O futuro do planeta
Qual será o rosto da TERRA amanhã? Série de matérias que descrevem algumas das grandes transformações pelas quais passará nosso planeta
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Jane Goodall
Uma das grandes primatologistas da atualidade, especializada em chimpanzés, diretora do Instituto Jane Goodall |
Será o fim dos GRANDES PRIMATAS?
Ainda podemos agir. No começo da década de 1980, percebi a que ponto a destruição do meio natural acarretava o desaparecimento de numerosos animais da África, particularmente os chimpanzés. Abandonei então a floresta e o meu trabalho de pesquisadora para alertar o mundo inteiro. Comecei pela África, onde vi o quanto as dificuldades desse continente estavam inextricavelmente ligadas ao modo de vida de um mundo ocidental absolutamente não sensibilizado para o desenvolvimento sustentável.
Compreendi que de nada serve lutar para salvar uma única espécie, ou a floresta na qual ela vive. Tudo está ligado, e é necessário enfrentar todos esses problemas ao mesmo tempo.
Graças aos chimpanzés, comecei a me dirigir aos mais jovens e pude tocar o coração de milhões de crianças. Isso constitui hoje um programa intitulado Roots and Shoots (Raízes e Brotos), que se inspira no pequeno broto que começa a crescer em direção ao sol e acaba por se tornar uma árvore. Por meio do Instituto Jane Goodall (www.janegoodall.org), pusemos em prática diferentes programas, sobretudo escolares, e segundo as idades dos estudantes, desde o jardim da infância até a universidade. Criamos também grupos em grandes empresas, em campos de refugiados e até em prisões. Cada grupo concebe três projetos diferentes. O primeiro tem por objetivo implementar alguma ação útil na sua própria comunidade. Numa escola, por exemplo, auxiliando aqueles que têm dificuldades para aprender a ler e a escrever; na comunidade, ajudando as pessoas idosas a viver melhor o seu cotidiano e a romper a solidão; numa empresa, estimulando a triagem dos dejetos e uma utilização moderada dos recursos; para em seguida socorrer as vítimas de injustiças ou de catástrofes naturais, em algum lugar do mundo.
O segundo projeto consiste em conduzir uma ação destinada a melhorar a vida dos animais, e não unicamente dos animais de estimação. Enfim, o terceiro projeto se organiza ao redor de iniciativas de proteção ambiental. Alguns me dizem que, quando se vê o horror que nos circunda, percebe-se que a situação não tem esperança. Mas, ao mesmo tempo, vejo que há em toda parte, sempre, pequenos grupos de pessoas apaixonadas que, às vezes correndo risco de vida - e em alguns casos elas efetivamente a perdem -, fazem tudo o que podem para corrigir essa situação, e lutam pela justiça social e pela proteção do meio ambiente.
O campo MAGNÉTICO da Terra vai se inverter?
Embora se saiba que desde cerca de mil anos atrás a intensidade do campo magnético terrestre diminui, a hipótese de uma inversão desse campo está longe de ser estabelecida. As técnicas mais recentes de arqueomagnetismo demonstram que essa intensidade era uma vez e meia maior nos tempos do Império Romano. Sabemos que o campo magnético da Terra, que orienta as bússolas na superfície do planeta, varia ao longo do tempo. Sua direção também muda, o que se traduz por um deslocamento do pólo norte magnético. Sua intensidade também varia; hoje, esse escudo que nos protege das altas radiações provenientes do Sol se enfraquece em toda parte.
Na metade do século 20, descobrimos que o campo magnético da Terra se inverteu várias vezes no passado: durante os últimos 100 milhões de anos, quase 170 variações aconteceram, e a metade delas levou a uma inversão do campo. Ou seja, o pólo norte magnético se encontrou nas proximidades do pólo sul geográfico.
Ao examinarmos velhas rochas, podemos reconstituir as inversões desse campo. Com efeito, as partículas imantadas na lava e nos sedimentos maleáveis se orientam na direção do campo magnético ambiente e, ao se resfriarem e endurecerem, "congelam" para sempre essa direção. Pudemos verificar que a passagem de um campo normal para um campo invertido acontece em alguns poucos milhares de anos, um tempo muito curto em relação aos muitos milhares de anos que dura um campo normal ou invertido. Essa inversão é acompanhada, de início, por uma diminuição da intensidade do campo magnético. Depois, rapidamente, a intensidade aumenta ao mesmo tempo que a direção é totalmente alterada. Assim, no decurso dos últimos dez milhões de anos, o campo magnético se deslocou em média quatro a cinco vezes a cada milhão de anos. A última inversão ocorreu há 800 mil anos. Estamos agora num período muito estável. É difícil qualquer previsão a respeito da próxima inversão. |
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Os SUPERFURACÕES vão se multiplicar?
Os estudos mais recentes provam que as tempestades destruidoras que arrasaram com regularidade algumas regiões tropicais nos últimos anos formaram- se quase sempre quando a temperatura dos oceanos era superior a 26 graus centígrados e a umidade relativa do ar, superior a 70%. Muito bem: que sabemos a respeito do aquecimento dos oceanos e da umidade na atmosfera?
Desde meados do século 20, observa- se um leve aquecimento da atmosfera e dos oceanos, acompanhado da fusão de parte das geleiras. A origem desse aquecimento ainda é incerta, embora tudo leve a crer que ela é antrópica (causada pelo homem). Mas o sistema climático terrestre é muito complexo. Os modelos que tentam simulá-lo devem levar em conta as interações múltiplas entre a radiação solar, a atmosfera, os oceanos, o solo, a vegetação e a poluição, e algumas das suas hipóteses ainda precisam ser verificadas.
Uma demonstração das dificuldades: como constatamos que os oceanos se aquecem, a formação de tempestades deveria se acelerar. Mas, como também a atmosfera se aquece, torna-se muito difícil chegar a uma taxa de umidade igual ou superior a 70%, pois isso exige maiores quantidades de vapor d'água...
Portanto, no final das contas, concluise que a formação de furacões não é favorecida. Esse aspecto nos mostra toda a dificuldade que existe para se estabelecer relações simples entre o oceano, a atmosfera e o surgimento de furacões. Além disso, as condições de temperatura do oceano e a umidade do ar perto da superfície terrestre não constituem os únicos parâmetros que determinam o desencadeamento de uma tempestade tropical: uma baixa temperatura e uma fraca umidade do ar acima de três quilômetros de altitude também constituem fatores importantes. Nas condições descritas pelos modelos mais verossímeis de evolução do clima, nos próximos anos, os furacões não deverão ser forçosamente mais numerosos e mais vigorosos, nem mais violentos do que aqueles observados hoje em dia.
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