Ecologia acústica A natureza emite mensagens por meio de sons que muitos não conseguem interpretar, pois é possível ouvir e não escutar. Mas, para preservá-las e protegê-las há cada vez mais ecologistas acústicos.
Por Maíra Lie Chao
 |
Gordon Hempton: 7 mil gravações de "músicas" da natureza. |
Como presente pelos seus 80 anos, o brasileiro Johan Dalgas Frisch deu-se de presente uma viagem aos Estados Unidos, em 2010, para ouvir o canto do sabiá do Texas, um dos melhores tenores naturais americanos. Depois de apreciar sua canção, foi para Miami, na Flórida, procurar outros pássaros. "Fui tomado de uma profunda tristeza ao constatar que, no fim de 20 dias, avistara apenas um solitário pardal", frisa. "Em compensação, havia por toda a parte aves velozes de plumagem brilhante: Rolls-Royces, Ferraris, Porsches e Mercedes."
Frisch é um ornitólogo ativo desde os anos 60, autor do livro Para Que as Primaveras Não Se Calem para Sempre, e um connoisseur dos sons da natureza. Essa habilidade humana crucial para a sobrevivência vem se perdendo. Primeiro porque "depois da Revolução Industrial, um número crescente de paisagens sonoras desapareceu completamente ou se transformou em uma nuvem homogênea de sons urbanos contemporâneos, cheia de trânsito", afirma o biólogo Kendall Wrightson, num artigo publicado no Journal of Acoustic Ecology. Em segundo lugar, porque, em meio à poluição sonora, selecionamos os sons que julgamos importantes e descartamos o restante.
"Escutar, ou seja, ouvir com atenção, é uma atividade que muita gente entende errado. É comum pensar que basta focar em algum som e ignorar os demais. Para mim, isso não é escuta, mas deficiência controlada", explica o norteamericano Gordon Hempton, que tem 30 anos de carreira como caçador de sons e 7 mil gravações de "músicas" da natureza, cada uma com duas horas de duração. Hempton, tal como Frisch e Wrightson, é um ecologista acústico, um ambientalista preocupado em preservar a natureza física dos ambientes e a paisagem sonora composta por todos os sons que permeiam o espaço, emitidos por todos os seres. "Para mim, um ecologista acústico é, acima de tudo, uma pessoa que sabe escutar. O que fazemos é tratar todos os sons com igual importância para saber interpretá-los", afirma.
A ecologia acústica nasceu no início dos 70, com a criação do Projeto das Paisagens Sonoras Mundiais, liderado por Raymond Murray Schafer, da Simon Fraser University, no Canadá. Em 1993, foi criado o Fórum Mundial para Ecologia Acústica, cujo objetivo é a conscientização sobre os efeitos sonoros por meio de gravações, bases de dados, pesquisas acadêmicas e trabalhos artísticos. Segundo Schafer, o mundo é uma composição musical que se desenrola a nossa volta; somos, simultaneamente, audiência, performers e compositores.
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>
|