| Andrew Winning/Reuters |
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| A Festa dos Mortos, no México,
representa uma ponte entre o mundo dos vivos e o dos seus
antepassados já falecidos. Na foto, uma impressionante
alegoria da morte que espreita atrás das faces
da vida. Como pano de fundo, a esplêndida catedral
da Cidade do México. |
FESTA
DOS MORTOS PARA CELEBRAR A VIDA
Todos
os anos, entre o final de outubro e o início de novembro,
as comunidades indígenas do México comemoram
com muita comida, música, luz e cores o retorno transitório
à Terra dos seus amigos e parentes falecidos. Incluída
na lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco,
rica de conteúdo estético e metafísico,
a festa reúne vivos e mortos. Mas é, sobretudo,
uma alegre celebração da vida.
Por Simone Andréa Carvalho
da Silva
Cidade do México. Sob o olhar atônito de um
motorista de táxi retiro a máquina da bolsa
e, meio freneticamente, começo a tirar fotografias
das placas de trânsito – inúmeras –
que trazem a localização e a referência
de ruas cujos nomes estão vinculados, jocosamente,
à morte. É difícil explicar minha ansiedade
em fixar essas imagens – destinadas à ilustração
da minha tese de doutorado, mas também para comprovar
aos não-mexicanos e a mim mesma que essa é uma
realidade cultural e poeticamente possível de vivenciar
a morte. Calzada del Hueso, Barranca del Muerto, Calle de
la Muerte são alguns dos endereços mais comumente
freqüentados nessa cidade. E os mais apaixonantes também.
Nessa cultura não se trata apenas de povoar a morte,
mas de aproximá-la e de freqüentá-la: está
logo ali no final da esquina; é habitada por pessoas;
famílias inteiras vivem nela; negócios são
realizados em seu espaço; o mundo continua existindo
em parceria constante com o lado de lá. Tenho de passar
por ela para chegar ao meu destino, posso sentar para uma
cerveja em suas calçadas, talvez até mesmo em
sua companhia.
Entre os flashes rápidos da câmara, trato de
entabular uma conversa (una plática, bem ao sabor mexicano)
em que o taxista, entre orgulhoso e respeitoso, me explica
o porquê de levar pendurado no retrovisor um esqueleto
sorridente e gozador, abraçado a uma garrafa de tequila:
“É que eu gosto dela como de uma amiga –
com ela converso, tomamos juntos umas boas garrafas de tequila
e com ela vivo. E ela sente o mesmo por mim. E, porque nos
damos tão bem, ela não virá para buscar-me
de um modo brusco ou em um momento indevido.”
Diante desse convívio tão generoso e inusual
com a morte, a relação com a vida também
se vê alterada. A cada vida corresponde uma morte. Não
morrer como se viveu é a constatação
de não haver vivido sua própria vida, mas sim
a de outra pessoa. Deve-se morrer como se vive. “A morte
não nos assusta”, diz Octavio Paz, “porque
a vida já nos curou dos medos”. É a vida
a provocadora de lágrimas, não a morte.
| Héctor Vazques/Fototeca
Unesco |
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| Mulheres da cultura purépecha,
da Ilha de Janitzio, província de Michoacán,
preparam tamales. Comida e bebida não podem faltar
na Festa dos Mortos. |
Essa é uma tradição que tem sua origem
nas culturas pré-hispânicas que se desenvolveram
em todo o território mexicano. Os astecas, que estavam
no poder quando da chegada dos espanhóis, foram apenas
um, dentre os vários povos presentes em todo o país,
como toltecas, maias, olmecas, purépechas, tarahumaras
e tojolabales. Tais culturas adaptaram ao cris- tianismo espanhol
seus ritos e sua maneira de se relacionar com os mortos e
com a morte (vista como origem e destino, lugar de descanso
e de reencontros). E é essa relação de
burla e de respeito, de alegria, de fascinação
e de intimidade que povoa e comporta a celebração
do Dia dos Mortos.
A familiaridade com que o mexicano trata a morte não
o isenta de temê-la, mas o ajuda a conviver e sobreviver
a esse medo. Desde cedo as crianças devoram avidamente
as caveirinhas feitas de açúcar, bala de goma,
chocolate ou amaranto, pães dos mortos e todo tipo
de guloseimas servido a um fausto banquete de vivos e mortos.
Assim, acostumam-se ao contato com uma morte brinca- lhona
e companheira, personifi-cada em bonecos-caveiras de papel
machê.
