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REVISTA PLANETA
EDIÇÃO 398

 
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NOVEMBRO /2005

Andrew Winning/Reuters
A Festa dos Mortos, no México, representa uma ponte entre o mundo dos vivos e o dos seus antepassados já falecidos. Na foto, uma impressionante alegoria da morte que espreita atrás das faces da vida. Como pano de fundo, a esplêndida catedral da Cidade do México.


FESTA DOS MORTOS PARA CELEBRAR A VIDA
Todos os anos, entre o final de outubro e o início de novembro, as comunidades indígenas do México comemoram com muita comida, música, luz e cores o retorno transitório à Terra dos seus amigos e parentes falecidos. Incluída na lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco, rica de conteúdo estético e metafísico, a festa reúne vivos e mortos. Mas é, sobretudo, uma alegre celebração da vida.

Por Simone Andréa Carvalho da Silva

Cidade do México. Sob o olhar atônito de um motorista de táxi retiro a máquina da bolsa e, meio freneticamente, começo a tirar fotografias das placas de trânsito – inúmeras – que trazem a localização e a referência de ruas cujos nomes estão vinculados, jocosamente, à morte. É difícil explicar minha ansiedade em fixar essas imagens – destinadas à ilustração da minha tese de doutorado, mas também para comprovar aos não-mexicanos e a mim mesma que essa é uma realidade cultural e poeticamente possível de vivenciar a morte. Calzada del Hueso, Barranca del Muerto, Calle de la Muerte são alguns dos endereços mais comumente freqüentados nessa cidade. E os mais apaixonantes também.

Nessa cultura não se trata apenas de povoar a morte, mas de aproximá-la e de freqüentá-la: está logo ali no final da esquina; é habitada por pessoas; famílias inteiras vivem nela; negócios são realizados em seu espaço; o mundo continua existindo em parceria constante com o lado de lá. Tenho de passar por ela para chegar ao meu destino, posso sentar para uma cerveja em suas calçadas, talvez até mesmo em sua companhia.

Entre os flashes rápidos da câmara, trato de entabular uma conversa (una plática, bem ao sabor mexicano) em que o taxista, entre orgulhoso e respeitoso, me explica o porquê de levar pendurado no retrovisor um esqueleto sorridente e gozador, abraçado a uma garrafa de tequila: “É que eu gosto dela como de uma amiga – com ela converso, tomamos juntos umas boas garrafas de tequila e com ela vivo. E ela sente o mesmo por mim. E, porque nos damos tão bem, ela não virá para buscar-me de um modo brusco ou em um momento indevido.”

Diante desse convívio tão generoso e inusual com a morte, a relação com a vida também se vê alterada. A cada vida corresponde uma morte. Não morrer como se viveu é a constatação de não haver vivido sua própria vida, mas sim a de outra pessoa. Deve-se morrer como se vive. “A morte não nos assusta”, diz Octavio Paz, “porque a vida já nos curou dos medos”. É a vida a provocadora de lágrimas, não a morte.

Héctor Vazques/Fototeca Unesco
Mulheres da cultura purépecha, da Ilha de Janitzio, província de Michoacán, preparam tamales. Comida e bebida não podem faltar na Festa dos Mortos.

Essa é uma tradição que tem sua origem nas culturas pré-hispânicas que se desenvolveram em todo o território mexicano. Os astecas, que estavam no poder quando da chegada dos espanhóis, foram apenas um, dentre os vários povos presentes em todo o país, como toltecas, maias, olmecas, purépechas, tarahumaras e tojolabales. Tais culturas adaptaram ao cris- tianismo espanhol seus ritos e sua maneira de se relacionar com os mortos e com a morte (vista como origem e destino, lugar de descanso e de reencontros). E é essa relação de burla e de respeito, de alegria, de fascinação e de intimidade que povoa e comporta a celebração do Dia dos Mortos.

A familiaridade com que o mexicano trata a morte não o isenta de temê-la, mas o ajuda a conviver e sobreviver a esse medo. Desde cedo as crianças devoram avidamente as caveirinhas feitas de açúcar, bala de goma, chocolate ou amaranto, pães dos mortos e todo tipo de guloseimas servido a um fausto banquete de vivos e mortos. Assim, acostumam-se ao contato com uma morte brinca- lhona e companheira, personifi-cada em bonecos-caveiras de papel machê.

