Michel Rinpoche
"Minha visão idealista da religião já foi colocada em xeque" Aos 12 anos, e por escolha própria, Michel foi morar num mosteiro budista no sul da Índia e se tornou lama. Hoje, aos 26 anos, é visto pelos tibetanos como a reencarnação de Drubtchok Samdrup, sábio budista do século 15
Por Carina Rabelo
 |
Michel: desgosto com os monastérios, mas certeza da importância da religião em sua vida. |
BUDISMO ESTÁ CADA VEZ MAIS POPULAR NO BRASIL. SEGUNDO O IBGE, SÃO 246 MIL SEGUIDORES, NÚMERO TRÊS VEZES MAIOR QUE O DE JUDEUS E DUAS VEZES MAIOR QUE O DE SEGUIDORES DO CANDOMBLÉ. A QUE ATRIBUI O INTERESSE DOS BRASILEIROS PELO BUDISMO? Mais do que uma religião, o budismo é uma filosofia de vida e uma crença sem dogmas ou proselitismo. O conceito principal é a transformação interior. No Brasil, há várias tradições vinculadas à cultura dos imigrantes chineses e japoneses. Como não existe comunidade tibetana no Brasil, quem segue essa tradição do budismo aqui é motivado por uma identificação pessoal, não por ter recebido os ensinamentos da família. A popularidade do budismo no mundo pode ser explicada pelo fato de ele nos trazer muitas respostas e uma vida mais satisfatória e feliz. Lida com nossas dificuldades, conflitos internos, e nos ajuda a chegar ao equilíbrio. Além disso, é uma religião que não quer crescer ou converter ninguém. Os ensinamentos exigem uma sinceridade verdadeira e deixam claro que não basta fazer apenas a parte cerimonial.
ALGUNS BUDISTAS MISTURAM AS PRÁTICAS DA RELIGIÃO COM AS PRÓPRIAS CRENÇAS E PEGAM CARONA NO ESOTERISMO. OS VERDADEIROS PRESSUPOSTOS DA RELIGIÃO TÊM SIDO RESPEITADOS PELOS NOVOS ADEPTOS OU HÁ DISTORÇÕES? Em todas as tradições religiosas, diferentes formas de práticas, cerimônias e simbologias são elaboradas para representar a essência do signifi- cado religioso e se manter na cultura local. O risco é se tornar apenas um ritual sem o significado profundo. Muitas pessoas que apenas seguem rituais não entendem que a transformação de sentimentos não ocorre de forma intelectual, mas natural. Ninguém se prepara para ficar com raiva, por exemplo. O sentimento vem. Não se pode lidar com as emoções apenas com o conhecimento intelectual. É necessária a meditação, que é um método mais profundo. Alguns centros budistas no Brasil mantêm a tradição de forma fiel. Outros misturam budismo, hinduísmo e religiões dos índios da América e fazem uma grande sopa. Não diria que é negativo, mas não é o que eu seguiria. Cada tradição tem sua particularidade e um caminho próprio.

MUITAS PESSOAS SE INTERESSAM PELO BUDISMO A PARTIR DOS BENEFÍCIOS DA MEDICINA ALTERNATIVA, ALIMENTAÇÃO NATURAL, IOGA E TÉCNICAS DE RESPIRAÇÃO. ACREDITA QUE ESSAS PESSOAS QUE SE INICIARAM NO BUDISMO PARA ATINGIR UM OBJETIVO ESPECÍFICO SE ENTREGAM DE FATO À RELIGIÃO COM O TEMPO? Sez o interesse se limitar às razões marginais, instrumentais, e não aos aspectos fundamentais da religião, a pessoa desistirá quando lhe for exigido um esforço maior. Mas, se houver um interesse em aprofundar o conhecimento, vai se dedicar mais à religião, talvez, com uma entrega total.
QUAL É A DIFERENÇA ENTRE O BUDISMO TIBETANO, COREANO, JAPONÊS, CHINÊS E DO SUDESTE DA ÁSIA? A base é a mesma: as Quatro Nobres Verdades. 1) O sofrimento existe. Trata-se do reconhecimento do estado pessoal no momento. Não posso sair de uma situação ruim sem reconhecê-la como negativa. 2) Causas do sofrimento. Entender, não apenas intelectualmente, o que nos faz sofrer. A razão está sempre dentro da pessoa, nunca é externa. 3) Verdade da secessão. É possível sair do ciclo de sofrimento e ser feliz, ou seja, atingir a iluminação, que consiste na eliminação completa de todos os venenos mentais e em desenvolver ao máximo nossas qualidades internas. 4) Caminho interior. Mostra como é possível eliminar o sofrimento através de métodos padronizados e por vias individuais. Os conceitos fundamentais, como carma e reencarnação, também são comuns a todas as tradições, que levam ao mesmo resultado. Há pequenas diferenças de princípios. No sudeste da Ásia, a ênfase do budismo está na liberação pessoal do sofrimento; no norte, o enfoque é no desenvolvimento do amor e da compaixão por todos os seres.
"O BUDISMO NÃO USA CELEBRIDADES PARA CONVERTER PESSOAS, PORQUE NÃO SE PODE FORÇAR ALGUÉM A FAZER UMA OPÇÃO RELIGIOSA SÓ PELA EMOÇÃO"
NOS ANOS 1990, A LINHA TIBETANA TORNOU-SE POPULAR DEPOIS QUE O DALAI LAMA GANHOU O NOBEL DA PAZ E APÓS A CONVERSÃO DE CELEBRIDADES COMO RICHARD GERE E HARRISON FORD. NA MESMA ÉPOCA, AS ATRIZES CHRISTIANE TORLONI, CLÁUDIA RAIA E LETÍCIA SPILLER SE DECLARARAM BUDISTAS. ACREDITA QUE HÁ UM MERCADO INTERNACIONAL DA FÉ BUDISTA? As pessoas com uma imagem conhecida têm grande influência na vida das demais. Acho importante que elas usem esse poder de forma positiva, não apenas para ostentar a própria imagem, ganhar mais dinheiro ou promover uma empresa. Se uma pessoa, famosa ou não, encontra respostas positivas no budismo e quer compartilhar isso com os outros, não vejo nenhum problema que utilize os meios que tem. O budismo não procura celebridades para promover a religião ou converter pessoas, porque não se pode forçar uma pessoa a fazer uma opção religiosa só pelo coração, pela emoção.
O DALAI LAMA É ASSÍDUO NOS DEBATES SOBRE QUESTÕES GLOBAIS, COMO MEIO AMBIENTE, ECONOMIA E POBREZA. HÁ UM INTERESSE DO BUDISMO DE SE FAZER PRESENTE NO ÂMBITO POLÍTICO? Por um lado sim, pelo fato de o budismo ser uma filosofia viva. Ele lida com as questões políticas que afetam a vida das pessoas. Mas acredito que a religião, como um todo, deve ficar fora da política. Uma coisa é um religioso dar seu ponto de vista; outra é a religião tomar partido politicamente. O budismo deve estar nos problemas do dia a dia, na forma como se trabalha, de como se vive com a família. Mesmo que essa ação se reflita nos problemas globais, não deve ser esse o objetivo principal da religião. Diferentemente do Vaticano, que é um Estado com um líder soberano, o budismo não é centralizado, não há uma hierarquia. O dalai lama é o líder espiritual da tradição tibetana mais conhecido internacionalmente, mas não é o papa do budismo. A postura política dele é uma decisão pessoal. O budismo não quer ter uma posição na cena internacional.
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>
|