Em termos ritualísticos, “comer a morte”
pode representar a continuidade da vida, como se do ventre
da morte pudéssemos ver nascer a vida. Daí se
explicam costumes como o de os noivos, depois do casamento,
irem ao cemitério onde estão enterrados seus
parentes para tirar fotografias. Com isso, não apenas
apresentam o novo companheiro a seus mortos, mas também
compartilham com eles o momento feliz. Vem também daí
o hábito de fotografar crianças abraçadas
a caveiras jocosas ou o costume de algumas pessoas do interior,
na hora da despedida, dizerem: “Se eu não lhe
ver, que você tenha uma boa morte.”
A tradição literária mexicana em torno
da morte é caudalosa e sedutora: Juan Rulfo, Agustín
Yáñez, Emilio Carballido, Carlos Fuentes, José
Gorostiza. O cinema e a música também vivenciam
a experiência e o diálogo intermitente com a
morte: Gabriela Ortiz, com seu Altar de Muertos; Luis Sandi,
com seu filme Día de Muertos; e Eisenstein, que mesmo
não sendo mexicano produziu um dos mais belos filmes
sobre a vida e os costumes culturais e artísticos mexicanos,
¡Que Viva México!
| Daniel Aguilar/Reuters |
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| No cemitério de Metepec,
mulher mexicana acende um enorme círio no túmulo
de parente falecido. Os mexicanos celebram o Dia dos Mortos
limpando e decorando as sepulturas dos seus entes queridos.
Para eles, os mortos continuam vivos enquanto permanecerem
na nossa memória. |
Durante os meses de outubro e novembro são apresentadas,
em várias partes do México, peças e canções
populares com temas relacionados à morte; montam-se
altares públicos (muitos inseridos em concursos) em
museus e instituições públicas; são
inauguradas mostras de cinema e bailes; ministradas conferências
sobre os distintos aspectos da morte (médico, antropológico,
teológico, his- tórico, etc.); e se publicam
as ca-laveras políticas, tradição que
consiste em escrever epitáfios humorísticos
de políticos e pes-soas públicas.
Com algumas variações regionais, as festividades
que envolvem o Dia dos Mortos começam no final de outubro
e seguem até a primeira semana de novembro. Os dias
são pautados pelo regresso do mortos, de acordo com
a forma de suas mortes: no dia 30/10, regressam os suicidas;
em 31/10 voltam as almas dos mortos em acidentes; no dia 1º
de novembro regressam as crianças; e, no dia 2, as
almas dos adultos. Ainda que nas cidades maiores os dias de
ce- lebração se restrinjam aos dias 1º
e 2 de novembro, permanece o critério que discrimina
esse re- torno: o tipo de morte que lhes tocou viver.
A própria noção de família e
dos vínculos que ela anuncia e pressupõe é
ampliada e revista. Todos participam dos festejos e com isso
alimentam o ciclo infindo contido no ato da memória,
porque todos, cedo ou tarde, estarão permutando os
lugares e ocupando novas posições nesse vertiginoso
e cálido jogo de vida e morte. Os mortos são
raiz, seiva, terra e cosmos. A relação com eles
é um ato de memória, uma memória coletiva.
Por isso, uma frase que escutamos muito freqüentemente
nesses dias é: não se deve deixar morrer os
nossos mortos, pois cada um é a somatória de
seus mortos, que só existem se são lembrados
pe-los vivos.
Esse ato de memória está construído
não apenas para os mortos, mas também entre
os vivos. Parentes distantes encontram nessas celebrações
motivos e respaldo para reunirem-se; juntos esperam o regresso
de seus mortos. Famí-lias separadas pela distância
voltam a se encontrar e se agrupam em volta de seus mortos.
Diante da vida que separa, está a morte que unifica.
| Carlos Sainz/Museu
Nacional de Antropologia do México/Fototeca Unesco |
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| Flores, frutos, bebidas, velas
acesas. Os mortos merecem todas as homenagens, como mostra
este altar de oferendas feito por indígenas zapotecas
de Tehuantepec, na província de Oaxaca. |
As oferendas deixadas aos mortos, carregadas de simbolismo
e de identidade, são uma forma concreta e solidária
de compartilhar com os defuntos os bons frutos obtidos durante
o ano em que o morto esteve ausente. Ofertar é estar
próximo ao morto, é dialogar e se reconciliar
com a memória de todos. É um reencontro em que
o passado e o presente se unem, se buscam e se completam para,
de uma forma mítica, gerar e garantir a existência
do futuro. Não ofertar é negligenciar os antepassados
e, com isso, sua própria história, colocando
em risco a sua continuidade enquanto indivíduo e enquanto
grupo ritualístico e social.