Em termos ritualísticos, “comer a morte” pode representar a continuidade da vida, como se do ventre da morte pudéssemos ver nascer a vida. Daí se explicam costumes como o de os noivos, depois do casamento, irem ao cemitério onde estão enterrados seus parentes para tirar fotografias. Com isso, não apenas apresentam o novo companheiro a seus mortos, mas também compartilham com eles o momento feliz. Vem também daí o hábito de fotografar crianças abraçadas a caveiras jocosas ou o costume de algumas pessoas do interior, na hora da despedida, dizerem: “Se eu não lhe ver, que você tenha uma boa morte.”

A tradição literária mexicana em torno da morte é caudalosa e sedutora: Juan Rulfo, Agustín Yáñez, Emilio Carballido, Carlos Fuentes, José Gorostiza. O cinema e a música também vivenciam a experiência e o diálogo intermitente com a morte: Gabriela Ortiz, com seu Altar de Muertos; Luis Sandi, com seu filme Día de Muertos; e Eisenstein, que mesmo não sendo mexicano produziu um dos mais belos filmes sobre a vida e os costumes culturais e artísticos mexicanos, ¡Que Viva México!

Daniel Aguilar/Reuters
No cemitério de Metepec, mulher mexicana acende um enorme círio no túmulo de parente falecido. Os mexicanos celebram o Dia dos Mortos limpando e decorando as sepulturas dos seus entes queridos. Para eles, os mortos continuam vivos enquanto permanecerem na nossa memória.

Durante os meses de outubro e novembro são apresentadas, em várias partes do México, peças e canções populares com temas relacionados à morte; montam-se altares públicos (muitos inseridos em concursos) em museus e instituições públicas; são inauguradas mostras de cinema e bailes; ministradas conferências sobre os distintos aspectos da morte (médico, antropológico, teológico, his- tórico, etc.); e se publicam as ca-laveras políticas, tradição que consiste em escrever epitáfios humorísticos de políticos e pes-soas públicas.

Com algumas variações regionais, as festividades que envolvem o Dia dos Mortos começam no final de outubro e seguem até a primeira semana de novembro. Os dias são pautados pelo regresso do mortos, de acordo com a forma de suas mortes: no dia 30/10, regressam os suicidas; em 31/10 voltam as almas dos mortos em acidentes; no dia 1º de novembro regressam as crianças; e, no dia 2, as almas dos adultos. Ainda que nas cidades maiores os dias de ce- lebração se restrinjam aos dias 1º e 2 de novembro, permanece o critério que discrimina esse re- torno: o tipo de morte que lhes tocou viver.

A própria noção de família e dos vínculos que ela anuncia e pressupõe é ampliada e revista. Todos participam dos festejos e com isso alimentam o ciclo infindo contido no ato da memória, porque todos, cedo ou tarde, estarão permutando os lugares e ocupando novas posições nesse vertiginoso e cálido jogo de vida e morte. Os mortos são raiz, seiva, terra e cosmos. A relação com eles é um ato de memória, uma memória coletiva. Por isso, uma frase que escutamos muito freqüentemente nesses dias é: não se deve deixar morrer os nossos mortos, pois cada um é a somatória de seus mortos, que só existem se são lembrados pe-los vivos.

Esse ato de memória está construído não apenas para os mortos, mas também entre os vivos. Parentes distantes encontram nessas celebrações motivos e respaldo para reunirem-se; juntos esperam o regresso de seus mortos. Famí-lias separadas pela distância voltam a se encontrar e se agrupam em volta de seus mortos. Diante da vida que separa, está a morte que unifica.

Carlos Sainz/Museu Nacional de Antropologia do México/Fototeca Unesco
Flores, frutos, bebidas, velas acesas. Os mortos merecem todas as homenagens, como mostra este altar de oferendas feito por indígenas zapotecas de Tehuantepec, na província de Oaxaca.

As oferendas deixadas aos mortos, carregadas de simbolismo e de identidade, são uma forma concreta e solidária de compartilhar com os defuntos os bons frutos obtidos durante o ano em que o morto esteve ausente. Ofertar é estar próximo ao morto, é dialogar e se reconciliar com a memória de todos. É um reencontro em que o passado e o presente se unem, se buscam e se completam para, de uma forma mítica, gerar e garantir a existência do futuro. Não ofertar é negligenciar os antepassados e, com isso, sua própria história, colocando em risco a sua continuidade enquanto indivíduo e enquanto grupo ritualístico e social.

