Ambiente
Era uma vez uma floresta Em 2008, Paragominas liderava a lista negra dos municípios campeões do desmatamento. Durante 40 anos, a cidade paraense conviveu com queimadas, serrarias ilegais e muitos tiroteios. Mas, no ano passado, recebeu o título de Município Verde, do governo estadual. Boa parte da floresta já se foi. Mas o futuro da Amazônia ainda está sendo definido lá.
Texto e fotos Heitor e Silvia Reali
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Pastagem sobre floresta queimada em Paragominas. |
Paragominas surgiu no fim da década de 1950, com a construção da rodovia Belém-Brasília, 300 km a nordeste da capital do Pará, com 19 mil quilômetros quadrados de área. Era um dos maiores municípios do país, com um território equivalente ao do Estado de Sergipe. Quando se sai da capital de automóvel e passa por outras cidades paraenses, a primeira impressão ao chegar ao município de 100 mil habitantes é que ele trocou de chip. Urbanizada e limpa, sem papel nas calçadas, sem pedintes ou crianças nas ruas em horário escolar, Paragominas é a cidade com a melhor rede escolar do Norte do país, e desde 2004 ostenta um índice de analfabetismo zero.
Nos últimos dois anos, o município vem desbancando outros na arrecadação fiscal e atraindo investimentos. A explicação é o seu novo polo industrial à base de madeira certificada – extraída segundo regras de baixo impacto ambiental –, o desenvolvimento da pecuária, o reflorestamento e a mineração. Em março de 2010, a cidade foi a primeira do Pará a conquistar o certificado de Município Verde. Um feito surpreendente diante da sua história traumática.
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Anúncio na Folha de São Paulo, em 1958, oferecendo terras em Paragominas: “Tempo certo para queimadas”. |
Fumaça nos olhos
Há quem diga que cada cidade guarda seus fantasmas, o difícil é se separar deles. Basta que a palavra “queimada” surja, e assombrações aparecem diante dos olhos e ouvidos de Paragominas. Até o fim da década de 1990, era comum o céu virar de azul para negro e a natureza se sufocar na fumaça das queimadas ateadas na floresta a fim de criar pastos para a pecuária. A atmosfera era sombria, e a população sofria com doenças pulmonares causadas pela fuligem.
Antes da labaredas, vinham madeireiros e aventureiros para extrair das matas todas as árvores valiosas. A invasão de terras e a usurpação das posses tornou-se regra, com pistoleiros de aluguel contratados para eliminar sindicalistas, padres, advogados e políticos. A cidade ganhou, então, o apelido de “Paragobalas”. “Cansei de ir a Paragominas para cobrir crimes, queimadas e doenças respiratórias de crianças para as revistas do Sul”, lembra o fotógrafo paraense João Ramid.
O fogaréu começou em 1958, quando Paragominas nasceu. Na época, o governo federal garantia a posse das terras para quem queimasse 50% das propriedades.
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Serraria ilegal em 2002, com plantações de eucalipto |
As cidades surgiam sob uma cultura do desmatamento. Um anúncio emblemático daquele ano, publicado no jornal Folha de S. Paulo, convida os forasteiros a adquirir lotes na região e oferece: “Melhor região ecológica do mundo para o zebu. Temperatura constante. Tempo certo para queimadas”. O regime militar instaurado em 1964 também incentivou a expansão da pecuária e, entre 1966 e 1983, distribuiu subsídios para empresas e madeireiras, sob lemas como “integrar para não entregar” e “Amazônia: terra sem homens para homens sem terra”.
Em 1987, um levantamento do Sistema da Situação Fundiária, Ambiental e Social do Pará constatou a existência de 403 serrarias na cidade, a maioria ilegal. Paragominas era a maior concentração de serrarias do mundo. À extração intensiva da madeira nobre, seguia-se a queima extensiva da floresta e sua substituição pelo capim e o boi. Consumida a mata, a indústria “itinerante” da madeira se deslocava adiante, derrubando novas áreas, sempre atrás das espécies valiosas, abrindo caminho como batedores de queimadas. Foi assim que quase desapareceram as florestas do nordeste paraense.
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Florestas devastadas pelo fogo. |
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