As oferendas podem estar dispostas em altares caseiros,
nas ruas ou mesmo nos cemitérios. Tudo é preparado
com antecipação para que o morto, ao regressar,
possa encontrar tudo que era de sua predileção
enquanto vivo. São eles os primeiros a se servirem
dos alimentos – de sua essência, seu cheiro –
e, por isso mesmo, devem estar bem elaborados. Só depois
da certeza desse consumo, e do seu agrado, é que os
vivos podem servir-se do que foi ofertado.
De maneira geral, a primeira oferenda que se pode observar
na entrada da casa é uma jarra com água fresca,
um copo e uma toalha limpa, para que os mortos possam amenizar
sua sede e se refrescar do cansaço da longa viagem
para rever os parentes vivos. Também é comum
encontrarmos cestas espalhadas pelo caminho, com a finalidade
de ajudar os mortos a levar para suas tumbas as oferendas
recebidas.
Para guiar os mortos até o altar preparado em sua
honra, em muitas regiões mexicanas é comum o
luminoso espetáculo das pétalas alaranjadas
e amareladas de cempasúchitl, a flor dos mortos, adornando
com o brilho ofuscante o caminho que vai da rua até
a parte da casa onde está o altar. Essa trilha de pétalas
deve ser feita por um membro da família, para que a
alma do morto reconheça o cheiro de seu parente e não
corra o risco de se perder.
| Hiriart/Fototeca
Unesco |
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| Nem tudo é festa no
Dia dos Mortos. Há também muito trabalho.
Nos cemitérios, os túmulos são limpos
e depois decorados com flores e guirlandas coloridas.
Muitas vezes oferendas são depositadas diretamente
sobre as tumbas. Como nos povoados brasileiros, os cemitérios
das aldeias mexicanas costumam ficar junto às igrejas
católicas. Essa proximidade facilitou, ao longo
da história, o sincretismo entre a religião
cristã e os cultos animistas dos indígenas
mexicanos. Na foto, o cemitério da cidadezinha
de Zitácuaro, centro da cultura mazahua, província
de Michoacán. |
O altar é composto dos quatro elementos da natureza:
água (jarro para saciar a sede dos mortos); fogo (velas
e incensos); terra (alimentos e flores); e ar (adornos de
“papel picado”). Além disso, é incrementado
com os objetos que eram de preferência do morto: cigarros,
bebidas, roupas (se é um adulto) ou brinquedos, doces
e comidas menos picantes (se é uma criança).
Tudo é partilhado entre os parentes, amigos e vizinhos
quando da partida dos mortos, que, em geral, ocorre no dia
2 de novembro. Essa partilha é conhecida pela expressão
dar la calavera. Tudo é coletivo. Tudo é comum.
Também é usual, em caso de mudança
de domicílio, que os familiares venham até o
antigo endereço chamar os mortos e avisá-los
da nova residência. Ou simplesmente deixam pequenas
placas indicando-lhes seu novo endereço.
A música também ocupa um lugar de destaque
nos ritos fúnebres. Na noite do dia 1º de novembro,
em muitas localidades, as pessoas, com máscaras de
caveiras, saem às ruas a calavarear, ou seja, a pedir
com rezas e cantos, de casa em casa, oferendas e orações
para os mortos que já não têm parentes
vivos. Vão imitando sons guturais para que se acredite
que é o morto quem está pedindo a oferenda.
 |
| Figuras de caveiras ricamente
decoradas são presença constante na Festa
dos Mortos. Na foto do meio, altar de oferendas da cultura
huichol, em Jalisco. À direita, mais um altar,
desta vez na localidade de Huaquechola, em Puebla. |
Como é de se imaginar, tais comemorações
exigem preparativos que, em geral, começam quase seis
meses antes, uma vez que demandam custos muito altos, com
os quais a maioria dos habitan- tes não pode arcar
de uma só vez. Economizam-se salários e não
é raro que muitos cheguem a ficar endividados.
No período que duram as celebrações,
é permitida e incentivada a convivência entre
vivos e mortos e a casa volta a ter o seu significado ritualístico:
espaço de nascimentos e de mortes. E não apenas
a casa do morto enquanto era vivo, mas sobretudo a mora-da
que ocupa ele agora, em sua nova condição.
