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EDIÇÃO 469

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HOME: REVISTA: Espiritualidade Outubro/2011

Espiritualidade
Taketina: ritmos para o corpo e a mente
Criada há 40 anos pelo músico austríaco Reinhard Flatischler, a taketina utiliza a execução simultânea de vários ritmos para produzir mudanças em funções essenciais do corpo humano. A técnica, que beneficia tanto a saúde mental quanto a física, desperta interesse crescente entre pesquisadores.


por Ieda Estergilda de Abreu

A palavra por si só já desperta curiosidade: taketina. O que é? No original, as consoantes em maiúscula nos induzem a ler separando as sílabas: TaKeTiNa. Sentiu o ritmo? Essa é uma técnica que utiliza o ritmo pelo corpo, envolvendo ao mesmo tempo palmas, passos e vocalizações, com o intuito de transformar a mente - um misto de música, educação e terapia sem ser musicoterapia, new age, ritual xamânico ou de candomblé. Trata-se de um processo original para acessar o ritmo que todos temos, relaxando e revitalizando o corpo, criando música natural e orgânica.

A técnica, que já tem 40 anos, é o resultado de décadas de pesquisas do músico austríaco Reinhard Flatischler, aluno de mestres de grandes tradições rítmicas, como a cubana, a africana, a coreana, a japonesa, a brasileira, a árabe, a indiana e a tailandesa. Fundador e líder do grupo MegaDrums, que agrega percussionistas como o brasileiro Airto Moreira, ele foi um dos primeiros a reconhecer que os ritmos neurológicos vegetativos controladores das nossas funções essenciais podem ser influenciados por movimentos externos.

Ao pesquisar os elementos básicos do ritmo, Flatischler descobriu a possibilidade de cultivar uma mente mais estável e um corpo mais presente por meio de ritmos complexos e musicalmente desafiadores. Em 1989 e 1999, o artista realizou, junto com a Associação Alemã para a Terapia da Dor, o TaKeTiNa Rhythm Research Project, que contribuiu para vá rios pacientes mostrarem melhoras inesperadas.

Desde 1970 muitas pessoas têm experimentado o impacto do processo rítmico na mente, no corpo e na alma, traduzido em alegria, presença, complexidade e intensidade. Com o interesse de médicos e cientistas em pesquisar os efeitos da terapia sobre o sistema nervoso e a consciência, a aplicação dos resultados em cardiologia, medicina esportiva de alto desempenho, fisiologia, medicina geral e pesquisa do estresse já está acontecendo.

O som do surdo marca o ritmo inicial da técnica, em workshop da professora Ana Thomaz.

Os primeiros seminários de taketina ocorreram na Índia e na Europa. Ainda nos anos 1970, no Pan Music Festival, em Seul, a técnica entrou no currículo do Centro de Drama da capital sul-coreana. Hoje, Flatischler oferece workshops regulares na Europa, na Austrália e nos Estados Unidos, onde mantém um curso de formação de professores em Portland, no Estado do Oregon. Há mais de 200 professores de taketina trabalhando no mundo em diversas áreas. Atualmente, o músico austríaco conduz uma pesquisa com a Sociedade de Investigação Cronobiológica, em Viena (Áustria), para documentar os efeitos da técnica sobre a ritmicidade (qualidade do ritmo) do corpo. Os resultados preliminares revelam que é possível estimular frequências cardíacas que também ocorrem durante o sono profundo e a meditação profunda.

Percepção ampliada
A professora paulista Ana Thomaz - que conheceu a taketina na Inglaterra, onde fez dois workshops - é a responsável pelas vindas ao Brasil do psicólogo alemão Henning von Vangerow, professor avançado de taketina. Surpresa com os resultados corporais conquistados na primeira vivência, Ana sentiu que havia atingido outra relação com o ritmo, com a coordenação e com o tempo: "Continuei sentindo aquele trabalho reverberando no meu dia a dia, senti que algo transmutara minha percepção." Ela retornou para o Brasil e desde 2009 realiza workshops anuais de taketina no seu espaço, localizado no bairro paulistano da Aclimação. Ana descreve assim a técnica:

"Em uma roda, somos convidados a desenvolver um ritmo, tendo como base o som do surdo. Uma vez que esse ritmo esteja bem estabelecido no grupo, o que já cria uma sensação incrível, partimos para a polirritmia: mantemos o ritmo inicial e adicionamos outro com uma parte diferente do corpo. Com isso o sistema nervoso central entra em um estado singular. São dois ritmos diferentes ao mesmo tempo, no mesmo corpo, junto com um grupo, um surdo dando a base e um berimbau nos apresentando outros caminhos! Então partimos para um terceiro ritmo."

Segundo Ana Thomaz, quando mãos, pés e voz produzem ritmos diferentes ao mesmo tempo, a taketina chega ao auge. "Nesse momento já não podemos estar em nenhum outro lugar além do estado presente; o presente se amplia e ganha passado e futuro. O corpo todo desperta, os dois hemisférios do cérebro sintonizam a mesma frequência, vive-se um estado de meditação ativa!"

A finalidade da polirritmia é forçar a mente analítica a relaxar o controle propondo-lhe uma tarefa complexa demais para administrar. "Você está num reino onde a mente não tem chance - não existe forma pela qual você possa controlar e monitorar todas essas batidas", diz Flatischler. Com o tempo, afirma o músico austríaco, a prática "estabelece o vazio e o profundo silêncio na mente que o zen, a ioga e todos esses caminhos estão procurando".

 

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