As oferendas podem estar dispostas em altares caseiros, nas ruas ou mesmo nos cemitérios. Tudo é preparado com antecipação para que o morto, ao regressar, possa encontrar tudo que era de sua predileção enquanto vivo. São eles os primeiros a se servirem dos alimentos – de sua essência, seu cheiro – e, por isso mesmo, devem estar bem elaborados. Só depois da certeza desse consumo, e do seu agrado, é que os vivos podem servir-se do que foi ofertado.

De maneira geral, a primeira oferenda que se pode observar na entrada da casa é uma jarra com água fresca, um copo e uma toalha limpa, para que os mortos possam amenizar sua sede e se refrescar do cansaço da longa viagem para rever os parentes vivos. Também é comum encontrarmos cestas espalhadas pelo caminho, com a finalidade de ajudar os mortos a levar para suas tumbas as oferendas recebidas.

Para guiar os mortos até o altar preparado em sua honra, em muitas regiões mexicanas é comum o luminoso espetáculo das pétalas alaranjadas e amareladas de cempasúchitl, a flor dos mortos, adornando com o brilho ofuscante o caminho que vai da rua até a parte da casa onde está o altar. Essa trilha de pétalas deve ser feita por um membro da família, para que a alma do morto reconheça o cheiro de seu parente e não corra o risco de se perder.

Hiriart/Fototeca Unesco
Nem tudo é festa no Dia dos Mortos. Há também muito trabalho. Nos cemitérios, os túmulos são limpos e depois decorados com flores e guirlandas coloridas. Muitas vezes oferendas são depositadas diretamente sobre as tumbas. Como nos povoados brasileiros, os cemitérios das aldeias mexicanas costumam ficar junto às igrejas católicas. Essa proximidade facilitou, ao longo da história, o sincretismo entre a religião cristã e os cultos animistas dos indígenas mexicanos. Na foto, o cemitério da cidadezinha de Zitácuaro, centro da cultura mazahua, província de Michoacán.

O altar é composto dos quatro elementos da natureza: água (jarro para saciar a sede dos mortos); fogo (velas e incensos); terra (alimentos e flores); e ar (adornos de “papel picado”). Além disso, é incrementado com os objetos que eram de preferência do morto: cigarros, bebidas, roupas (se é um adulto) ou brinquedos, doces e comidas menos picantes (se é uma criança).

Tudo é partilhado entre os parentes, amigos e vizinhos quando da partida dos mortos, que, em geral, ocorre no dia 2 de novembro. Essa partilha é conhecida pela expressão dar la calavera. Tudo é coletivo. Tudo é comum.

Também é usual, em caso de mudança de domicílio, que os familiares venham até o antigo endereço chamar os mortos e avisá-los da nova residência. Ou simplesmente deixam pequenas placas indicando-lhes seu novo endereço.

A música também ocupa um lugar de destaque nos ritos fúnebres. Na noite do dia 1º de novembro, em muitas localidades, as pessoas, com máscaras de caveiras, saem às ruas a calavarear, ou seja, a pedir com rezas e cantos, de casa em casa, oferendas e orações para os mortos que já não têm parentes vivos. Vão imitando sons guturais para que se acredite que é o morto quem está pedindo a oferenda.

Figuras de caveiras ricamente decoradas são presença constante na Festa dos Mortos. Na foto do meio, altar de oferendas da cultura huichol, em Jalisco. À direita, mais um altar, desta vez na localidade de Huaquechola, em Puebla.

Como é de se imaginar, tais comemorações exigem preparativos que, em geral, começam quase seis meses antes, uma vez que demandam custos muito altos, com os quais a maioria dos habitan- tes não pode arcar de uma só vez. Economizam-se salários e não é raro que muitos cheguem a ficar endividados.

No período que duram as celebrações, é permitida e incentivada a convivência entre vivos e mortos e a casa volta a ter o seu significado ritualístico: espaço de nascimentos e de mortes. E não apenas a casa do morto enquanto era vivo, mas sobretudo a mora-da que ocupa ele agora, em sua nova condição.