Os cemitérios ficam cheios de parentes, amigos, vendedores
ambulantes, músicos, artistas teatrais; os túmulos
repletos de flores, adornos, comidas e bebidas. Como parte
integrante desse todo multicolorido, os parentes vestem, de
maneira alegre e festiva, as melhores roupas para receber
seus mortos.
O regressar, findas as celebrações, é
tão importante quanto a chegada. Daí o poder
das orações: elas remetem o morto de volta ao
seu espaço e à sua temporalidade, evitando o
perigo de que eles fiquem numa realidade que não é
a sua, criando uma zona intermediária prejudicial a
si próprios e aos vivos. Por isso, em algumas cidades,
se faz uma procissão pa-ra levar os mortos de volta
ao cemitério.
Com o término das festividades, cada um volta a ocupar
o seu lugar: mortos e vivos regressam aos seus espaços,
felizes por se sentirem lembrados e por terem compartilhado
suas histórias e seus sonhos. Amparados entre si, todos
sabem que no ano seguinte as celebrações irão
novamente acontecer e que a memória os unirá
outra vez no momento do reencontro.
| Nomes
e pseudônimos da morte no México |
|
• A Ladra
• A Amada Imóvel
• A Pestilenta
• A Bem Amada
• A Branca
• A Careca
• A Caveira
• A Certeira
• A Chorona
• A Comadre
• A Dama da Foice
• A Dama do Véu
• A Descarnada |
• Dona Ossos
• A Enlutada
• A Espirituosa
• A Hora da Verdade
• A Igualadora
• A Magra
• A Noiva Fiel
• A Pálida
• A Parca
• A Patroa
• A Tia das Moças
• A Trombada
• A Desdentada |
|
| Ditos
e refrões mexicanos sobre a morte |
| – Ao morto a sepultura e ao vivo a travessura.
– O morto ao poço e o vivo ao gozo.
– Adiante, que para morrer nascemos.
– Ao vivo, tudo lhe falta; ao morto, tudo lhe
sobra.
– Vamos ver um velório e divertir-nos com
um fandango.
– Ao diabo a morte, enquanto a vida nos dure.
– Daqui a cem anos, todos seremos caveiras.
– O morto e a vista aos três dias começam
a feder.
– Há mortos que não fazem barulho
e a esses é maior o seu penar.
– Foges da mortalha e te abraça o defunto.
– Os desgostos não matam, mas ajudam a
morrer.
– Mulheres juntas, só defuntas.
– De gulosos e bêbados estão os cemitérios
cheios.
– Se me vão matar amanhã, que me
matem de uma vez. |
| Canto
de boas-vindas aos mortos |
| “Entrem, almas abençoadas,
Passem papai, mamãe, tios e tias
Vovós e vovôs
Sirvam-se do pouco que lhe oferecemos
Mas que lhes é dado de todo o coração
Aqui está a sua casa, aqui estão as suas
coisas
Bebam seu pulquezinho
Descansem: aí está a cama, aí estão
as cadeiras.” |
Serviço
Simone Andréa Carvalho da Silva fez mestrado e doutorado
em comunicação e semiótica. É
membro do Conselho Editorial da Fundación Juan Rulfo
(Cidade do México) e possui trabalhos publicados na
Espanha, no México, no Uruguai, na Argentina e no Chile.
Contatos através do e-mail: asuaje@uol.com.br
O que há para se ler
Día de muertos en México – a través
de los ojos del alma: michoacán, Mary J. Andrade, La
Oferta Review Newspa- per, 1996.
Los días de muertos: una costumbre mexicana, Beatriz
Oliver Vega (org.), GV Editores, México, 1992.
Posada´s popular mexican prints, José Guadalupe
Posada, selecionado e editado por Roberto Berdecio e Stanley
Ap-pelbaum, Dover Publications, Nova York, 1972.
Memórias itinerantes de vivos e mortos: comunicação,
cultura e história no México de Pedro Páramo,
por Simone Andréa Carvalho da Silva, tese (inédita)
de doutorado em comunicação e semiótica
na PUC-SP, 2004.
Tradiciones mexicanas, Sebastián Verti, Editorial Diana,
México, 1997.
La fiesta de la muerte, Héctor Zaráuz López,
Conaculta, México, 2000.
Para saber mais
http://mexico.udg.mx/arte/diademuertos
www.yucatan.com.mx/especiales/muertos/vivos.asp
www.terra.com.mx/noticias/articulo/019848
www.uaq.mx/tradicion/muerte |