| Fotos de Lamberto
Scipioni |
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Confraria secreta:
Passados quase 200 anos de sua criação,
a Irmandade da Boa Morte ainda se mantém ativa
e fechada – somente participam dela as descendentes
de escravas com mais de 40 anos. |
IRMANDADE
DA BOA MORTE
Mulheres
negras fundaram o primeiro movimento feminista no Brasil
Fabíola Musarra
De todos os tesouros que preserva espalhados em suas ruas,
a pequena cidade baiana de Cachoeira é detentora de
uma das manifestações culturais mais ricas do
País: a festa de Nossa Senhora da Boa Morte. Realizada
no fim de semana mais próximo a 15 de agosto, a iniciativa
– mais do que uma simples comemoração
– é um convite para ingressar num mundo onde
cultura, tradição, história e magia convivem
e se confundem.
Situada na região do Recôncavo Baiano, a 109
quilômetros de Salvador, a cidade “nasceu”
de um engenho de açúcar, no século 16.
Devido à fertilidade de seu solo e ao intenso comércio,
foi um dos principais pólos econômicos da Bahia
até o século 19. De seu apogeu, Cachoeira ainda
conserva algumas tradições. A festa de Nossa
Senhora da Boa Morte é uma delas.
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Tributo a Maria:
Desde 1820, as irmãs se mantêm
fiéis na devoção a Nossa Senhora.
Anualmente, realizam a festa de Cachoeira, cumprindo uma
promessa feita por suas ancestrais nos tempos da escravidão. |
Participar dessa cerimônia é mergulhar no passado
e reviver os tempos do Brasil colonial, do Império
e do País independente mas ainda escravocrata. É
percorrer uma paisagem onde a energia de escravos mortos ou
torturados ainda ecoam. É desvendar a-quele que talvez
seja o primeiro movimento feminista negro do País:
a Irmandade da Boa Morte, uma organização de
mulheres negras que à sua moda resistiu e se rebelou
contra os sofrimentos impostos pelo regime escravagista, desde
a jornada diária de trabalho de 18 horas nas lavouras
aos castigos e mutilações, como o corte dos
tendões das fujonas, os açoites em público,
os grilhões e brasas em seus rostos, a extração
e quebra de dentes a frio e o corte de orelhas e da língua
daquelas consideradas mais afoitas. Sem falar dos abusos sexuais.
Não é à toa que esse período
de mais de 350 anos é um dos capítulos mais
sombrios da história das Américas. Mas foi nesse
cenário que surgiu a Irmandade da Boa Morte, que é
quem até hoje organiza a festa em Cachoeira. Fundada
em 1820, essa sociedade de mulheres negras e mestiças,
escravas e libertas, tinha duas metas principais: comprar
a carta de alforria para a libertação de maridos,
filhos e outros escravos, e preservar os rituais das religiões
africanas até então terminantemente proibidos,
como o culto dos orixás. Posteriormente, foi essa organização
que fundou a primeira casa de candomblé keto no Brasil.
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Respeito a Oxalá:
Após ritual secreto, as irmãs
oferecem uma ceia à comunidade. Nela, o dendê
e a carne são expressamente proibidos, num gesto
de respeito a Oxalá, que não ”aprecia”
esses alimentos. |
Passados quase dois séculos de sua criação,
a Irmandade da Boa Morte ainda é uma confraria católica
de mulheres negras e mestiças que representam a ancestralidade
dos povos africanos escravizados e libertos no Recôncavo
Baiano. A sociedade ainda se mantém ativa e é
fechada – somente podem ingressar nela as descendentes
de escravas com mais de 40 anos.
Atualmente, a Irmandade é integrada por cerca de
30 senhoras – houve um tempo em que esse número
chegou a 200. Embora neguem, são elas que continuam
realizando secretamente os mesmos rituais aos deuses africanos
dos tempos da escravidão, incluindo aqueles feitos
durante a festa da Nossa Senhora da Boa Morte.
Quitutes nas ruas em troca da liberdade
Como outras devoções marianas, o culto
a Nossa Senhora da Boa Morte é um exemplo da inestimável
herança deixada por índios, portugueses e negros.
Ele foi trazido para o Brasil pelos jesuítas portugueses.
Chegou primeiro em igrejas e conventos de Salvador, que realizavam
a procissão do enterro de Maria ou procissão
de Nossa Senhora de Boa Morte.
