No mundo da mulher xavante Entre os xavantes, são os homens que transmitem o conhecimento ancestral e tomam todas as decisões, mas o papel da mulher é muito forte. Elas sabem tudo que acontece, e opinam por intermédio dos maridos. Há 17 anos, a fotógrafa, produtora e socióloga Cristina Floria acompanha de perto a vida na aldeia Etenhiritipá, em Mato Grosso
Por Ieda Estergilda de Abreu fotos: Cristina Flória
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Na aldeia xavante Etenhiritipá, localizada na terra indígena Pimentel Barbosa, em Canarana, Mato Grosso, as fogueiras estão acesas e as casas, aquecidas. Lá dentro, as mulheres aguardam os homens saírem do warã (assembleia), onde estiveram desde o entardecer refletindo sobre os acontecimentos do dia. Ao amanhecer, eles se reunirão novamente para discutir, com base na interpretação dos sonhos, como será o novo dia. E retomarão os assuntos tratados na noite anterior.
Terminado o warã, as mulheres já estão nas tarefas domésticas. Silenciosas, sem interrupção nem pressa, elas enfrentam o calor do cerrado e vão cuidar da roça, plantar, colher e trazer alimento. Também buscam lenha, pilam arroz, fazem enfeites para os rituais, esteiras e cestos para guardar a comida, carregar os bebês nas costas. Agem assim desde jovens, trabalham duro até as vésperas da gravidez. Os homens auxiliam na roça, as crianças também ajudam. Sempre rindo, brincando ou dentro dos cestos suspensos nas costas das mulheres pela alça apoiada na testa, os pequenos xavantes chegam a transportar até seis garrafas de dois litros de água. A rotina é aceita como parte da natureza para os que vivem de frente para a Serra do Roncador.
Entre os xavantes, são os homens que transmitem o conhecimento ancestral e tomam todas as decisões, mas o papel feminino é muito forte em toda a estrutura de sobrevivência. Embora não participem das decisões, as mulheres sabem tudo o que acontece e também opinam por intermédio dos maridos que integram o warã.
Há 17 anos, a fotógrafa, produtora e socióloga Cristina Flória acompanha de perto a vida dos xavantes na aldeia Etenhiritipá. Seu contato começou ao integrar a equipe permanente do Núcleo de Cultura Indígena (NCI), organização não governamental, com sede em São Paulo, criada e dirigida por líderes indígenas. A amizade foi se estreitando nesses anos, e ela participou de vários projetos, entre eles, os documentários A'uwe Uptabi - O Povo Verdadeiro (1999), e Piõ Höimanazé - A Mulher Xavante em Sua Arte (2008).
"Queria me aproximar das mulheres, pois meu trabalho dentro da comunidade sempre foi com os homens", diz Cristina. "Acho que isso foi possível porque, como eu, elas queriam muito que ele acontecesse. Da convivência surgiu a confiança para revelar o seu universo feminino, no documentário inédito sobre as xavantes, que pela primeira vez estiveram diante de uma câmera falando para um warazu (não índio) sobre questões femininas da etnia."
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