediças que surgem quando a maré é
baixa e permite a travessia a pé do continente até
a ilha. No ano 922 um incêndio destruiu boa parte da
aldeia e do mosteiro.
Em 1103, uma grande porção da nave central
da abadia desabou. Em 1203, novo incêndio arrasou o
mosteiro: sua reconstrução faria surgir uma
estrutura arquitetônica de inspiração
gótica cuja extraordinária beleza a tornou conhecida
como “A Maravilha”.
| Lamberto
Scipioni |
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Dois milhões
de visitantes:
A proclamação pela Unesco do Monte Saint-Michel
como Patrimônio Cultural da Humanidade, em 1979,
incrementou de forma extraordinária o número
de visitantes. A cada ano, cerca de 2 mi de turistas do
mundo todo visitam o lugar. Durante o dia, em todas as
estações do ano, as ruelas da aldeia estão
repletas de visitantes. À noite, a quietude reina |
Durante a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), entre França
e Inglaterra, a abadia tomou ares de fortaleza militar, sem
contudo perder seu caráter sagrado nem suas funções
religiosas. Os ingleses conquistaram todo o território
ao redor do monte, mas não conseguiram sobrepujar as
enormes muralhas do mosteiro-abadia.
O fato de o Monte Saint-Michel permanecer boa parte do tempo ilhado (durante as marés altas) e rodeado de perigosos bancos de areia movediça (durante as marés baixas) era uma excelente proteção, que, como no caso da Guerra dos cem Anos, o tornava inexpugnável. Mas, por outro lado, esse isolamento apresentava grandes riscos para os peregrinos: para chegar ao mosteiro eles tinham de atravessar a pé longas extensões de areias molhadas. Os bancos de areia movediça e as marés que subiam rapidamente e podiam chegar a 13 metros de altura tornavam o trajeto muito perigoso. Na época, costumava-se dizer, com um certo humor negro: “Antes de ir a Saint-Michel, não esqueça de fazer seu testamento.” Foi preciso esperar a chegada do século 19 para que o monte fosse ligado ao continente por um dique. Sua construção, por um lado, resolveu o problema dos visitantes e dos moradores. Por outro lado, o dique provocou o assoreamento da baía. Hoje, apenas duas vezes por mês – nos dias de Lua nova e de Lua cheia – o monte se transforma com certeza numa ilha.
| Lamberto
Scipioni |
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| Um claustro divino:
O claustro medievalé um dos pontos altos do complexo
arquitetônico. Inteiramente cercado por colunas
e arcos góticos, esse magnífico jardim suspenso
representa o céu na terra. Era nele que os monges
passavam horas de intermináveis deambulações
e orações. Muitos visitantes de hoje fazem
o mesmo. A meditação e oração
silenciosas são permitidas |
O dique é também um fator fundamental do grande
afluxo de turistas ao local: mais de dois milhões de
visitantes por ano se deixam seduzir pela magia do rochedo.
Em todas as estações do ano, a rua principal
da aldeia está cheia de gente.
Quem deseja um pouco mais de recolhimento deve aguardar a chegada da noite, quando apenas os moradores e os turistas que se hospedam nos hotéis locais saem para passear.
Para se chegar ao mosteiro, a partir da aldeia, é
preciso subir várias escadarias. O ponto culminante
é a abadia gótica, situada sobre o mosteiro,
cujo pórtico principal se abre para um terraço
panorâmico.
| Lamberto Scipioni |
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Templo vivo:
Acima, a nave principal da abadia de Saint-Michel. O templo
recuperou hoje suas funções religiosas,
graças à presença, desde 2001, de
uma pequena comunidade de monges e monjas que obtiveram
permissão das autoridaes civis para nele residir
e atuar. No Monte Saint-Michel mantém-se viva a
chama
da fé católica |
Durante quase um século e meio – entre o início do século 19 e a segunda metade do século 20 –, o Monte Saint-Michel permaneceu destituído de suas funções religiosas. Os beneditinos foram expulsos do lugar durante a Revolução Francesa. O complexo tornou-se então prisão de Estado. Em 1874, ele foi declarado monumento histórico nacional da França. Após a Segunda Guerra Mundial, começou a atrair turistas e, finalmente, entre 1965 e 1966, uma nova, embora muito reduzida comunidade de monges beneditinos se instalou no monte, dando início à renovação da sua dimensão espiritual.