Mais tarde, essa devoção foi levada para Cachoeira,
onde a festa é atualmente uma das mais famosas do País,
ganhando inclusive daquelas organizadas na capital baiana
e no Rio de Janeiro em honra a essa mesma santa.
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Sinal de luto:
Na procissão do corpo de Nossa Senhora,
realizada na sexta-feira, todas as mulheres da confraria
vestem-se de branco, cor que simboliza o luto para o povo
santo. |
Para preservar sua identidade cultural e fugir das terríveis
punições impostas pela Igreja católica
da época, as primeiras irmãs – as mães,
mulheres e irmãs de escravos fugidos – começaram
as cerimônias e rituais pedindo a intercessão
de Nossa Senhora da Boa Morte. “Elas vendiam quitutes
nas ruas para comprar a carta de alforria de outros escravos.
Pediam, então, a ajuda de Nossa Senhora para libertar
os escravos e conseguir voltar à África de-pois
da morte”, conta uma das senhoras da Irmandade. “E
nós continuamos a cumprir a promessa feita pelas nossas
ancestrais, de sempre agradecer a Nossa Senhora pela ajuda
obtida.”
Em Cachoeira, a festa de Nossa Senhora é realizada
desde o início do movimento abolicionista. Durante
68 anos, entre a organização da Irmandade (1820)
até a decretação da Lei Áurea
(1888), as irmãs faziam um ritual secreto e sem as
cerimônias católicas. Apenas rezavam suas novenas
e faziam o samba-de-roda (uma dança em que os participantes
fazem uma roda e batem palmas). Depois disso, é que
se celebrava a missa católica.
Ainda hoje a cerimônia preserva seus traços
característicos, marcados pela memória do sofrimento
dos escravos para alcançar a liberdade. Segundo os
pesquisadores, é exatamente este o significado da celebração
– o agradecimento a Nossa Senhora pela liberdade conseguida
com muito sacrifício, com a realização
de várias cerimônias, culminando com a assunção
da mãe de Jesus.
Em linhas gerais, a programação da festa de
Nossa Senhora de Boa Morte inclui a confissão na Igreja
Matriz, um cortejo representando a morte de Nossa Senhora,
uma vigília, ceia e uma procissão do enterro
da santa. Depois, é celebrada a ascensão de
Nossa Senhora, seguida de procissão e de uma missa
na Igreja Matriz da cidade.
Embora a mãe de Jesus seja cultuada o ano inteiro,
o ápice dessa devoção da Irmandade tem
uma data marcada: acontece com a celebração
da ascensão da santa. No calendário de duração
da festa de Nossa Senhora da Boa Morte, sexta-feira e sábado
são os dias dedicados aos cultos sagrados e secretos.
Em cerimônia privativa, as irmãs rezam para Nossa
Senhora enquanto queimam-se incensos na pequena casa ao lado
da Capela da Ajuda, local onde uma imagem de 300 anos de Maria
morta é arrumada e velada.
O sagrado dá passagem ao profano
Depois, é feita a saída em procissão
do corpo de Nossa Senhora. Durante o cortejo, a imagem tricentenária
da santa é carregada pelas irmãs que integram
a comissão da festa no ano. Durante toda a procissão,
elas são auxiliadas e se revezam no translado do corpo.
Todas vestem-se de branco, têm contas e brincos brancos
ou prateados, usam torço muçulmano também
branco e carregam tochas com velas acesas. O traje branco
é sinal de luto para o povo de santo. A missa de corpo
presente é feita em memória das irmãs
falecidas. As irmãs retornam com o caixão à
sede da sociedade. Velam Nossa Senhora e fazem rituais secretos.
Depois deles, oferecem uma ceia branca (peixes, pães,
arroz e vinho) à comunidade. Como no candomblé
a sexta-feira é um dia dedicado a Oxalá e como
esse orixá “não aprecia” dendê
e carne, esses ingredientes são proibidos nessa refeição.
Há quem diga que a ceia branca é preparada
para as irmãs falecidas. Assim sendo, é alimento
para egum (espírito de uma pessoa que já morreu)
e só pode ser comido na sede da Boa Morte. “Há
alguns anos, uma pessoa tentou levar comida embora e tomou
um soco de um egum, derrubando tudo no chão. Isso foi
um sinal de que os alimentos não deveriam ser comidos
fora da nossa sede”, recorda uma das integrantes da
confraria.
