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REVISTA PLANETA
EDIÇÃO 471

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HOME: REVISTA: Entrevista Dezembro/2011

Não há planeta para tanto lixo
Dar destino correto aos 30 bilhões de toneladas de lixo gerados anualmente pela humanidade é um problema cada vez mais complexo. A cada ano, o desafio aumenta. O caminho para solucioná-lo passa por uma mudança profunda na maneira como consumimos.


Por Eduardo Araia

Foto: shutterstock / divulgação

O professor paulista Maurício Waldman recorreu a ferramentas multidisciplinares - como um doutorado em geografia, um mestrado em antropologia e uma gradução em sociologia - para escrever Lixo: cenários e desafios (Cortez Editora), um dos dez finalistas do Prêmio Jabuti 2011 em Ciências Naturais. Resultado de uma tese de pós-doutoramento em geografia na Universidade de Campinas (UNICAMP), seu trabalho traça uma radiografia assustadora da questão do lixo no mundo e no Brasil, lastreada em mutos números. Waldman sublinha que não há planeta para tanto lixo e que só uma revisão dos hábitos de consumo pode trazer uma saída para o problema.

 

Maurício Waldman
É pós-doutor em geografia pela Unicamp e autor do livro Lixo: cenários e desafios, um dos finalistas do Prêmio Jabuti 2011.

Em seu livro o sr. afirma que, embora o Brasil tenha 3,06% da população mundial e responda por 3,5% do PIB mundial, descarta 5,5% do total dos resíduos planetários. Como chegou a esses números?
Minha pesquisa envolveu a investigação de dados primários e documentais, lastreada com grande preocupação sobre dados quantitativos e qualitativos. Importa lembrar que não basta obter números, mas também conhecer os processos que os geram e o que tais números significam em seu conjunto na escala do tempo e do espaço. Há muitas fontes, e cito algumas aqui: Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), Banco Mundial, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), agências das Nações Unidas e Ongs como a Greenpeace. Foi um trabalho imenso. Também examinei legislações, sobretudo o Plano Nacional de Redução das Emissões (PNRE) e a lei nº 12.305, de agosto de 2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).

 

Cerca de 1 milhão de catadores reciclam 13% do lixo produzido no Brasil. Sem eles, não haveria indústria de reciclagem. Mesmo assim a sociedade os discrimina.

 

A que o sr. atribui a má performance brasileira?
Há uma performance cultural, de percepção, de índole antropológica e simultaneamente geográfica. Como dizia Abraham Moles, vivemos numa sociedade que produz para consumir e cria para produzir, num ciclo em que a noção fundamental é a velocidade e a descartabilidade dos materiais. Ou seja: somos uma civilização dedicada a gerar lixo. O mundo gera 30 bilhões de toneladas de lixo por ano. Não há mais espaço para depositar resíduos, e a questão de onde colocá-los virou um enorme problema logístico. Nova York, hoje, descarta lixo a 500 km de distância. O Brasil não fica atrás. Segundo o relatório de 2010 da Abrelpe, a média de lixo domiciliar de cada brasileiro, de cerca de um quilo, é semelhante à de um europeu. Porém, nossas classes afluentes geram muito lixo, enquanto as classes humildes geram pouquíssimo. É assim que se chega a uma média europeia. Algo está profundamente errado nisso, relacionado ao processo socioeconômico de geração de lixo e agravado pela falta de política pública no setor.

 

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