| Lamberto Scipioni |
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| Alta gastronomia:
O restaurante Mère Poulard é um dos mais
antigos. Alta gastronomia (cozinha normanda e bretã)
faz parte das muitas atrações do lugar |
Até 2001, essa comunidade monástica vivia num pequeno mosteiro situado na aldeia que circunda o complexo do grande mosteiro e abadia do Monte Saint-Michel. No dia 24 de junho de 2001, depois de longos meses de negociações com as autoridades que cuidam dos monumentos nacionais franceses, cinco monjas e quatro monges da ordem católica Fraternidades de Jerusalém foram autorizados a se instalar e residir no grande mosteiro.
Praticamente todas as seções do complexo de Saint-Michel podem ser visitadas pelo turista. O lugar é palco também de um espetáculo de som e luz noturno. A característica principal desse espetáculo é que, durante o seu transcorrer, o visitante não precisa seguir um roteiro preciso.
Ao contrário, ele pode parar o tempo que quiser para contemplar a arquitetura e as obras de arte expostas nos salões do complexo; pode sentar, meditar, voltar atrás, permanecer lá dentro o tempo que quiser. O Monte Saint-Michel não é apenas um esplêndido sítio de turismo cultural selecionado pela Unesco para integrar a lista do Patrimônio Cultural Material da Humanidade. Ele também é, ainda, uma cidadela da fé cristã, e como tal pode e deve ser aproveitado.
| A maravilha |
| O setor do complexo arquitetônico do Monte Saint-Michel conhecido como “A Maravilha”, é o coração da abadia. Dele faz parte o refeitório, dotado de excelente qualidade acústica, onde os leitores liam os textos sagrados em voz alta. A estrutura de vigas é de madeira. Acima do refeitório situam-se as salas de hóspedes e o salão nobre, onde eram acolhidos os peregrinos de alto nível social. Na parte esquerda de “A Maravilha” estão os ateliês monásticos e a biblioteca onde os monges desenhavam, escreviam e pintavam. A biblioteca, banhada pela luz difusa filtrada através de grandes vitrais, atraía eruditos e estudiosos de toda a Europa. A obra-prima de todo o complexo é, no entanto, o claustro, localizado 77 metros acima do nível do mar. Suspenso entre o céu e a terra, circundado por extraordinários arcos góticos, ele era e ainda é um lugar privilegiado para a meditação.
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| Iluminuras |
| Lamberto
Scipioni |
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Alguns manuscritos do Monte Saint-Michel,
salvos dos incêndios, dos desabamentos e dos roubos,
são as últimas testemunhas da vida espiritual,
intelectual e artística que durante
séculos se desenvolveu na abadia beneditina.
Parte deles está exposta ao público na
biblioteca da prefeitura da cidade de Abranches, localizada
perto do Monte Saint-Michel.
O Museu municipal de Abranches, por seu lado, exibe
ao público uma coleção única
de utensílios e instrumentos usados pelos iluministas
medievais.
