Saartjie - a vênus hotentote Há quase 200 anos, na Europa, partes do seu corpo fizeram dela uma atração circense. Hoje, na sua terra natal, a África do Sul, ela se tornou um símbolo da identidade africana e da luta contra o racismo
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Uma das representações europeias de Saartjie. O anjo desenhado sobre suas nádegas visava a atenuar o apelo sexual que os ocidentais da época enxergavam em sua figura. |
Em agosto de 2002, na Cidade do Cabo (África do Sul), aconteceu o funeral solene de Saartjie Baartman, a quem foram reservadas todas as honras de um chefe de Estado. Saartjie morreu há 194 anos, mas só em 2002 o que restava dela foi levado para sua terra natal: um esqueleto e dois frascos de vidro – um contendo seu cérebro e o outro, seus órgãos sexuais, conservados em formol. Durante quase dois séculos esses restos ficaram expostos no Museu do Homem, em Paris, depois que, em dezembro de 1815, o médico Georges Cuvier fez a autópsia da mulher que, em vida, ficou conhecida como a “Vênus Hotentote”.
Saartjie pertencia ao povo khoisan, a mais antiga etnia humana estabelecida na parte meridional da África, que os primeiros invasores europeus chamaram de hotentotes ou bosquímanos. Foi assumida como serva pela família Baartman, agricultores holandeses que moravam nas proximidades da Cidade do Cabo. Eles lhe deram o nome de Saartjie (“Pequena Sara”) Baartman. O irmão do seu patrão lhe propôs levá-la em turnê pela Europa, prometendo-lhe a metade do valor dos bilhetes que seriam pagos para vê-la.
Saartjie tinha apenas 1,35 metro de altura e era considerada particularmente bonita entre as mulheres do seu povo. Tinha características físicas pelas quais, desde a mais remota antiguidade, as mulheres bosquímanas se notabilizaram: nádegas enormes e elevadas (como traço característico da sua etnia, os bosquímanos acumulam gordura não sobre a barriga, mas sobre as nádegas) e os pequenos lábios vaginais muito desenvolvidos (aumentados de 8 a 10 cm a partir da virilha, para baixo), e chamados de “avental hotentote”.
No “espetáculo” organizado pelo irmão de Baartman, Saartjie aparecia presa a uma corrente (nua, porém com a vagina coberta) e caminhava de quatro, de maneira a ressaltar o seu traseiro e sublinhar a natureza “animalesca” que, naqueles tempos, costumava-se atribuir à sensualidade. Ela, no entanto, sempre afirmou fazer aquilo por sua livre e espontânea vontade, para ganhar dinheiro. Em Londres, Saartjie se casou com um homem originário do Caribe e teve dois filhos: ela tinha, portanto, uma vida própria, inclusive quando era exibida como um fenômeno de circo.
ALÉM DE SERVIR COMO CHAMARIZ DE PÚBLICO PARA OS CIRCOS NOS QUAIS FOI EXIBIDA, SAARTJIE ATRAIU A ATENÇÃO DE ARTISTAS E CIENTISTAS DE SUA ÉPOCA
Depois de uma estadia em Londres que durou três anos e meio, Saartjie foi para Paris, onde um amestrador de animais a exibiu durante 15 meses, fazendo propaganda das suas nádegas e dos seus pequenos lábios (“parecidos às barbelas do peru”, como eram descritos nos folhetos de propaganda). Posou nua para “retratos cientí- ficos” no Jardin du Roi, foi examinada por todos os cientistas mais importantes da época (entre os quais o célebre médico George Cuvier), mas adoeceu e, em vez de retornar rica para a África do Sul, como havia sonhado, morreu na Europa de uma doença infecciosa, em dezembro de 1815. Cuvier fez a autópsia e removeu toda a região púbica de Saartjie. Esses despojos, conservados em formol, foram depois expostos no Museu do Homem, em Paris. Só em 2002 o parlamento francês aprovou uma lei para que os restos fossem levados para a África do Sul.
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As imagens de Saartjie salientavam as nádegas. Suas características a levaram a ser examinada por cientistas famosos. |
Saartjie foi o caso mais famoso de uma mulher hotentote levada em turnê, mas não foi o único. Há séculos, indígenas das terras “recém-descobertas” eram levados em turnê pela Europa como curiosidades. Mas, no século 19, explodiu a moda dos circos com grandes animais ferozes: por que, então, não juntar a eles alguns “humanos ferozes”?
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Nasceram assim os zoológicos humanos. O pioneiro foi o de Phineas Barnum (1810-1891), o dono do Circo Barnum. Os hotentotes foram os mais expostos nesses zoos: em Berlim, por exemplo, foi realizada a exposição “Trogloditas africanos”; em 1886, fez um sucesso estrondoso a exposição “Pigmeus da África”, no Folies Bergère, em Paris. Já na primeira metade do século 16, centenas de índios brasileiros tinham sido levados para a Europa, sobretudo a França. Ficou famosa a grande festa “Guerra dos Tupinambás”, encenada na cidade de Rouen em 1550, em homenagem ao rei Henrique II, na qual cerca de 50 índios brasileiros e mais 250 figurantes franceses fantasiados de índios representaram uma batalha campal diante da corte estupefata do soberano.
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