Línguas em perigo Línguas nascem, crescem e também morrem, mas nunca tantas delas foram extintas como nas últimas décadas. Uma obra recém-lançada pela Unesco faz o balanço de cerca de 2.500 idiomas sob risco ao redor do mundo e apresenta formas de reverter esse processo
Se 200 idiomas morreram nas últimas décadas, 199 estão bem perto disso: as pessoas que fazem uso de cada um deles não ultrapassam dez. Outros 178 não têm muito a comemorar, pois o número de seus usuários está entre 10 e 50. Mas esse cenário não chega a representar um cataclismo linguístico. Papua-Nova Guiné, por exemplo, é o país com a maior diversidade linguística da Terra (mais de 800 idiomas) e também figura como um dos que, proporcionalmente, têm um reduzido número de línguas ameaçadas (88). Por outro lado, alguns idiomas, embora classificados como extintos no Atlas, têm sido objeto de uma ativa revitalização, tais como o córnico (da Cornualha, região do sudoeste da Inglaterra) e o sîshëë (da Nova Caledônia, ilha do Pacífico). É possível, assim, que eles voltem a ser bem vivos, aproveitando-se de exemplos de revitalização notáveis, como o catalão (da Catalunha, região nordeste da Espanha), o galês (do País de Gales) e o hebraico (hoje língua oficial de Israel).
Pela primeira vez, os linguistas sabem quantos idiomas há no mundo. eles também já compreendem melhor o que fragiliza as línguas e como se pode defendê-las |
Radiografia das línguas
O Atlas Unesco das línguas em perigo no mundo (3ª edição; sua versão online está disponível no endereço http://www.unesco.org/culture/ich/index.php?pg=00206), lançado este ano, tem o objetivo de conscientizar políticos, comunidades e o público em geral a respeito do perigo corrido por vários idiomas e da necessidade de preservar a diversidade linguística do mundo. Organizada por mais 30 linguistas e financiada pelo governo da Noruega, essa versão da obra apresenta dados atualizados relativos a 2.511 línguas em perigo. Ela serve, assim, como uma ferramenta de monitoramento do status de idiomas em perigo e das tendências da diversidade linguística em nível mundial. Poderá ser completada, corrigida ou atualizada permanentemente, graças à colaboração de seus usuários. Como se trata de uma ferramenta digital interativa, o Atlas permite proceder a pesquisas de acordo com vários critérios. Além do registro “extinta” (a partir de 1950), ele classifica as línguas ameaçadas de extinção segundo quatro níveis de vitalidade: vulnerável, sob ameaça, seriamente ameaçada e em situação crítica. A Unesco promete para os próximos meses uma versão impressa da obra, a ser publicada em inglês, francês e espanhol.
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Símbolo da arrogância humana, a diversidade linguística associada à Torre de Babel (página ao lado, abaixo, à esquerda) representa também um valioso patrimônio cultural imaterial. À direita, nativos de Papua-Nova Guiné, país com mais de 800 idiomas. Abaixo, à direita, índio pataxó do Brasil, país no qual estão ameaçados 190 idiomas, todos indígenas. |
Deve-se salientar ainda que políticas linguísticas favoráveis têm ajudado a aumentar o número de falantes de diversas línguas autóctones. Inserem-se nessa condição o maori, na Nova Zelândia, o aimará central e o quíchua, no Peru, e o guarani, no Paraguai, afora alguns idiomas do Canadá, EUA e México.
O Atlas mostra também que, por razões econômicas e em decorrência de políticas linguísticas diferentes ou de fenômenos sociológicos, o grau de vitalidade de uma língua é variável segundo os países em que ela é falada. Grandes línguas com um passado colonial, como o inglês, o francês e o espanhol, logicamente têm uma vitalidade invejável, mas Christopher Moseley considera “ingênuo e simplista” afirmar que elas são sempre responsáveis pela extinção de outros idiomas. “O fenômeno tem a ver com um equilíbrio de forças sutil; aliás, o Atlas permite que o usuário possa compreender melhor tal equilíbrio”, afirma.
Diversas razões levam uma língua a morrer, e entre as principais está o desinteresse das novas gerações por ela. Com isso, a morte dos falantes mais velhos acaba por sepultá-la. Na África Oriental, por exemplo, o suaíli – falado desde o sul da Somália até o norte de Moçambique – ameaça 30 dialetos na Tanzânia. O fato de ter conquistado a posição de língua comum numa ampla região africana torna seu aprendizado muito interessante, em termos profissionais, para a grande maioria dos jovens dos países onde é utilizado (Tanzânia, Quênia, Ruanda, Burundi, Uganda, República Democrática do Congo, Somália, Moçambique e Ilhas Comores). Isso, naturalmente, relega outras línguas a plano secundário nessa região.
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