Rio de histórias Cenários poéticos repletos de lendas e paisagens deslumbrantes surgem nas curvas do Rio Danúbio, no Vale do Wachau, na Áustria. Nos seus castelos ficou preso o rei Ricardo Coração de Leão e nas suas abadias foram preservados manuscritos da Antiguidade. A Europa Central, barroca e católica, pode ser revelada por um cruzeiro de navio.
Texto e fotos Mariuccia Ancona Lopes
Tesouro barroco
Foi exatamente essa abadia e sua biblioteca que inspiraram o escritor italiano Umberto Eco a escrever o clássico O Nome da Rosa. Um dos personagens da trama sobre a ação da Inquisição chama-se Adso de Melk. Hoje, a biblioteca de Melk reúne incontáveis manuscritos medievais e partituras e exibe no teto afrescos de Paul Troger, um dos mais afamados artistas do Barroco austríaco.
Seus edifícios sofreram várias reformas, sendo a última financiada pela venda de um exemplar da coleção, um original de 1455 da Bíblia de Guttenberg - o primeiro best-seller mundial -, adquirido pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos. A fachada reformada é do século 18, as escadarias luxuosas chegam a dar vertigem e os salões abrigam exposições. Há também uma pequena igreja barroca, de cujo átrio se veem a aldeia e as curvas do Danúbio.
O damasco é a base dos produtos do vale que também produz os melhores vinhos brancos da Áustria. |
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Nessa região conturbada, campo de batalha de tantas guerras, foi a importância acadêmica que salvou a abadia da dissolução. O imperador José II confiscou vários conventos sem funções sociais. Por sorte, Melk escapou da destruição nas Guerras Napoleônicas e sobreviveu ao nazismo, quando parte da escola foi confiscada pelas autoridades do Anschluss, a anexação da Áustria por Hitler, em 1938.
O Wachau produz alguns dos melhores vinhos brancos da Áustria, secos e doces, com uvas Rieslings, além dos celebrados Grüner Veltiners. No vale todo há 1.390 hectares de vinhedos que produzem cepas varietais como Neuberger e Gelber Muskateller, controlados pela Vinea Wachau Nobilis Districtus, a associação que classifica os vinhos do Wachau como Steinfeder, Federspiel e Smaragd.
Algumas bebidas são servidas a bordo do cruzeiro, durante o jantar, como parte de uma experiência cultural que vem se tornando rota de "connaisseurs". Outra vivência importante é a apresentação de conjuntos de música de câmara a bordo, como um trio de violinos e violão, que oferece composições de artistas austríacos como Schubert, Strauss, Haydn, Mahler e o celebrado Mozart, que circulou amplamente pelos palácios da região.
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| Acima, o Castelo Schönbühel. Abaixo, a biblioteca do século 12, da Abadia de Melk, que inspirou o livro O Nome da Rosa, de Umberto Eco. |
Vale de guerras
Embora a presença do homem no Vale do Wachau recue até o Neolítico, quando começou o cultivo de terras ao longo do Danúbio, nenhuma mudança considerável aconteceu até o ano 800, quando os mosteiros da região começaram a plantar uvas em terraços, método utilizado até hoje.
Como outras partes da Europa Central, o vale sofreu inúmeras e repetidas invasões, entre as quais se destacam a dos povos celtas e mais tarde os romanos, que fizeram do Danúbio a fronteira Norte do seu império. No ano 976, Wachau ganhou seu primeiro rei, Leopoldo ll, dos Babenbergs.
Graças à ausência de uma autoridade estatal adequada, durante a Idade Média, as cidades do Wachau foram bastante independentes. O vale foi rota de cruzados e, após os Habsburgos terem consolidado seu poder na região, foi invadido pelos húngaros, comandados por Mathias Corvinus, no século 15.
As reformas protestantes também provocaram impacto entre 1530 e 1620, mas os levantes religiosos foram subjugados pela reação comandada pelo abade Georg II Falb (1612-31). A vitória católica levou à construção de igrejas, capelas e monumentos presentes na região.
Como parte do Império Austro-Húngaro, o Wachau sofreu com várias guerras, como a Guerra dos 30 Anos, da Suécia e da França contra os Habsburgos (1618-1648), as Guerras Napoleônicas (1799-1815), e as duas Guerras Mundiais (1914-1918 e 1939-1945). Atualmente, parece ter reencontrado sua vocação pacífica com o turismo cultural sustentável. |
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