A exposição permite conhecer as diferentes
qualidades dos manuscritos e das tintas, e saber, por
exemplo, como os copistas utilizavam as finíssimas
folhas de ouro para produzir os
preciosos dourados das iluminuras. |
| Notas |
| Pela liberdade de imprensa e contra agressões
– “O Escritório da Unesco
em Brasília repudia violências de qualquer
ordem que resultem de discordâncias com relação
à livre manifestação do pensamento
e opinião, e insta a todos os que se sentirem
agredidos que façam uso dos mecanismos legais
disponíveis no Brasil e do direito de resposta
para resolver tais conflitos. Por outro lado, ao reafirmarmos
o respeito aos mecanismos legais de proteção
do interesse de indivíduos e instituições,
a Unesco repudia a utilização abusiva
de recursos judiciais que cerceiam a liberdade de imprensa
e o acesso à informação. A solução
de conflitos de maneira pacífica é um
dos caminhos para a construção de uma
cultura de paz”. Mensagem da Unesco no Brasil
por ocasião do lançamento do Relatório
Anual do Programa de Defesa da Liberdade de Imprensa,
no último dia 2 de dezembro, produzido pela Associação
Nacional de Jornais (ANJ).
Pesquisa em Aids – O Ministério da Saúde e a Unesco no Brasil estão publicando a relação das propostas aprovadas para realizar pesquisas clínicas e clínico-epidemiológicas sobre Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis. Foram selecionadas 28 propostas em 14 linhas temáticas. Serão destinados R$ 5,8 milhões para os estudos, que terão duração de até 24 meses. Instituições de ensino, pesquisa, organizações não-governamentais e serviços de saúde participaram do processo. O resultado da seleção está disponível no site www.aids.gov.br, no link "Novidades".
Oceanos nos 60 anos da Unesco – Observar e compreender os oceanos é um dos temas escolhidos pela Unesco para comemorar os 60 anos da organização. Os oceanos representam quase 60% da superfície da Terra e são uma importante fonte de alimentos e recursos minerais. No entanto, a poluição e o esgotamento dos recursos da pesca estão destruindo o equilíbrio delicado dos oceanos. A Comissão Oceanográfica Internacional (IOC) é um programa das Nações Unidas para serviços e estudos das ciências marinhas que trabalha com cooperação internacional e visa levar seus programas a todos os lugares do mundo. O Sistema de Alarme do Pacífico contra Tsunamis é um desses programas. Com o objetivo de ampliar o debate sobre oceanos, o site da Unesco (www.unesco.org) disponibiliza outras fontes de informação sobre o assunto.
Educação nos presídios – A Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad/MEC) programou para os meses de fevereiro a maio de 2006 quatro seminários regionais para discutir, articular e construir uma política de educação prisional nos estados. Os eventos serão realizados em parceria com o Ministério da Justiça, a Unesco no Brasil, secretarias estaduais de Educação e de Administração Penitenciária. Estarão em debate as diretrizes que orientarão a oferta da alfabetização e da educação de jovens e adultos nas prisões em todo o País. Os seminários vão reunir as áreas da educação e justiça de 14 estados das regiões Sul, Centro-Oeste e Nordeste. Em fevereiro, haverá um seminário em Goiânia (GO) com a participação dos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Goiás. Mais informações no site www.mec.gov.br.
Capacitação Comunitária – O Instituto DNA Brasil capacitou, por meio do Guia de Pesquisa, 30 universitários que atuam no Programa Escola da Família para que eles levantem indicadores, construam índices, coletem e tratem dados sobre os principais problemas da comunidade em que estão inseridos. Na fase piloto do projeto, foram pesquisadas 15 comunidades. Por meio da metodologia, é possível propor ações e medir a eficácia dessas medidas mediante a evolução dos índices. Em 2006, o número de universitários capacitados será ampliado. O Guia e o Escola da Família conta com apoio da Unesco.
Links úteis:
• www.unesco.org/photobank/exec/index.htm (Banco de imagens)
• whc.unesco.org (Listas dos sítios do Patrimônio da Humanidade)
• www.unesco.org/mab/index.htm (Listas de reservas da biosfera)
A Unesco recebe imagens do Patrimônio da Humanidade e reservas de biosfera de todos os países do mundo
• Especificações para fotos digitais (somente Jpeg)
Peso: acima de 1,2 Mb
Resolução: 300Dpi
Tamanho: acima de 2.100 z 1.400 pixels
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