Os cemitérios ficam cheios de parentes, amigos, vendedores ambulantes, músicos, artistas teatrais; os túmulos repletos de flores, adornos, comidas e bebidas. Como parte integrante desse todo multicolorido, os parentes vestem, de maneira alegre e festiva, as melhores roupas para receber seus mortos.

O regressar, findas as celebrações, é tão importante quanto a chegada. Daí o poder das orações: elas remetem o morto de volta ao seu espaço e à sua temporalidade, evitando o perigo de que eles fiquem numa realidade que não é a sua, criando uma zona intermediária prejudicial a si próprios e aos vivos. Por isso, em algumas cidades, se faz uma procissão pa-ra levar os mortos de volta ao cemitério.

Com o término das festividades, cada um volta a ocupar o seu lugar: mortos e vivos regressam aos seus espaços, felizes por se sentirem lembrados e por terem compartilhado suas histórias e seus sonhos. Amparados entre si, todos sabem que no ano seguinte as celebrações irão novamente acontecer e que a memória os unirá outra vez no momento do reencontro.

 

Nomes e pseudônimos da morte no México

• A Ladra
• A Amada Imóvel
• A Pestilenta
• A Bem Amada
• A Branca
• A Careca
• A Caveira
• A Certeira
• A Chorona
• A Comadre
• A Dama da Foice
• A Dama do Véu
• A Descarnada

• Dona Ossos
• A Enlutada
• A Espirituosa
• A Hora da Verdade
• A Igualadora
• A Magra
• A Noiva Fiel
• A Pálida
• A Parca
• A Patroa
• A Tia das Moças
• A Trombada
• A Desdentada

 

Ditos e refrões mexicanos sobre a morte

– Ao morto a sepultura e ao vivo a travessura.
– O morto ao poço e o vivo ao gozo.
– Adiante, que para morrer nascemos.
– Ao vivo, tudo lhe falta; ao morto, tudo lhe sobra.
– Vamos ver um velório e divertir-nos com um fandango.
– Ao diabo a morte, enquanto a vida nos dure.
– Daqui a cem anos, todos seremos caveiras.
– O morto e a vista aos três dias começam a feder.
– Há mortos que não fazem barulho e a esses é maior o seu penar.
– Foges da mortalha e te abraça o defunto.
– Os desgostos não matam, mas ajudam a morrer.
– Mulheres juntas, só defuntas.
– De gulosos e bêbados estão os cemitérios cheios.
– Se me vão matar amanhã, que me matem de uma vez.

 

Canto de boas-vindas aos mortos

“Entrem, almas abençoadas,
Passem papai, mamãe, tios e tias
Vovós e vovôs
Sirvam-se do pouco que lhe oferecemos
Mas que lhes é dado de todo o coração
Aqui está a sua casa, aqui estão as suas coisas
Bebam seu pulquezinho
Descansem: aí está a cama, aí estão as cadeiras.”

Serviço
Simone Andréa Carvalho da Silva fez mestrado e doutorado em comunicação e semiótica. É membro do Conselho Editorial da Fundación Juan Rulfo (Cidade do México) e possui trabalhos publicados na Espanha, no México, no Uruguai, na Argentina e no Chile. Contatos através do e-mail: asuaje@uol.com.br
O que há para se ler
Día de muertos en México – a través de los ojos del alma: michoacán, Mary J. Andrade, La Oferta Review Newspa- per, 1996.
Los días de muertos: una costumbre mexicana, Beatriz Oliver Vega (org.), GV Editores, México, 1992.
Posada´s popular mexican prints, José Guadalupe Posada, selecionado e editado por Roberto Berdecio e Stanley Ap-pelbaum, Dover Publications, Nova York, 1972.
Memórias itinerantes de vivos e mortos: comunicação, cultura e história no México de Pedro Páramo, por Simone Andréa Carvalho da Silva, tese (inédita) de doutorado em comunicação e semiótica na PUC-SP, 2004.
Tradiciones mexicanas, Sebastián Verti, Editorial Diana, México, 1997.
La fiesta de la muerte, Héctor Zaráuz López, Conaculta, México, 2000.
Para saber mais
http://mexico.udg.mx/arte/diademuertos
www.yucatan.com.mx/especiales/muertos/vivos.asp
www.terra.com.mx/noticias/articulo/019848
www.uaq.mx/tradicion/muerte