No sábado, na missa e na procissão simbolizando
a morte de Nossa Senhora, as irmãs usam seus trajes
de gala, as chamadas becas. A cabeça é coberta
por um lenço branco denominado bioco. Sobre a camisa
branca trazem um pano- da-costa de veludo preto.
Na cintura amarram um lenço branco sobre a saia preta
plissada e calçam chagrins (uma espécie de chinelo)
brancos.
Domingo é o dia que se comemora a ascensão
de Nossa Senhora ao céu. Para celebrar, as irmãs
da confraria oferecem uma feijoada à população.
Aí sim, começa a festa profana, bem do jeito
que o baiano gosta. Ela dá direito a muita comida,
bebida e a samba-de-roda. Como toda a festa que se preza na
Bahia, a alegria começa com data e hora marcadas...
mas só termina quando o fôlego acabar.
| Cachoeira,
monumento nacional |
Considerada monumento nacional e tombada pelo Instituto
do Patrimônio Histórico Artístico
em 1971, Cachoeira é a segunda cidade baiana
(a primeira é Salvador) que reúne o mais
importante acervo arquitetônico no estilo barroco.
Suas casas coloniais, igrejas e prédios históricos
preservam a imagem do Brasil Colônia, Império
e República, quando por três séculos
(do 17 ao 19) o comércio e a agricultura colocaram
o vilarejo no ranking de um dos mais prósperos
do País. Desde 2002, parte desse passado vem
sendo resgatado pelo programa Monumenta, do Ministério
da Cultura, e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID).
O primeiro passo desse projeto foi a restauração
da pequena Capela da Ajuda, uma construção
com características medievais e missionárias.
A capela foi edificada nos arredores do engenho de cana-de-açúcar,
em volta da qual se formou a povoação.
Em 1693, o povoado passou a se chamar Vila de Nossa
Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira. Erguida
entre 1595 e 1606 por Paulo Dias Adorno – fidalgo
português fundador do povoado que originou Cachoeira
–, a Capela da Ajuda foi ainda primeira sede da
Irmandade da Boa Morte.
Também já foram restauradas a casa onde
nasceu a enfermeira Ana Nery, que cuidou dos feridos
na Guerra do Paraguai; a cadeia e a Casa de Câmara.
Construído entre 1698 e 1712, esse imóvel
foi sede do governo da Bahia em dois períodos:
em 1822, abrigou a junta governativa nas lutas pela
independência da Bahia e entre 1837 e 1838, por
ocasião da Revolução da Sabinada.
Ao todo o Monumenta prevê a restauração
de 327 imóveis em Cachoeira. Entre eles, a Igreja
da Matriz (construída entre 1693 e 1754, abriga
os maiores painéis de azulejos portugueses com
cenários bíblicos da América Latina)
e o conjunto do Carmo, de 1702 (integrado pela Igreja
de Nossa Senhora do Rosário e Casa de Oração
da Ordem Terceira, reúne trabalhos em talha dourada
e imagens com influências orientais), além
da Santa Casa de Misericórdia e do antigo fórum.
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| O
que fazer na cidade |
Primeiro freguesia, depois vila, com mais de 300
anos de fundação e elevada à condição
de cidade há 166 anos, Cachoeira, ao lado de
São Francisco do Conde e Jaguaribe, é
uma das três mais antigas cidades baianas. Com
toda essa idade e história, Cachoeira abriga,
naturalmente, um deslumbrante casario colonial. Todo
esse conjunto de sobrados, praças, ruas, becos
e ladeiras merece ser conhecido.
Outro ponto turístico de destaque é
a Fundação Hansen Bahia. Ela reúne
aproximadamente 13 mil peças, entre xilogravuras
e matrizes, cópias assinadas e não assinadas
do gravador alemão Karl Heinz Hansen, naturalizado
brasileiro com o nome de Hansen Bahia.
O prédio da fundação é
do século 17 e serviu de hospedagem para o imperador
Dom Pedro II, em 1858, e para a princesa Isabel e o
Conde d´Eu, em 1885, na inauguração
da ponte Dom Pedro II (1822-1885), erguida em estrutura
metálica importada da Inglaterra. A ponte interliga
Cachoeira e São Félix, cruzando o Rio
Paraguaçu. É, por si só, outra
atração imperdível da cidade.
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